quinta-feira, 24 de julho de 2025

Comentários de Evágrio Pôntico sobre a luxúria

 


O demônio da fornicação, como ele mesmo diz, é um demônio que possui engenhosidades para tentar os outros. Vejamos:

"Quando alguém adquire a impassibilidade da parte concupiscente e faz com que os pensamentos vergonhosos sejam doravantes um pouco esfriados, este demônio introduz homens e mulheres [que se divertem juntos] e torna o sujeito um espectador de cenas e atitudes condenáveis. Contudo, essa tentação pode ser combatida com oração intensa e regime estrito unido às vigílias e os exercícios de contemplação espirituais".

Logo, vemos que a parte do irascível deve ser fortalecida na primeira parte da luta contra esses maus pensamentos. O irascível ordenado seria um remédio útil nas tentações.

"...é preciso estar atento a isso e arrancar rapidamente do intelecto tais imagens, para que elas não se tornem um — tição fumegante — que nos leve a ceder contra tentações.

Todos os pensamentos impuros que persistem em nós por causa das paixões fazem o intelecto decair "até a ruína e a perdição". (1Tm 6, 9)

Os efeitos desastrosos de tais pensamentos levam o intelecto a rejeitar as refeições divinas — isto é — o conhecimento e a busca de Deus nas Sagradas Escrituras. Logo, vemos que a persistência e o consentimento dos maus pensamentos nos levam a perder as ciências de Deus (as virtudes).

O coração precisa estar atento para verificar aquilo que o intelecto está nutrindo. Como o intelecto não pode receber duas imagens ao mesmo tempo, façamos o seguinte contra as tentações:

É preciso que nos momentos de tentações, façamos o intelecto sair de um pensamento impuro para uma outra representação, e desta para uma outra, para que não alimentemos o nosso enganador com sua tentação diabólica.

Caso o intelecto não se desloca do objeto de tentação, ele vai se submergir pela paixão, e se arrisca a caminhar ao pecado pelo ato. Esse intelecto tem necessidade de vigília, purificações e orações.

O pensamento demoníaco (a tentação) são representações de imagens do homem sensível ao passo que ele as alimenta levado pelas paixões na fala, no modo de vestir ou age em segredo.

O intelecto divaga quando está apaixonado (dominado por uma paixão) e se torna difícil de segurar quando visita e revisita as matérias produtoras do prazer.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Como combater a negligência

 


A negligência é um obstáculo à perfeição, pois entrega os que têm este vício, nas mãos dos inimigos. Para que não te tornes escrava deste pecado, é preciso que fujas da curiosidade, do apego aos bens terrenos e de qualquer ocupação que não convenha ao teu estado.

É preciso que faças esforço para corresponder com presteza a toda a boa inspiração e a qualquer ordem de teus superiores, fazendo tudo no seu tempo, e do modo que os superiores querem.

Não demores, por pouco que seja, a obedecer. Esta falta de diligência acarretará uma segunda, logo uma terceira e outras muitas. Os sentidos se habituam à negligência e cederás então, mais facilmente que no princípio, pois já estás presa do prazer que provaste.

E assim te irás habituando a começar teu trabalho muito tarde, ou então, deixá-lo-ás muitas vezes, como coisa merecida. Pouco a pouco, irá se formando o hábito de negligencia, que se tornará totalmente forte, que, no momento da falta, reconheceremos que somos muito negligentes, sentiremos repugnância de nós mesmos, mas somente faremos o propósito de, mais tarde, em outra ocasião, sermos solícitos e diligentes.

Esta negligência atingirá a toda a nossa alma. Seu veneno infeccionará não somente a vontade, fazendo-a aborrecer aquele trabalho, mas chegará a obcecar a inteligência, de modo tal que ela não verá como são vãos aqueles propósitos de resistir, no futuro, diligentemente, às tentações a que agora, voluntariamente, sucumbirmos.

Não basta fazer, a qualquer momento, o que devemos fazer. É preciso esperar o seu tempo, que será marcado pela hora de realizá-lo, importa fazê-lo com toda a diligência, para que seja cumprido o dever, com toda a perfeição possível.

Fazer um trabalho antes do tempo, não é diligência, mas finíssima negligência. Fazê-lo apressadamente e sem cuidado, com os olhos fitos no descanso que poderemos desfrutar depois, também não passa de negligência.

Estes atos acarretam grande mal à alma, porque não se considera o valor da obra boa, feita no seu tempo, e não se enfrenta com animo resoluto, a fadiga e as dificuldades, que o vício da negligência apresenta, sempre, aos soldados novos.

Deves lembrar-te que uma só elevação da mente a Deus e uma genuflexão em sua honra, vale mais que todos os tesouros do mundo. E que, sempre que fazemos violência a nós mesmos e às nossas paixões viciosas, os anjos nos trazem do reino dos céus uma coroa de gloriosa vitória.

Aos negligentes, Deus vai tirando as graças que lhes dava, e aos diligentes as graças vão crescendo, para que aquelas almas gozem, um dia, no Senhor.

Se nos primeiros princípios, não tens energia para reagir generosamente contra a fadiga e as dificuldades, sempre que as ocultes, para que pareçam menores do que os negligentes as dizem.

Às vezes, é preciso que faças muitos e muitos atos para conquistar uma virtude, e te afadigues muitos dias. Os inimigos te parecem então muito fortes. Começa por isso, a produzir atos, como se fizesses pouca conta deles. Imagina que é por pouco tempo que te precisas afadigar. Combate contra um inimigo, como se não te restassem outros a serem combatidos. E tem sempre uma grande confiança no auxilio que Deus te dispensará, mais forte que o poder dos inimigos. Deste modo, tua negligência começará a se enfraquecer e tua alma se irá dispondo a adquirir a virtude contrária.

Digo o mesmo a respeito da oração. Se ela, por exemplo, deve durar uma hora e isto parece pesado à tua negligência, começa a rezar como se fosse fazer somente durante um oitavo de hora. Passarás depois, com facilidade, ao segundo oitavo, ao terceiro e assim por diante. Mas se, no segundo ou em algum outro oitavo de hora, sentisses que a repugnância e a dificuldade eram fortes demais deixa para depois a oração, para não te cansares em demasia. Mas não te esqueças de retomar, pouco depois, o exercício.

Do mesmo modo deves proceder quanto aos trabalhos manuais, quando acontece que precises fazer muitas coisas e pareçam dificultosas demais, à tua negligência, e te causam aflição.

Começa o teu trabalho corajosamente, e empreende uma das obras, como se fosse a única. Cumprirás assim, todo aquele mister que, à tua negligencio, parecia de grande fadiga.

Se assim não fizeres e não combateres a negligência, prevalecerá em ti este vício, que, não somente a fadiga que sentires durante o exercício da virtude te assustará, mas temerás sempre as dificuldades que te advirão dos trabalhos futuros. E estarás sempre ansiosa, temerás sempre os futuros assaltados do inimigo e recearás a todo o momento, que alguém te venha impor alguma coisa desagradável. Viverás sempre inquieta.

E lembro-te, filha, de que este vício da negligência, pouco a pouco, com seu veneno escondido, não somente ataca as primeiras e pequeninas raízes, que fariam crescer os hábitos das virtudes, mas ferem também os hábitos já adquiridos. É perfeitamente, como o cupim. O vício vai roendo insensivelmente e consumindo o âmago da vida espiritual. O demônio arma este laço contra todos os homens, especialmente contra os mais piedosos.

Vigia, portanto, reza e pratica o bem e não te demores a tecer a fazenda para a veste nupcial, pois deves estar sempre pronta para ir ao encontro do esposo.

E lembra-te todo o dia, de que quem te dá a manhã não te promete a tarde, e quem te dá a tarde não te promete a manha.

Usa, portanto, de todos os teus segundos e minutos, de acordo com a Vontade Divina, e como se fossem os últimos momentos de tua vida. Além disto, deverás prestar conta minuciosíssima de todos os teus instantes.

Concluo, aconselhando-te a que tenhas como perdido o dia em que, mesmo se trabalhaste muito, não conseguiste muitas vitórias contra as tuas más inclinações e contra a tua vontade própria, ou não agradeceste ao Senhor dos benefícios que te concedeu, particularmente a penosa Paixão que Ele sofreu por ti, e paterno e doce castigo, com que te puniu, te fez digna do tesouro inestimável de algumas tribulações.

Lourenço Scúpoli - O Combate Espiritual e o Caminho do Paraíso

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Força e coragem no militante católico


Dir-se-á que a coragem, a bravura ou a fortaleza são virtudes morais que nada podem diminuir, desde que inspirem uma atitude firme diante dos obstáculos que as variadas fortunas de cada um opõem aos seus projetos. O burguês não é mais covarde do que qualquer outro tipo humano e, embora seu apego aos bens terrenos pouco contribua para desenvolver nele um senso heroico de vida, sua indubitável disposição para dominar as coisas o leva a enfrentar decisivamente todas as dificuldades que surgem no caminho do sucesso. Isso também é fortaleza, embora muito limitada aos perigos físicos e totalmente desprovida daquela magnanimidade e magnificência que conferem à paixão dos heróis e santos sua projeção transcendente. Foi dito, com grande exatidão, que o principal objetivo da fortaleza é o maior perigo que uma pessoa pode correr. Isso fica claro quando se depara com a possibilidade da morte. A fortaleza consiste na capacidade de enfrentar tais perigos: " propter aliquod bonum consequendum " (em prol de algum bem que deve ser alcançado), como afirma São Tomás. Para tanto, acrescenta o Santo Doutor, devemos nos preparar, por meio de longa meditação prévia, para sacrificar todos os bens particulares e, antes de tudo, nossas próprias vidas, a fim de alcançar um bem mais nobre (Summa Theologica II, IIae Q. 123). Nessa perspectiva teológica, a fortaleza não é apenas a capacidade de enfrentar eventuais perigos, mas a aceitação lúcida do sacrifício supremo, na serena integridade de quem escolheu o bem maior. Isso não pode acontecer a menos que seja acompanhado por um profundo conhecimento do sentido último da vida. A coragem sem sabedoria, característica de um temperamento valente, não é fortaleza em sentido estrito, e a ignorância dos fins transforma a coragem em sua deformação mais vil, que é a violência. A violência e a preguiça são os vícios que moldam o espírito de irascibilidade burguesa. 

Rubén Calderón Bouchet . O Espírito do Capitalismo: AUSTERIDADE, uma virtude social e militante.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

O Reino de Deus na vida íntima



Por D. Rubén Calderón Bouchet

Não vê quem quer, mas quem pode. Verdade de simples bom senso, fundada na aptidão da vista para perceber, mediante um exercício adequado, aspectos da realidade não notados pelo inexperiente. A vida espiritual do homem é um exercício constante, cujos progressos se medem pelas mudanças qualitativas experimentadas na condução da própria vida. A explicação deste fato possui um grau inevitável de inefabilidade, mas pode ser compreendida pela analogia existente em todas as experiências espirituais. O poeta, o músico, o sábio e o cientista, em suas respectivas esferas, conhecem as transformações provocadas pelo aprofundamento no domínio de seu saber ou de sua arte. Há um nível de profundidade, de compromisso vital com a ordem real, que é fruto de uma conquista espiritual permanente.

A vida religiosa obedece a um ritmo análogo, e seu progresso ou atrofia depende, em grande medida, da resposta adequada dada pelo homem aos movimentos da Graça. Os grandes místicos de todos os tempos, mas em particular os profetas de Israel e os santos da tradição cristã, deixaram um testemunho preciso de suas experiências interiores. A dificuldade de serem compreendidos pelo homem de hoje se deve à anemia religiosa, e não, como se pretende fazer crer, à incidência de uma linguagem escrita para outra época. A linguagem religiosa — como a musical ou a poética — requer, para ser compreendida, uma alma afinada na percepção de suas invocações. Os costumes grosseiros de uma época mergulhada no sensualismo de experiências epidérmicas tornam cada dia mais difícil a tarefa de penetrar na profundidade da alma onde habita o Espírito Santo.

Sendo de natureza decaída, o homem foi chamado pelo batismo a uma forma de vida mais nobre. O batismo possui um duplo significado: a morte do homem do pecado e o nascimento para uma participação mais íntima na existência de Deus. O bem dado pela Graça — disse São Tomás de Aquino — é mais importante que todos os bens naturais do universo: inicia a vida eterna e, por conseguinte, a realização do Reino de Deus nas almas. 

Não basta a presença sobrenatural de um germe de vida divina para o advento do Reino de Deus. É necessário um cuidado permanente e uma tenaz atenção empenhada no delicado crescimento dessa semente. A fé, a esperança e a caridade cristãs constituem um organismo espiritual regenerador, cujo vigor atua de modo criador e em perpétua colaboração com a boa disposição das faculdades e apetites naturais. Foi erro luterano crer em uma justificação do homem imputável exclusivamente aos méritos de Cristo, como se a Graça abolisse a liberdade humana e construísse o Reino de Deus sem a contribuição voluntária do crente.

Rubén Calderón , Apogeu da Cidade Cristã, Cap. 1, O Reino de Deus na Vida Íntima, Art. 4.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

Sã Filosofia

 


Para combater o subjectivismo e o racionalismo, que são a base dos erros liberais, não farei alusão às filosofias modernas infectadas precisamente de subjectivismo e racionalismo. Não é nem o sujeito, nem os seus conhecimentos e os seus anseios que a filosofia de sempre, e em particular a metafísica, toma por objecto, é o ser mesmo das coisas, é aquilo que é. Com efeito, é o ser com as suas leis e princípios, o que nosso conhecimento mais espontâneo descobre. E no seu ápice a sabedoria natural (que é essa filosofia) chega pela teodiceia ou teologia natural ao Ser por excelência, ao Ser subsistente por si mesmo. É este Ser primeiro que o senso comum, apoiado, sustentado e elevado pelas verdades da fé, sugere que seja colocado no topo do real, conforme a Sua definição revelada: Ego sum qui sum (Ex 3, 14): Eu sou aquele que sou. Bem sabeis que quando Moisés perguntou o Seu nome, Deus respondeu: Eu sou o que sou, o que significa: Eu sou Aquele que é por si mesmo, possuo o Ser por mim mesmo. É o ens a se: o ser por si mesmo, em oposição a todos os outros seres que são ens ab alio: ser por outro ser, pelo dom que Deus lhes fez da existência! Este é um princípio tão admirável, que se pode meditar sobre ele durante horas. Ter o ser por si, é viver na eternidade, é ser eterno. Aquele que tem o ser por si mesmo sempre teve que tê-lo, o ser nunca poderia havê-lo abandonado. É sempre, foi sempre, será sempre. Pelo contrário, aquele que é ens ab alio, ser por outro ser, recebeu de outro, portanto começou a ser em algum momento, portanto começou!

Como esta consideração nos deve manter humildes! Compenetrarmo-nos do nada que somos diante de Deus! "Eu sou aquele que é, e tu és aquele que não é", dizia Nosso Senhor a uma santa alma. Como é verdadeiro! Quanto mais o homem absorver este princípio da mais elementar filosofia, melhor saberá o seu verdadeiro lugar diante de Deus.

Somente o facto de dizer: eu sou ab alio, Deus é ens a se; eu comecei a ser, Deus é sempre. Que contraste admirável! Que abismo! É por acaso este pequeno ab alio, que recebe o seu ser de Deus, que teria o poder de limitar a Glória de Deus? Teria o direito de dizer a Deus: tens direito a isto, mas mais nada? "Reina nos corações, nas sacristias, nas capelas, sim; mas na rua e na cidade não!" Que insolência! Igualmente seria este ab alio quem teria o poder de reformar os planos de Deus, de fazer com que as coisas sejam de outra maneira, diferentes de como Deus as fez? E as leis que Deus, em Sua sabedoria e omnipotência criou para todos os seres e especialmente para o homem e para a sociedade, teria o desprezível ab alio o poder de rechaçá-las a seu capricho, dizendo: "Eu sou livre!" Que pretensão! Que absurda esta rebelião do Liberalismo! Vede como é importante possuir uma sã filosofia e ter assim um conhecimento profundo da ordem natural, individual, social e política. Para isto o ensinamento de Santo Tomás de Aquino é insubstituível. Leão XIII o citou na sua encíclica Aeterni Patris de 4 de Agosto de 1879:
«Some-se a isto que o Doutor Angélico procurou as conclusões filosóficas na razão e princípio das coisas, princípios estes que se estendem amplamente e encerram em seu interior as sementes de inúmeras verdades que dariam abundantes frutos com os mestres posteriores. Tendo empregado este método de filosofia, conseguiu vencer os erros dos tempos passados e fornecer armas invencíveis para refutar os erros que sempre haviam de se renovar nos séculos futuros.»

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

Conselhos para escapar dos laços do diabo

  Quem quer escapar dos laços e tentações finais do anticristo ou do demônio, deve abrigar dos sentimentos em si mesmo: Primeiro, que sinta...