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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A santidade da Igreja

 


Diante do aumento da delinquência entre os jovens, os juízes tendem a condenar os pais, é razoável? Muitas vezes sim, mas o razoável é julgar sempre em cada caso quem e em que medida é culpado.  

Há a responsabilidade dos pais, mas também a do jovem, a da escola, a da rua; se pais e escola fizeram o possível e o jovem se corrompe pelo que encontra na rua, a culpa poderia ser do presidente.  

Mas tampouco se pode acusar rápido, pois também se deve julgar – de cima abaixo – quem cumpriu mal sua função, se o presidente ou o governador, o intendente, a polícia, ou simplesmente o vizinho desonesto. E se a culpa é do presidente, é culpada a pátria? Pode ser que sim, pode ser que não; não o seria se o governante agiu contra as leis e costumes e o consentimento geral.  

Suponhamos o caso em que a culpa foi do jovem, mas houve negligência do governador. Quem pode, então, pedir perdão? Evidentemente, perdoam-se os culpados e não os que não o são; e podem aqueles pedir perdão sob duas condições: mostrar sincero arrependimento e oferecer a devida reparação, pois são metafisicamente incapazes de perdão as más vontades.  

Mas também podem pedir perdão – embora de modo e razão muito diferente – os ofendidos: os pais ou o presidente; e o fazem com mais argumento, porque muito merece ser ouvido pela pátria e por Deus o pedido de perdão daqueles que têm sabido perdoar a seus devedores.  

Mas aqui é outra a condição: que sejam completamente inocentes, pois bem podem pedir perdão os meritórios pais que fizeram tudo que puderam para dar bons filhos à pátria, mas não cabe que peça perdão por outros o governador negligente quando tem sua parte que expiar. Se tanto nos valeu a voz que da Cruz exclamou: "Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem", foi porque era voz de "um Pontífice como convinha, santo, inocente, imaculado, afastado dos pecadores" (Hebreus 7, 26).  

Pode a Igreja pedir perdão pelos pecados de seus filhos? Assim o faz todo dia desde dois mil anos, mas não como ofensora e sim como ofendida, não como dolosa e sim como doída, não como culpada e sim como inocente e santa Mãe. A Igreja é santa e nunca se pode, em rigor de justiça, atribuir-lhe culpa nos pecados de seus filhos. "A Igreja verdadeira é SANTA – diz o catecismo de São Pio X – porque santa é sua cabeça invisível, que é Jesus Cristo, santos muitos de seus membros, santa sua Fé, sua Lei, seus Sacramentos e, fora dela, não há nem pode haver verdadeira santidade."  

Nunca pôde ninguém acusar a Cristo do menor pecado; dois mil anos de história têm mostrado a santidade de sua doutrina e das leis em que fundou sua Igreja; multidões de santos manifestam que os impulsos de graça que comunicam os Sacramentos levam à mais perfeita vida. Se um rei cristão ou um Papa cometeu pecados, salta aos olhos de um juiz honrado que o fez contra os mandamentos, exemplos e influências da santa Instituição a que pertencem. E nunca se poderá acusar a sua Cabeça de negligência no governo, pois para cada enfermidade de heresias ou pecados que haja podido invadir a Igreja, Nosso Senhor tem sabido despertar os anticorpos necessários.  

Pretender que a Igreja peça perdão ao mundo assumindo a culpa de seus filhos é cometer a mais aberrante das injustiças; é desconhecer a santidade da Igreja e blasfemar contra a santidade de Deus, que na pessoa do Verbo é sua cabeça e no Espírito Santo seu coração.  
Daí que o ato pelo qual o Papa anterior, em suposto nome da Igreja, pediu público perdão como de próprias culpas, resta como o maior ultraje jamais recebido por nossa Santa Mãe, que clama ao Céu por reparação. Moveu-o o ressentimento dos filhos liberais, castigados mil vezes por sua boa Mãe? Ou talvez a intenção de evitar que a Igreja seja crucificada, preferindo então – como Pilatos – oferecê-la ao mundo humilhada por uma autoflagelação: Ecce Mulier.  

Mas também há a grosseira materialidade do pensamento moderno que, intoxicada de nominalismo, vomita as distinções e formalidades dos escolásticos; e atribui ou nega, segundo convenha, o da parte ao todo e o do todo à parte.  

Se a parte peca, o todo deve assumir; e assim temos a Igreja ou a sociedade culpada de tudo que fizeram seus membros criminosos; mas não há que assustar-se tanto de assumir estas responsabilidades, porque agora se pode pedir perdão sem arrependimento nem reparação.  
Não deixa de ser lógico, porque se de tudo são culpados todos, no final a culpa não é de ninguém ou... se bem se pensa... a culpa é de Deus.

(Pe. Álvaro Calderón, F.S.S.P.X, La Santidad de La Iglesia)

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Sobre a subordinação do Estado à Igreja

 


Por Tommaso Maria Cardeal Zigliara, OP

I. Natureza da questão. Uma sociedade religiosa, da qual a Igreja Católica faz parte, vive em companhia da sociedade civil, de modo que o poder espiritual do Romano Pontífice está, por assim dizer, em contato com o poder civil, e aqueles que são civilmente sujeitos à autoridade temporal são, ao mesmo tempo, sujeitos à autoridade eclesiástica. É comumente admitido que a autoridade civil, dentro dos limites de seus fins, é independente da Igreja, da mesma maneira que dizemos que a Igreja, com relação a seus fins, é independente de qualquer autoridade civil. Mas é totalmente impossível que duas sociedades existam ao mesmo tempo com igual independência, isto é, sem subordinação mútua uma à outra; consequentemente, é necessário que ou a Igreja esteja subordinada ao Estado civil, ou o Estado civil à Igreja. Eis a questão, sobre a qual dissemos muitas coisas nos artigos 61 e 63, e cuja solução damos neste artigo final, para que se possa ver mais claramente a noção de etnarquia que pertence à Igreja Católica. Que a conclusão, portanto, seja declarada:

II. De modo algum a Igreja Católica está subordinada ao Estado civil, mas o Estado civil, por sua natureza, está subordinado à Igreja Católica. Esta proposição é facilmente demonstrada, se nos lembrarmos dos princípios que apresentamos no capítulo anterior. Pois a noção ou natureza da subordinação das sociedades deve ser tomada absolutamente a partir do fim: pois, visto que a natureza da sociedade surge do fim ao qual ela está ordenada, onde os fins de duas sociedades estão subordinados, as sociedades devem igualmente estar subordinadas; e uma sociedade cujo fim está subordinado ao fim de uma sociedade superior também está subordinada a essa outra. Estes são os princípios, sem os quais não há nada mais firme na determinação da natureza da sociedade. Mas o fim da sociedade civil e o fim da sociedade religiosa estão ordenados um ao outro, e o fim da sociedade civil está subordinado ao fim da Igreja Católica, e não vice-versa. Portanto, de modo algum a Igreja Católica está subordinada ao Estado civil, mas o Estado civil, por sua natureza, está subordinado à Igreja Católica. O menor está provado.

O fim da sociedade civil e o fim da sociedade religiosa estão ordenados um ao outro . Pois o homem é composto de alma e corpo e, como homem, é parte da sociedade. Mas a sociedade civil propriamente olha para a perfeição exterior do homem, porque não é capaz de penetrar nas coisas interiores da consciência, e o que é mais, porque considera o homem vivendo nesta vida, ela se preocupa principalmente com sua perfeição temporal; enquanto a Igreja Católica, como uma sociedade espiritual, é ordenada antes para a perfeição da alma e direciona os homens para a felicidade eterna. Mas embora essas coisas sejam verdadeiras, ainda é verdade que o homem não é capaz nem deve ser dividido, mas assim como a alma é para a perfeição do corpo e o corpo é para a perfeição da alma, assim igualmente a perfeição corporal — à qual o Estado civil atende diretamente — e a perfeição espiritual — que a Igreja de Cristo generosamente concede — ambas devem prover para o homem todo. Portanto, os fins de ambas as sociedades, embora distintos entre si, concordam em um fim comum, que é o homem a ser aperfeiçoado; e, consequentemente, esses fins são ordenados uns aos outros.

O fim da sociedade civil está subordinado ao fim da Igreja Católica, e não o contrário. De fato, nada proíbe que o homem, como um composto de alma e corpo, não procure para si, de maneira correta, todas as coisas que coincidem para viver esta vida confortavelmente. No entanto, é irracional e repulsivo submeter a alma ao corpo de tal maneira que ela seja escrava do corpo e menospreze sua perfeição intelectual, de modo que em seu corpo ele leve uma vida de acordo com o padrão dos animais irracionais; mas o corpo deve ser subserviente à alma. — Além disso, cheira a demência pensar que o homem deva ser solícito da felicidade temporal — felicidade essa que ele deve perder, quer a queira ou não — e não pensar em alcançar a felicidade eterna: Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que troca dará o homem pela sua alma? (Mateus XVI, 26). Pois não temos aqui uma cidade permanente, mas buscamos a vindoura (Hebreus XIII, 14). Portanto, tudo o que o homem busca nesta vida, tudo o que busca para si na sociedade civil e da sociedade civil, ou o busca perversamente, ou deve ordenar à perfeição espiritual e eterna da alma. Portanto, como o fim da Igreja é a perfeição interior e eterna do homem, mas o fim da sociedade civil é a sua perfeição exterior e temporal, o fim da Igreja não está subordinado ao da sociedade civil, mas esta, sim, àquela.

III. A Igreja Católica é uma sociedade etnárquica. Antes de provar que a Igreja Católica é verdadeiramente uma sociedade etnárquica e, consequentemente, que nela existe uma verdadeira etnárquia, considero útil dedicar um momento para apresentar a doutrina de São Tomás a respeito de Cristo, na medida em que Ele é a Cabeça de todos os homens: «Há esta diferença entre a cabeça natural do homem e o corpo místico da Igreja: os membros do corpo natural estão todos juntos; mas os membros do corpo místico não estão todos juntos: não quanto ao ser da natureza, porque o corpo da Igreja é constituído por homens que existiram desde o princípio do mundo até o seu fim; nem quanto ao ser da graça, pois, mesmo daqueles que estão em um tempo, alguns carecem da graça, a ser adquirida mais tarde, enquanto outros já a possuem. Assim, portanto, os membros do corpo místico são tomados, não apenas conforme são em ato, mas também conforme são em potência. No entanto, há alguns em potência que nunca são reduzidos a agir; Enquanto há alguns que são reduzidos a agir em algum momento ou outro. E isso ocorre de acordo com um triplo grau: o primeiro dos quais é pela fé; o segundo pela caridade do caminho; o terceiro pela fruição da pátria . Assim, portanto, deve-se dizer que, tomando-o geralmente de acordo com todo o tempo do mundo, Cristo é a cabeça de todos os homens, mas de acordo com diversos graus. Pois, primeiramente e principalmente, Ele é a cabeça daqueles que estão unidos a Ele em ato pela glória; em segundo lugar, daqueles que estão unidos em ato a Ele pela caridade; em terceiro lugar, daqueles que estão unidos em ato a Ele pela fé; em quarto lugar, daqueles que estão unidos a Ele apenas em potência ainda não reduzida a ato, que ainda deve ser reduzida a agir de acordo com a predestinação divina; em quinto lugar, daqueles que estão unidos a Ele em potência, potência essa que nunca se reduz ao ato: como homens que vivem neste mundo, que não são predestinados, que, contudo, recuando desta era, cessam inteiramente de ser membros de Cristo, porque já não estão em potência, como para estarem unidos a Cristo» (IIIa, q. 8, a. 3).

A partir desses princípios, nossa tese é facilmente provada. De fato, a Igreja Católica abrange todas as nações, seja em ato ou em potência, como ouvimos de São Tomás; além disso, é por natureza uma sociedade doutrinária e possui um magistério infalível nas questões que dizem respeito a dogmas e moral; é uma sociedade cuja cabeça invisível é o próprio Cristo, ao mesmo tempo Deus e homem; cuja cabeça visível é o Sumo Pontífice Romano, exaltado com dignidade sobrenatural, sujeito a nenhum homem, tendo poderes civis subordinados a ele e dirigido, pela assistência especial do Espírito Santo, à salvação das nações. Na Igreja, portanto, você tem universalidade , você tem magistério doutrinário , você tem dignidade e supereminência: todas as coisas, a saber, que são necessárias para uma etnarquia , isto é, para uma autoridade válida sobre todos os povos ou nações. — Esta sábia política prevaleceu, para o bem dos povos, na Idade Média, isto é, quando os povos e os reis verdadeiramente cristãos recebiam e veneravam, no Romano Pontífice, o Vigário de Cristo — cujo nome, como diz Isaías, é Maravilhoso, Conselheiro, Deus Poderoso, Pai do mundo vindouro, Príncipe da Paz. 

ZIGLIARA, Tommaso Maria. Summa Philosophica. Parte III, Livro II, cap. V: Das relações recíprocas entre a Igreja e o Estado, art. V. Roma: Tipografia Poliglota Vaticana, [ano da edição], p. 313–316. Tradução nossa.

Conselhos para escapar dos laços do diabo

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