segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O caráter antirreligioso da civilização moderna

 


Se se excetuam os territórios que a civilização racionalista de nosso tempo ainda não desquiciou, dos quais fazem parte a maioria dos países de missão, em toda parte o cristianismo estagna, regride ou ainda morre nas sociedades humanas. Onde se forma o homem-massa — que não é somente o proletário —, o cristianismo se anemiza e desaparece; basta lançar um olhar sobre as vastas aglomerações edificadas pelo industrialismo para estar convencido disso. Na presença dessa lepra imensa e transbordante que aumenta sem cessar, tem-se a impressão desconsoladora de que o Senhor começa de novo, segundo a forte expressão do P. Don-coeur, a política da Arca de Noé.

A crise perigosa atual é evidentemente contemporânea da civilização racionalista; tem dela a extensão territorial. Há aí muito mais que uma simples coincidência.

O próprio do racionalismo moderno é, com efeito, desencarnar o homem, separando dele o espírito e a vida. Os miasmas que difunde graças a uma técnica e a uma política tão coletivas quanto possível penetram nele por todos os seus poros e o tornam incapaz de suportar a menor dose de fermento cristão. O homem formado pela civilização contemporânea rejeita mecanicamente o enxerto do cristianismo. Tornou-se constitutivamente inapto para receber a mensagem de encarnação que lhe propõe a fé cristã, pois as bases naturais que poderiam acolhê-la foram minadas nele de cima a baixo. O fracasso da evangelização das massas é um fato patente, apesar do trabalho e da santidade empregados por aqueles que generosamente a empreenderam. Esse fracasso tem, por outro lado, um antecedente histórico: o cristianismo não penetrou nas massas romanas entregues aos jogos do circo e aos vendavais do Império em perdição, embora estivesse então na plenitude de sua juventude e de seu ardor conquistador.

A razão desse fracasso ressonante, que não exclui, por outro lado, certos resultados individuais ou esporádicos, parece-nos clara. Um dos resultados mais claros da desvitalização do espírito e da desespiritualização da vida provocadas pelo racionalismo é a perda do sentido ontológico do real, em particular do real mais próximo: o próprio próximo. O homem-massa, tomado como tal, é literalmente inabordável, salvo quando se excita nele o último reflexo de sua vitalidade em declínio: o da conservação e da defesa, que se opõe precisamente ao próximo. Seu espírito desencarnado, desenraizado da vida e dos corpos superiores que são a família, a profissão, a pátria, encontra-se sem defesa diante das ideologias e das técnicas do coletivismo que louvam sua propensão nativa à ruptura e que lhe aparecem como um ersatz de salvação. Na mesma medida em que aspira confusamente a salvar-se, seu desenraizamento da vida o desvia do real e o obriga a construir completamente essas ideologias e essas técnicas, que bastará em seguida a hábeis condutores orquestrar e sistematizar em função de seu último reflexo de defesa contra a morte. Essa é, sem dúvida, a tara essencial do liberalismo burguês e do socialismo proletário: ter desconhecido, em proveito de seu próprio triunfo, a condição encarnada do homem e suas relações orgânicas com a realidade.

Tendo perdido o sentido do real e do próximo, mas obrigado a viver ao lado de seus semelhantes, o homem refugia-se então numa representação abstrata e imaginária da existência social, que se apresenta para ele como um absoluto porque entretém seu eu ilusoriamente liberado de todo quadro, de toda obrigação, e que, no entanto, é o contrário do absoluto porque é irreal. Seu ateísmo, como sua crença degradada, sua mística — que, semelhante àquela que ele nega, admite graus, desde o gesto ritual, recobrindo uma participação reduzida até a visão — derivam diretamente disso.

Pois o coletivo, na medida em que o é, não pensa, não sente, não experimenta nenhuma impulsão afetiva em direção a outro ou ao que o ultrapassa. Somente um ser pessoal, em quem o espírito se encarna na vida e que pela vida percebe a transcendência do real, é capaz de pensar, de sentir ou de amar.

Um homem que se identifica ao coletivo reduz-se a um mecanismo manobrado do exterior, de onde a menor ideia de Deus é desterrada. Se a desflora, é como a semente caída sobre a pedra, cujo germe não pode penetrar no interior de um meio vital. Aborta sem remissão. É somente em um ser cujo espírito não está separado da vida que a ideia de Deus pode ser um início, um pressentimento, uma espécie de palpitação obscura da realidade existencial do Absoluto, porque encontra nela um terreno já preparado por todas as transcendências terrestres concretas que encontrou.

Por essa razão, o homem que está absorvido pelo coletivo se produz cegamente desde que lhe é apresentada a ideia de Deus, a fortiori a de Cristo, Deus encarnado na existência terrestre. Submerso num não-ser coletivo e num absoluto social irreal, seu pensamento em declínio fecha-se hermeticamente diante de toda ideia que se prolonga numa existência pessoal e concreta. Seu aprisionamento no eu por baixo e num universal sem forma e sem semblante por cima faz dele um ateu para quem a ideia de Deus não tem nenhum sentido.

A própria palavra de Deus o transtorna, pois não pode crer senão numa pseudoexistência coletiva que conforta idealmente sua vitalidade desfalecente. Tocamos aqui o grande mistério do ateísmo religioso. O homem que não crê em nada sem dúvida jamais existiu, mesmo antes da pregação do Evangelho. Crer é essencialmente aderir a alguma coisa que não se pode ver, palpar ou mesmo pensar, mas que existe para além do inapreensível. A fé é consubstancial ao homem porque ele não é tudo. Mas no homem desencarnado a crença vai de um só ímpeto para a coletividade universal e imaginária que leva em seu espírito, à qual se agarra com tanto mais força quanto mais se confunde com seu próprio eu. O coletivo é, ao mesmo tempo, o mesmo e além, como Deus. Sem essa imersão no coletivo e no ombro a ombro do rebanho que multiplica sua fraqueza e a mascara em potência, ele seria varrido sem piedade para fora do mundo, no qual não tem mais que ínfimas possibilidades de inserção. É-lhe necessário reencontrar o mundo do qual se desenraigou: é necessário que viva. O único sentido do divino que ainda possui é o de um panteísmo degradado, que se condensa totalmente na posse do mundo pela coletividade imaginária da qual é membro, porque já não pode estar no mundo sozinho: sua desencarnação o expulsa dele. Agarra-se assim ao coletivismo ateu e religioso como a uma tábua de salvação. Para ele, a coletividade erige-se em mediadora da existência, como o Cristo, mas de uma existência exclusivamente orientada para a terra na qual deve viver. Seu panteísmo dobra-se de materialismo radical.

Assim, o homem formado no clima da civilização moderna evolui pela vertente oposta ao cristianismo; é incapaz de conceber um Deus pessoal, um Deus espiritual que se encarna para a salvação dos homens. Para concebê-lo é necessário que o evangelizador o faça subir as encostas que desceu. Os fundamentos da crença em Deus estão afundados em seu ser; restam apenas cumes cujo penoso ascenso será de fato excepcional. O restante, os imperceptíveis movimentos em direção à transcendência, só Deus os vê e os julga.

Por mais amarga que seja essa constatação, é necessário dizer que a readaptação ao cristianismo do homem entregue aos prestígios da civilização atual — e semelhante homem forma legião — só é possível na medida em que escapará às influências deletérias que suporta. E nada permite prevê-lo. Do mesmo modo que no termo da civilização antiga, mas incomparavelmente mais profunda e mais universalizada, parece que o homem moderno esteja atado à civilização que construiu e que será necessária uma catástrofe inimaginável para romper sua convivência maléfica. Quando se considera com que avidez, com que exaltação ou com que estupor resignado o homem atual acolhe as ideias racionalistas que enchem seu espírito sem vida e saturam seus instintos animais, é preciso convir que essas ideias constituem a projeção de sua substância mais íntima e que ele se reencontra nelas.

O cristianismo tem tanto mais dificuldade em manter-se em seu ambiente quanto mais se articulam três linhas de força diretamente opostas ao dinamismo da mensagem cristã: a ideia de progresso, os sortilégios da técnica, o cerco da política.


CORTE, Marcel de. Ensayo sobre el fin de nuestra civilización, p. 180–185.

domingo, 11 de janeiro de 2026

A Virtude da Temperança

 


A temperança liga-se estreitamente à prudência pois modera as paixões do concupiscível e conserva-as num justo meio razoável entre o excesso e a carência. Ela se une à justiça pelos atos e pela rejeição à intemperança, vício essencialmente próprio ao indivíduo dedicado ao seu prazer pessoal. Ela é companheira da força, que luta pelo bem comum, já que é impossível ser forte sem ser temperante.
(...)
Não há nenhuma outra virtude que esteja em mais estreita conexão com todas as demais ou que lhe seja mais extensível: quase todas as virtudes, cardeais ou não, tem necessidade da temperança para se levar a efeito. Seu uso é freqüente, cotidiano, e, se a força a supera “dum certo modo” (quoad aliquid) por seu aspecto social, por sua freqüência necessária e pelos vínculos concretos com as demais virtudes, a temperança pode encontrar a preferência do moralista, não somente em relação à força, mas “mesmo à justiça”. Ela é uma virtude viril e santo Tomás, seguindo Aristóteles, comenta com precisão que seu contrário “é um pecado de concupiscência” excessiva que, de ordinário, atribuímos às crianças. Igualmente destaca, acompanhando “o mestre daqueles que sabem”, que a intemperança é um vício mais grave que a pusilanimidade, porque é mais voluntária, mais própria do homem feito. O pusilânime tem quase sempre o espírito paralisado diante do perigo da morte física ou moral; é mais sujeito aos impulsos exteriores que sofre, mais sensível aos riscos e às ameaças em geral. O intemperante é atraído pelos gozos particulares, adjacentes ou acessórios às concupiscências da natureza. Ora, “é pura e simplesmente mais voluntário o que é voluntário nas ações singulares, nas quais culminam a virtude ou o vício, no sentido próprio dos termos”.

Mas, indo um pouco além, estas ações singulares não estão isoladas de seus prolongamentos sociais. A vergonha que se associa à intemperança se opõe à honra e distinção da virtude contrária. Sem dúvida, a intemperança é freqüente em meio à humanidade, e sua repetição, por demais visível, parece diminuir a vergonha e a desonra que se associam a ela na opinião dos homens. Todavia, elas não se apagam completamente dali: a natureza do vício ao qual sucumbe o intemperante, marcada por sua gravidade, opõe-se a isto. Demais, os estigmas deixados pela intemperança sobre o aspecto do homem ― a abjeção de sua conduta libidinosa ― apagam, diz-nos Santo Tomás com profundeza, o brilho e a beleza inerentes ao homem temperante, equilibrado, dono de si, seguro das finalidades que persegue, e cuja razão ilumina, por sua transparência, os atos virtuosos. Um visível envilecimento caracteriza o libidinoso e, na mulher, os artifícios que o dissimulam só acentuam a ausência de castidade. Todos esses sinais, ao mesmo tempo individuais e sociais, cujos sentidos são evidentíssimos, manifestam que o homem ou a mulher entregues à intemperança se rebaixam ao nível do animal, destruindo em si as marcas do seu caráter verdadeiramente humano.

Marcel de Corte. A temperança, virtude desaparecida. Publicado originalmente na Revista Itineraires n. 250, Fev/81 Tradução: Permanência.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As regras de Santo Inácio de Loyola para o discernimento dos espíritos

 


1. Àqueles que vão de pecado mortal em pecado mortal costuma, geralmente, o inimigo propor gozos aparentes e despertar-lhes na imaginação prazeres e desejos impuros, para mais os conservar e mergulhar em seus vícios e pecados. Ao contrário, o bom espírito causa-lhes remorsos e estímulos de consciência para os retirar de tão lastimoso estado.

2.Com aqueles que procuram intensamente purificar-se de seus pecados, e progredir no serviço de Deus, Nosso Senhor, dá-se o contrário do que foi dito na primeira Regra. Pois neles costuma o demônio suscitar perturbações de consciência, tristeza e desânimo, inquietando-os com falsas razões, para que não vão por diante na sua santificação. Pelo contrário, é próprio do bom espírito dar coragem, forças, consolações, lágrimas, inspirações e tranqüilidades, tornando-lhes tudo fácil e afastando todos os impedimentos, para que vão sempre adiantando na virtude e perfeição.

3. Da consolação espiritual. Chamo consolação qualquer movimento interno que impele a alma para mais servir e amar o seu Criador e Senhor, afastando-a, por conseguinte, de todas as coisas criadas para só descansar no Criador delas; e também quando provoca lágrimas de amor a Deus, de dor dos próprios pecados, de compaixão pela morte de Cristo e de outras coisas ordenadas diretamente ao seu serviço e louvor; finalmente, chamo consolação a todo aumento de fé, de esperança e caridade, e a toda a alegria interna que atrai o homem para as coisas celestes e salvação de sua alma, dando-lhe paz e tranqüilidade em seu Criador e Senhor.

4. Da desolação espiritual. Chamo desolação tudo que é contrário ao que foi mencionado na terceira Regra, como por exemplo: trevas na alma, perturbações, inclinação para coisas baixas e terrenas; desassossego por várias tentações, que impelem a alma para a desconfiança, enfraquecendo-a na fé e na caridade, tornando-a triste e indolente no serviço de seu Criador e Senhor. Porque da mesma forma que a consolação é contrária à desolação, também os pensamentos, que nascem da consolação, são contrários aos que nascem da desolação.

5. No tempo da desolação não se deve mudar nada, mas perseverar firme e constante nos propósitos feitos no tempo da consolação; porque do mesmo modo que na consolação nos aconselha e guia o bom espírito, assim o mau nos causa, na desolação, sugestões, a que não podemos dar assentimento.

6. Ainda que na desolação não devamos mudar nossos propósitos, contudo é muito útil agir contra a mesma desolação, persistindo, por exemplo, mais tempo na oração, no exame de consciência e alargando-nos mais no uso das penitências.

7. Quem está na desolação considere que o Senhor, para o provar, o abandona a suas próprias forças naturais, a fim de que resista às várias tentações do inimigo; pois não lhe falta o auxílio divino, ainda que o não sinta; porque, se o Senhor lhe tirou o fervor primitivo, e sensível, e a graça superabundante, deixou-lhe todavia a graça suficiente para a sua salvação.

8. Quem está na desolação, trabalhe por levar com paciência as penas que lhe sobrevêm e pense que prontamente será consolado, tomando as medidas contra tal desolação como foi indicado na 6ª Regra.

9. São três as causas principais por que nos achamos desolados. A primeira é porque somos tíbios, preguiçosos ou negligentes em nossos exercícios espirituais e, por nossas faltas, se afasta de nós a consolação espiritual. A segunda porque Deus quer ver quanto podemos e até onde chegamos no seu serviço e louvor sem os auxílios da consolação. A terceira, porque Deus nos quer dar a conhecer que não está em nosso poder sentir grande devoção, amor intenso, lágrimas, nem qualquer outra consolação espiritual, mas que tudo é graça de Deus, Nosso Senhor, a fim de que não nos ensoberbecemos nem envaidecermos atribuindo a nós mesmos a devoção e outras manifestações da consolação espiritual.

10. Aquele que está em consolação pense como se portará na desolação que depois virá, armazenado novas forças para esse tempo.

11. Quem está consolado procure humilhar-se e abater-se quanto puder, considerando quão pouco vale no tempo da desolação sem a graça da consolação. Pelo contrário, quem está na desolação, pense que muito pode com a graça, que não lhe falta para resistir a seus inimigos, recebendo forças de seu Criador e Senhor.

12. O inimigo procede como uma mulher, mostrando-se fraco contra o forte, e forte contra o fraco. Assim como é próprio da mulher, quando luta com algum homem, perder a coragem e fugir, se o homem se mostra corajoso; e, ao contrário, se o homem se mostra covarde e tímido, a ira da mulher chega até ao excesso: do mesmo modo costuma o nosso inimigo enfraquecer e fugir, se aquele que se exercita nas coisas espirituais lhe resiste varonilmente e se opõe diametralmente às suas sugestões; se, pelo contrário, aquele que se exercita, começa a ter medo e a perder a coragem em lhe resistir, não há fera no mundo mais terrível, que este inimigo da natureza humana.

13. Porta-se também o demônio como um falso amante, que não quer ser descoberto. Assim como um homem que, procurando seduzir, com suas ilusórias palavras, a filha dum pai honesto, ou a esposa dum marido honrado, lhes propõe silêncio e pede segredo para que suas pérfidas insinuações não cheguem aos ouvidos do pai ou do marido, pois desfazer-se-ia toda a sua tentativa: assim quer o inimigo que as falazes propostas, que segreda à alma justa, fiquem ocultas e não sejam manifestadas ao confessor ou a uma pessoa espiritual que conheça bem seus embustes, pois perderia toda a esperança de consumar a sua malícia ao ver descobertos todos os seus artifícios.

14. Porta-se também o demônio como um general, quando quer apoderar-se duma fortaleza. Pois, à semelhança dum comandante ou chefe militar que, depois de assentar os arraiais, explora as fortificações e obras de defesa, para saber qual é a parte mais fraca, para começar por ela o ataque: assim o maligno espírito anda rondando em volta de nós para explorar as nossas virtudes teologais, cardeais e morais, a fim de começar por onde nos achar mais fraco, e nos render.

EXERCÍCIOS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA
– Com práticas e meditações para oito dias de retiro pelo Pe. Alexandrino Monteiro, S.I.
– II Edição – Editora Vozes – 1959  – pp. 320-323.


II

1. É próprio de Deus e de seus Anjos, quando entram numa alma, enchê-la da verdadeira alegria e gozo espiritual, e banir toda a tristeza que o inimigo procura introduzir nela. Ao contrário, é próprio do mau espírito combater esta alegria e gozo espiritual por motivos fúteis, sutilezas e contínuas ilusões.

2. Só a Deus pertence consolar a alma sem causa precedente, pois só Ele tem direito de entrar nela e sair quando quiser, movendo-a ao amor de sua divina Majestade. Digo sem causa precedente, isto é, sem nenhum aviso prévio ou conhecimento de qualquer objeto, que dê origem àquela consolação.

3. Quando a consolação é precedida de alguma causa, o bom e o mau anjo podem ser igualmente o seu autor; mas os fins são inteiramente contrários. O bom anjo tem por finalidade o aproveitamento da alma, que deseja ver crescer nas virtudes. O mau anjo, ao contrário, quer vê-la retroceder no bem, para a levar, enfim, a seus perversos intentos.

4. É próprio do mau espírito transformar-se em anjo de luz e entrar primeiramente nos sentimentos da alma piedosa e acabar por lhe inspirar os seus próprios sentimentos. Assim, começa por sugerir a esta alma pensamentos bons e santos conforme às suas disposições virtuosas; mas logo, pouco a pouco, procura prendê-la em seus laços secretos e levá-la a consentir em seus pecaminosos intentos.

5. É examinar com grande cuidado o curso de nossos pensamentos. Se o princípio, o meio e o fim são bons e tendem ao bem, é sinal de que vêm do bom anjo; mas se no decurso deles se encontram alguma coisa má, vã ou diferente do que tínhamos proposto fazer, é sinal evidente de que tais pensamentos procedem do mau espírito.

6. Quando o demônio for descoberto por sua cauda serpentina, isto é, pelo fim pernicioso a que nos quer levar, será útil considerar os pensamentos que nos sugeriu, examinar-lhes o princípio e ver como, pouco a pouco, nos fez perder a alegria espiritual até nos levar à sua perversa intenção. A fim de que, pela experiência alcançada, nos acautelemos para o futuro de suas costumadas fraudes.

7. Naqueles que vão de bem em melhor costuma o bom anjo insinuar-se docemente, como uma gota d’água que cai numa esponja. O mau anjo, ao contrário, entra bruscamente como água que cai em pedra. Naqueles, porém, que vão de mal em pior, entram os mesmos espíritos diversamente, conforme à disposição da alma lhes é contrária ou semelhante. Se lhes é contrária, entram ruidosamente; se semelhante, entram silenciosamente e como por casa de porta aberta.

8. Quando a consolação vem sem causa precedente, ainda que esteja livre de fraude, pois é de Deus, como foi dito na 2ª Regra, contudo a alma, que recebe esta consolação, deve atender bem e distinguir o tempo que se lhe segue. Pois neste segundo tempo, em que a alma se sente toda fervorosa e gozando ainda dos restos da consolação passada, acontece tomar várias resoluções, que não são inspiradas imediatamente por Deus, e por isso devem-se examinar bem antes de se lhes dar inteiro assentimento e por em execução.

EXERCÍCIOS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA
Com práticas e meditações apropriadas para oito dias de retiro pelo Pe. Alexandrino Monteiro, S.I.
II Edição – Editora Vozes – 1959 – pp. 324-325


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Dissociedade e Estado Totalitário

 


Para o Estado contemporâneo e seus manipuladores, a democracia não é senão uma maquiagem, um enfeite, um adorno destinado a enganar os últimos devotos de uma religião que já expirou e que entrou em sua fase convencional de rigidez ritualista. Sob esta casca do Estado, no século XX, o que o observador descobre é apenas uma sociedade que não representa nada, uma dissociedade, uma “sociedade” que já nada deve aos impulsos originários da natureza social do homem e que os sociólogos denominaram sociedade de massas, definida pela simples justaposição de seus membros, todos homogêneos como as moléculas de um mesmo corpo material, todos igualmente desvitalizados, reduzidos ao estado de insetos, ou mais exatamente ao estado de “coisas” as quais o Estado assegura uma administração. Colocado diante de uma coletividade aonde já não há comunidades naturais senão indivíduos, o Estado adquire uma extensão ilimitada. Um Estado que coroa uma dissociedade está fatalmente destinado a ser, ele sozinho, toda a sociedade e a assumir todas as funções sociais que a natureza concedeu o homem... Salta aos olhos que o crescimento do Estado totalitário é correlativo ao declive da educação política que tem seu assento nas comunidades naturais. Nestas se articular o complemento da razão e da vontade com os impulsos da natureza e se contraem hábitos, comportamentos típicos, condutas submissas a normas bem cognoscíveis que fazem com que os atos de cada um de seus membros possam ser previstos pelos demais e que reina entre elas uma certa ordem em forma permanente enquanto as relações sociais se fundam na segurança de que o associado não enganará o seu sócio. A educação engendrou costumes comuns que fazem com que o curso normal das coisas raramente seja perturbado e que a autoridade não se exerça, no pleno sentido da palavra, mais que excepcionalmente, para ordenar ou defender. Os costumes que as comunidades naturais destilam continuamente, facilitam muito o governo da sociedade política e o tornam inclusive supérfluo enquanto o curso das coisas permaneça normal. Quanto mais constantes e arraigados sejam os usos e costumes, tal como é norma nas associações aonde a natureza possui a iniciativa, menos poderá lançar-se o poder soberano na corrida para o absolutismo que lhe é característico quando abandonado às suas próprias forças. É a educação e não o poder do Estado que dita ao cidadão o que se deve ou não fazer. Todo Estado construído sobre as comunidades naturais e sobre a educação que elas difundem, vê assim reduzido seu poder à sua justa medida; e este poder é poucas vezes sentido como uma força exterior aos cidadãos. Ao contrário, todo Estado sem sociedade é automaticamente um Estado coercitivo, policial, armado com um arsenal de leis e regulamentos com os que se encarrega de dar um sentido às imprevisíveis e aberrantes condutas dos indivíduos. Sua tendência ao totalitarismo é proporcional à debilitação das comunidades naturais, à ruína dos costumes, ao desmoronamento da educação... O terrificante Leviatã social que conhecemos, substitui as autoridades moderadoras que imprudentemente foram sendo eliminadas por uma Constituição ou uma legislação insensata.

Marcel de CORTE. La educacion política. Comunicação ao Congresso de Lausanne II. Verbo, n. 59, pp. 643-644.

Os Limites da Ciência e a Crise da Sabedoria

 


Vale a pena dedicar um capítulo a alguns fenômenos produzidos pela radioatividade nominalista. Comecemos aqui pelo Cientificismo. Como atrás já dissemos, esse termo não designa o maior incremento de pesquisas, o maior ardor de estudo nos domínios das ciências naturais. Tudo isto, em si, é bom. O que não é bom é o estado de espírito que coloca a Ciência da natureza na presidência de uma civilização, depois da abdicação da Sabedoria. Uma vez que a inteligência não alcança as coisas superiores, apliquemo-la nesse trabalho de apalpar os fenômenos para deles tirar uma nova confiança em nós mesmos, e para ordenhar a nosso gosto essa imensa mãe telúrica, brutal, que às vezes, no seu sono pesado, mata os próprios filhos. 

Esse estado de espírito, nos primeiros tempos, produzirá uma grande euforia. A humanidade, depois de descobrir a pólvora, o movimento dos astros, a força do vapor, o poder mágico da eletricidade, terá, como teve no século XVIII e XIX, momentos de exultação. 

A cândida ideia que ocorrerá a muitos espíritos é a seguinte: na continuação dos tempos, a Ciência polirá todas as arestas do Velho Homem, iluminará todas as trevas, resolverá todas as dificuldades. Ora, essa ideia, comicamente falsa, extravagantemente falsa, foi difundida e tornou-se o ar que respiramos e a água que bebemos; e isto só aconteceu porque a Civilização Ocidental Moderna já não tinha à sua presidência os dados da antiga sabedoria. Se a tivesse, ouviria a censura clara e irrefutável: a ciência dos elementos exteriores aumenta o domínio do homem sobre eles, mas não acrescenta nada ao domínio do homem sobre si mesmo. Conhecer a natureza inferior é bom; conhecê-la em detrimento do conhecimento da alma e de Deus não é bom. Uma civilização, uma cultura, uma sociedade não podem ser presididas pela Ciência, que é cega, surda e muda para os problemas mais comuns e mais profundos de nossa humanidade. Como já tivemos ocasião de salientar, a Ciência pode nos dizer que nossos pulmões estão anormais e devem ser tratados desta ou daquela maneira; mas é inteiramente incapaz de nos sugerir o que podemos nós fazer com pulmões normais. A Ciência pode proporcionar-nos veículos aperfeiçoados para nossos deslocamentos; mas é incompetente, destituída de qualquer recurso, para nos aconselhar aonde devemos ir, e aonde não convém irmos. A respeito das coisas mais triviais, o amor, a felicidade dos filhos, a alegria de ter amigos, a Ciência embatuca, ou então, irritada, trata essas coisas com desprezo; em compensação torna-se loquaz e abundante se a consultarmos sobre logaritmos, temperatura do sol, propriedade das elipses, e outras coisas desse jaez. 

Não estamos criticando nem ridicularizando a Ciência. Ponham-na em seu lugar próprio, e seremos os primeiros a admirá-la, e até a agradecer-lhe o favor de inspirar os médicos e farmacêuticos que asseguram a sobrevivência que nos permite escrever estas linhas. Ponham-na, porém, no altar, ou nas abóbadas das idades: reclamaremos e gritaremos que nesta posição ela se transformará em calamidade. 

O bem-estar conquistado pela ciência não causa elevação humana no sentido próprio do termo; mas condiciono-a favoravelmente. Ainda mesmo nos problemas técnicos, onde parece soberana a ciência, no seu duplo aspecto teórico e prático, quem traz a última decisão é a filosofia. Tomemos por exemplo o problema dos telefones no Rio de Janeiro. Estamos há quase vinte anos sem poder instalar os telefones pedidos. Será técnico o problema? Será econômico? Será físico, químico, astronômico? Não. O problema é filosófico e religioso: não temos telefones por causa da atuação de uma seita bárbara que professa uma filosofia ou uma religião chamada "nacionalismo". Eles dizem que nos defendem, e o resultado é que não temos o aparelho inventado há 100 anos e profusamente distribuído na face da terra. 

A Ciência e a Técnica cuidam de coisas utilissimas, e por isso mesmo lhes escapam as coisas que transcendem o útil, e que são as que mais importam. Dão-nos cem, duzentas, mil, um milhão de coisas úteis e boas; mas um milhão de coisas úteis e boas não conseguem integrar-se num bem de outra ordem, a que aspira a alma humana. Um milhão de maravilhas da ciência não consolam o namorado infeliz; não detêm as lágrimas do pai que perdeu o mais belo dos meninos; não interessam ao santo que procura maior amor de Deus. 

Gustavo Corção, “Dois Amores - Duas Cidades Vol II”, pág. 43, 44 e 45a

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O que é um tomista?


Por Santiago Ramírez, OP
(trechos)

As comemorações do centenário da morte de São Tomás foram seguidas por uma restauração e revitalização do tomismo, da qual todos participamos e aplaudimos, graças ao gigantesco impulso do grande Leão XIII, continuado por seus sucessores no Trono Pontifício e apoiado pela docilidade e pelos esforços dos católicos de boa vontade.

Será o centenário de sua canonização infrutífero? Se assim fosse, teríamos que dizer que a vida e a glória se buscam no túmulo e não nos altares. É dever dos católicos, particularmente os da Espanha, fazer deste centenário um evento frutífero, ainda mais do que o anterior, pois, como Leão XIII tão belamente afirma, os espanhóis são " aqueles que, em memória do Doutor Angelici, e em quem a filosofia tomista foi desenvolvida por sábios e eruditos mestres ao longo da história, foram criados ".

E visto que a fecundidade é uma propriedade da vida perfeita e a vida não existe no abstrato, mas em algum sujeito vivo, é necessário concluir que a fecundidade do tomismo deve brotar da vida tomista perfeita existente nos tomistas perfeitos.

...Por tomista não entendemos uma palavra vazia, nem um homem vestido de determinada cor, seja branco ou preto, muito menos alguém que toma de São Tomás o que lhe convém, segundo seus caprichos, mas sim alguém que participa, tem ou aspira a ter o espírito de São Tomás de Aquino e que tenta, tanto quanto possível, mergulhar mais profundamente nele e agir de acordo com ele.

I. Qual é o verdadeiro espírito de São Tomás de Aquino?

...O Santo Doutor não se contentou em buscar a Deus com inteligência, através do estudo; porque São Tomás não era um intelectual árido e seco, nem um místico sentimental, mas um espírito extremamente equilibrado em seu entendimento e em sua vontade.

...Em São Tomás, não é possível separar sua oração de seu estudo, assim como não é possível separar sua sabedoria de sua santidade, pois santificando-se ele se tornou sábio e estudando se santificou; nele, sua ciência não pode ser explicada sem sua oração, nem sua oração sem sua ciência.

Se pudermos nos expressar desta forma, São Tomás é um caso típico e concreto da união e harmonia entre razão e fé, entre santidade e ciência, entre Filosofia e Teologia; ele próprio é a personificação inata de seu próprio sistema, e por essa razão o primeiro tomista e o tipo do tomismo puro e completo é o próprio São Tomás.

II. Qual deve ser o "espírito" de um verdadeiro tomista?

Tendo examinado o espírito de São Tomás de Aquino em si, não será difícil entender o que é um tomista. Um tomista, portanto, é aquele que possui, ou aspira a possuir, o espírito de São Tomás de Aquino em sua totalidade, não de qualquer maneira, mas tal como entendido pela Igreja.

A amplitude do espírito tomista exige que o tomista estude tudo, se possível, a partir de suas fontes originais, à imitação do Santo Doutor. Ele deve, portanto, ter um conhecimento profundo das Sagradas Escrituras e estar ciente dos mais recentes desenvolvimentos exegéticos; deve dominar todos os Padres da Igreja, tanto doutrinariamente quanto criticamente, não com a superficialidade de um mero historiador, mas com a profundidade de um teólogo; deve estar familiarizado com todos os teólogos antigos e modernos, tanto os hostis a São Tomás quanto os que o defenderam; deve ter um firme domínio da filosofia antiga e da filosofia de seu próprio tempo, tanto a sã quanto a falsa, para se beneficiar da primeira e refutar a segunda, e para saber como delinear com verdade e precisão as fronteiras entre fé e razão; em suma, deve esforçar-se para dominar tudo a partir da Palavra de Deus, assim como São Tomás dominou toda a ciência de seu tempo e a fez servir a Deus.

É claro – e isso dispensa maiores explicações – que o tomista deve começar por se familiarizar com todas as obras do Santo Doutor, não as estudando nas horas vagas e consultando-as apenas em momentos de dificuldade, mas de forma constante e direta.

Mas não basta limitar-se apenas a São Tomás e rejeitar sistematicamente todos os outros. O Doutor Angélico não surgiu espontaneamente; pelo contrário, sua forma sistemática foi nutrida desde a antiguidade, especialmente por Santo Agostinho e Aristóteles. Contudo, ele foi influenciado por todos, inclusive por seus contemporâneos. Portanto, é impossível compreender São Tomás em si mesmo sem considerar a tradição filosófica e teológica desde os primórdios. Não teria ele construído sua magnífica síntese tendo em mente todo o pensamento humano? Os alicerces dessa grande estrutura foram em grande parte reunidos e aprimorados por toda a humanidade, embora o arquiteto tenha sido São Tomás de Aquino.

O tomismo não vive no papel, mas nas mentes; e nas mentes vive como alimento a ser assimilado e como semente a ser cultivada e frutificar... O tomista não deve transcrever, mas expandir os ensinamentos de São Tomás, refinando e completando suas fontes, testando e consolidando seus princípios, assimilando e ampliando suas doutrinas com os novos elementos assimiláveis ​​trazidos por seus sucessores até os dias de hoje; e, uma vez feito tudo isso, aplicar o tomismo aos problemas atuais, com a certeza do sucesso.

...É necessário, portanto, que o verdadeiro tomista expanda o tomismo com todas as suas forças e o faça crescer; mas com um crescimento homogêneo e por intussuscepção, não heterogêneo ou por justaposição. Por essa razão, é necessário digerir tudo o que vem de fora, não com remédios e artificialmente, mas com os sucos secretados pelo próprio tomismo, que são em si mesmos suficientemente poderosos para fermentar e digerir qualquer alimento, por mais forte que seja, se for objetivamente assimilável. Mas aqui, como em todas as coisas, é necessária discrição, para não insistir em ingerir seiva insalubre que, em vez de dar força, produz vertigem, até que se seja expulso por uma reação violenta: assim aconteceu aos tomistas que quiseram devorar os pratos preparados por Descartes, pelos [reveladores], pelos ontólogos e pelos modernistas. Eles tinham apenas dois caminhos: ou explodir, se tivessem estômagos fracos, ou comer demais; ou vomitá-los, tendo que fazer dieta por um tempo, com o problema adicional de ter que purgar repetidamente, e então se fortalecer com injeções de timismo puro, até retomar a vida normal.

Mas também devemos nos precaver contra o vício oposto e não nos isolarmos, recusando-nos a comer por medo de sermos envenenados. Tomemos, sim, as precauções necessárias — e a Santa Sé indicou várias —, mas também devemos nos alimentar bem, para termos uma vida abundante e perfeita, sempre lembrando que o benefício não está na proporção do que se come, mas do que se digere, como Balmes tão belamente coloca.

O verdadeiro tomista deve reconhecer este campo já bastante trilhado por sete séculos de especulação tomista, e pegar uma forquilha para debulhar esta preciosa colheita, separando o trigo da palha e deixando que o vento da crítica leve embora a poeira. Ele deve, portanto, começar por um trabalho de limpeza e purificação.

...Alguém nos dirá, depois de ler o que dissemos até agora, que estamos tornando impossível a existência de um tomista perfeito, porque ninguém consegue lidar com tanta coisa sozinho... É verdade: o ideal é uma coisa, e a realidade é outra. Uma única pessoa não pode abarcar tudo sozinha, mas deve fazer o possível para se aproximar desse ideal.

Após uma visão geral, que todos podemos empreender, é necessário especializar-se e escrever monografias abrangentes sobre pontos específicos, de acordo com todas as exigências do ideal tomista. Isso é possível, e da coletânea dessas monografias bem escritas emergirá um tomismo completo e verdadeiramente expandido.

O problema é que muitos, vendo essa dificuldade e querendo, no entanto, parecer tomistas perfeitos, contentam-se em tomar algumas ideias de São Tomás, sem as terem meditado e aprofundado bem, e depois recolhem aqui e ali alguns factos históricos, com alguma observação crítica ou outra, e assim lançam à publicidade, com grande alarido e ao som de trombetas e tambores, os frutos das suas lucubrações, artigo após artigo e volume após volume.

Algo semelhante acontece neste campo com muitos acadêmicos e não poucos filósofos da atualidade. Falta-lhes a paciência ou a capacidade de fazer especulações profundas, ou desprezam-se em dedicar-se ao estudo consciencioso e detalhado do laboratório, e com esse espírito — que é a antítese do espírito de São Tomás, como vimos acima — arruínam a causa da Filosofia e da Ciência... Não faria mal ter um pouco mais de humildade e confessar a própria ignorância...

Aspiremos, portanto, segundo os anseios da Igreja, a ser tomistas íntegros e perfeitos, na vida e na doutrina: se em São Tomás o Santo e o Sábio não podem ser separados, tampouco devem ser separados nos tomistas. Tendo em mente esses anseios e aspirações, rezemos com espírito e sinceridade a oração da Igreja na festa de seu Doutor, que contém o resumo de todo este artigo:

A) Deus, que a tua Igreja do bem-aventurado Tomás, teu confessor e doutor.

a) com admirável erudição iluminas,
b) e com santa atuação tornas fecunda:

B) Concede-nos, nós te pedimos,

a) que aquilo que ele ensinou contemplemos com o intelecto,
b) e que aquilo que ele praticou completemos pela imitação.

C) Por Cristo, nosso Senhor. Amém. Assim seja.


FR. SANTIAGO M. RAMÍREZ, O. P.
Salamanca, 5 de fevereiro de 1923.




terça-feira, 7 de outubro de 2025

Sobre a subordinação do Estado à Igreja

 


Por Tommaso Maria Cardeal Zigliara, OP

I. Natureza da questão. Uma sociedade religiosa, da qual a Igreja Católica faz parte, vive em companhia da sociedade civil, de modo que o poder espiritual do Romano Pontífice está, por assim dizer, em contato com o poder civil, e aqueles que são civilmente sujeitos à autoridade temporal são, ao mesmo tempo, sujeitos à autoridade eclesiástica. É comumente admitido que a autoridade civil, dentro dos limites de seus fins, é independente da Igreja, da mesma maneira que dizemos que a Igreja, com relação a seus fins, é independente de qualquer autoridade civil. Mas é totalmente impossível que duas sociedades existam ao mesmo tempo com igual independência, isto é, sem subordinação mútua uma à outra; consequentemente, é necessário que ou a Igreja esteja subordinada ao Estado civil, ou o Estado civil à Igreja. Eis a questão, sobre a qual dissemos muitas coisas nos artigos 61 e 63, e cuja solução damos neste artigo final, para que se possa ver mais claramente a noção de etnarquia que pertence à Igreja Católica. Que a conclusão, portanto, seja declarada:

II. De modo algum a Igreja Católica está subordinada ao Estado civil, mas o Estado civil, por sua natureza, está subordinado à Igreja Católica. Esta proposição é facilmente demonstrada, se nos lembrarmos dos princípios que apresentamos no capítulo anterior. Pois a noção ou natureza da subordinação das sociedades deve ser tomada absolutamente a partir do fim: pois, visto que a natureza da sociedade surge do fim ao qual ela está ordenada, onde os fins de duas sociedades estão subordinados, as sociedades devem igualmente estar subordinadas; e uma sociedade cujo fim está subordinado ao fim de uma sociedade superior também está subordinada a essa outra. Estes são os princípios, sem os quais não há nada mais firme na determinação da natureza da sociedade. Mas o fim da sociedade civil e o fim da sociedade religiosa estão ordenados um ao outro, e o fim da sociedade civil está subordinado ao fim da Igreja Católica, e não vice-versa. Portanto, de modo algum a Igreja Católica está subordinada ao Estado civil, mas o Estado civil, por sua natureza, está subordinado à Igreja Católica. O menor está provado.

O fim da sociedade civil e o fim da sociedade religiosa estão ordenados um ao outro . Pois o homem é composto de alma e corpo e, como homem, é parte da sociedade. Mas a sociedade civil propriamente olha para a perfeição exterior do homem, porque não é capaz de penetrar nas coisas interiores da consciência, e o que é mais, porque considera o homem vivendo nesta vida, ela se preocupa principalmente com sua perfeição temporal; enquanto a Igreja Católica, como uma sociedade espiritual, é ordenada antes para a perfeição da alma e direciona os homens para a felicidade eterna. Mas embora essas coisas sejam verdadeiras, ainda é verdade que o homem não é capaz nem deve ser dividido, mas assim como a alma é para a perfeição do corpo e o corpo é para a perfeição da alma, assim igualmente a perfeição corporal — à qual o Estado civil atende diretamente — e a perfeição espiritual — que a Igreja de Cristo generosamente concede — ambas devem prover para o homem todo. Portanto, os fins de ambas as sociedades, embora distintos entre si, concordam em um fim comum, que é o homem a ser aperfeiçoado; e, consequentemente, esses fins são ordenados uns aos outros.

O fim da sociedade civil está subordinado ao fim da Igreja Católica, e não o contrário. De fato, nada proíbe que o homem, como um composto de alma e corpo, não procure para si, de maneira correta, todas as coisas que coincidem para viver esta vida confortavelmente. No entanto, é irracional e repulsivo submeter a alma ao corpo de tal maneira que ela seja escrava do corpo e menospreze sua perfeição intelectual, de modo que em seu corpo ele leve uma vida de acordo com o padrão dos animais irracionais; mas o corpo deve ser subserviente à alma. — Além disso, cheira a demência pensar que o homem deva ser solícito da felicidade temporal — felicidade essa que ele deve perder, quer a queira ou não — e não pensar em alcançar a felicidade eterna: Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que troca dará o homem pela sua alma? (Mateus XVI, 26). Pois não temos aqui uma cidade permanente, mas buscamos a vindoura (Hebreus XIII, 14). Portanto, tudo o que o homem busca nesta vida, tudo o que busca para si na sociedade civil e da sociedade civil, ou o busca perversamente, ou deve ordenar à perfeição espiritual e eterna da alma. Portanto, como o fim da Igreja é a perfeição interior e eterna do homem, mas o fim da sociedade civil é a sua perfeição exterior e temporal, o fim da Igreja não está subordinado ao da sociedade civil, mas esta, sim, àquela.

III. A Igreja Católica é uma sociedade etnárquica. Antes de provar que a Igreja Católica é verdadeiramente uma sociedade etnárquica e, consequentemente, que nela existe uma verdadeira etnárquia, considero útil dedicar um momento para apresentar a doutrina de São Tomás a respeito de Cristo, na medida em que Ele é a Cabeça de todos os homens: «Há esta diferença entre a cabeça natural do homem e o corpo místico da Igreja: os membros do corpo natural estão todos juntos; mas os membros do corpo místico não estão todos juntos: não quanto ao ser da natureza, porque o corpo da Igreja é constituído por homens que existiram desde o princípio do mundo até o seu fim; nem quanto ao ser da graça, pois, mesmo daqueles que estão em um tempo, alguns carecem da graça, a ser adquirida mais tarde, enquanto outros já a possuem. Assim, portanto, os membros do corpo místico são tomados, não apenas conforme são em ato, mas também conforme são em potência. No entanto, há alguns em potência que nunca são reduzidos a agir; Enquanto há alguns que são reduzidos a agir em algum momento ou outro. E isso ocorre de acordo com um triplo grau: o primeiro dos quais é pela fé; o segundo pela caridade do caminho; o terceiro pela fruição da pátria . Assim, portanto, deve-se dizer que, tomando-o geralmente de acordo com todo o tempo do mundo, Cristo é a cabeça de todos os homens, mas de acordo com diversos graus. Pois, primeiramente e principalmente, Ele é a cabeça daqueles que estão unidos a Ele em ato pela glória; em segundo lugar, daqueles que estão unidos em ato a Ele pela caridade; em terceiro lugar, daqueles que estão unidos em ato a Ele pela fé; em quarto lugar, daqueles que estão unidos a Ele apenas em potência ainda não reduzida a ato, que ainda deve ser reduzida a agir de acordo com a predestinação divina; em quinto lugar, daqueles que estão unidos a Ele em potência, potência essa que nunca se reduz ao ato: como homens que vivem neste mundo, que não são predestinados, que, contudo, recuando desta era, cessam inteiramente de ser membros de Cristo, porque já não estão em potência, como para estarem unidos a Cristo» (IIIa, q. 8, a. 3).

A partir desses princípios, nossa tese é facilmente provada. De fato, a Igreja Católica abrange todas as nações, seja em ato ou em potência, como ouvimos de São Tomás; além disso, é por natureza uma sociedade doutrinária e possui um magistério infalível nas questões que dizem respeito a dogmas e moral; é uma sociedade cuja cabeça invisível é o próprio Cristo, ao mesmo tempo Deus e homem; cuja cabeça visível é o Sumo Pontífice Romano, exaltado com dignidade sobrenatural, sujeito a nenhum homem, tendo poderes civis subordinados a ele e dirigido, pela assistência especial do Espírito Santo, à salvação das nações. Na Igreja, portanto, você tem universalidade , você tem magistério doutrinário , você tem dignidade e supereminência: todas as coisas, a saber, que são necessárias para uma etnarquia , isto é, para uma autoridade válida sobre todos os povos ou nações. — Esta sábia política prevaleceu, para o bem dos povos, na Idade Média, isto é, quando os povos e os reis verdadeiramente cristãos recebiam e veneravam, no Romano Pontífice, o Vigário de Cristo — cujo nome, como diz Isaías, é Maravilhoso, Conselheiro, Deus Poderoso, Pai do mundo vindouro, Príncipe da Paz. 

ZIGLIARA, Tommaso Maria. Summa Philosophica. Parte III, Livro II, cap. V: Das relações recíprocas entre a Igreja e o Estado, art. V. Roma: Tipografia Poliglota Vaticana, [ano da edição], p. 313–316. Tradução nossa.

O caráter antirreligioso da civilização moderna

  Se se excetuam os territórios que a civilização racionalista de nosso tempo ainda não desquiciou, dos quais fazem parte a maioria dos país...