quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A santidade da Igreja

 


Diante do aumento da delinquência entre os jovens, os juízes tendem a condenar os pais, é razoável? Muitas vezes sim, mas o razoável é julgar sempre em cada caso quem e em que medida é culpado.  

Há a responsabilidade dos pais, mas também a do jovem, a da escola, a da rua; se pais e escola fizeram o possível e o jovem se corrompe pelo que encontra na rua, a culpa poderia ser do presidente.  

Mas tampouco se pode acusar rápido, pois também se deve julgar – de cima abaixo – quem cumpriu mal sua função, se o presidente ou o governador, o intendente, a polícia, ou simplesmente o vizinho desonesto. E se a culpa é do presidente, é culpada a pátria? Pode ser que sim, pode ser que não; não o seria se o governante agiu contra as leis e costumes e o consentimento geral.  

Suponhamos o caso em que a culpa foi do jovem, mas houve negligência do governador. Quem pode, então, pedir perdão? Evidentemente, perdoam-se os culpados e não os que não o são; e podem aqueles pedir perdão sob duas condições: mostrar sincero arrependimento e oferecer a devida reparação, pois são metafisicamente incapazes de perdão as más vontades.  

Mas também podem pedir perdão – embora de modo e razão muito diferente – os ofendidos: os pais ou o presidente; e o fazem com mais argumento, porque muito merece ser ouvido pela pátria e por Deus o pedido de perdão daqueles que têm sabido perdoar a seus devedores.  

Mas aqui é outra a condição: que sejam completamente inocentes, pois bem podem pedir perdão os meritórios pais que fizeram tudo que puderam para dar bons filhos à pátria, mas não cabe que peça perdão por outros o governador negligente quando tem sua parte que expiar. Se tanto nos valeu a voz que da Cruz exclamou: "Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem", foi porque era voz de "um Pontífice como convinha, santo, inocente, imaculado, afastado dos pecadores" (Hebreus 7, 26).  

Pode a Igreja pedir perdão pelos pecados de seus filhos? Assim o faz todo dia desde dois mil anos, mas não como ofensora e sim como ofendida, não como dolosa e sim como doída, não como culpada e sim como inocente e santa Mãe. A Igreja é santa e nunca se pode, em rigor de justiça, atribuir-lhe culpa nos pecados de seus filhos. "A Igreja verdadeira é SANTA – diz o catecismo de São Pio X – porque santa é sua cabeça invisível, que é Jesus Cristo, santos muitos de seus membros, santa sua Fé, sua Lei, seus Sacramentos e, fora dela, não há nem pode haver verdadeira santidade."  

Nunca pôde ninguém acusar a Cristo do menor pecado; dois mil anos de história têm mostrado a santidade de sua doutrina e das leis em que fundou sua Igreja; multidões de santos manifestam que os impulsos de graça que comunicam os Sacramentos levam à mais perfeita vida. Se um rei cristão ou um Papa cometeu pecados, salta aos olhos de um juiz honrado que o fez contra os mandamentos, exemplos e influências da santa Instituição a que pertencem. E nunca se poderá acusar a sua Cabeça de negligência no governo, pois para cada enfermidade de heresias ou pecados que haja podido invadir a Igreja, Nosso Senhor tem sabido despertar os anticorpos necessários.  

Pretender que a Igreja peça perdão ao mundo assumindo a culpa de seus filhos é cometer a mais aberrante das injustiças; é desconhecer a santidade da Igreja e blasfemar contra a santidade de Deus, que na pessoa do Verbo é sua cabeça e no Espírito Santo seu coração.  
Daí que o ato pelo qual o Papa anterior, em suposto nome da Igreja, pediu público perdão como de próprias culpas, resta como o maior ultraje jamais recebido por nossa Santa Mãe, que clama ao Céu por reparação. Moveu-o o ressentimento dos filhos liberais, castigados mil vezes por sua boa Mãe? Ou talvez a intenção de evitar que a Igreja seja crucificada, preferindo então – como Pilatos – oferecê-la ao mundo humilhada por uma autoflagelação: Ecce Mulier.  

Mas também há a grosseira materialidade do pensamento moderno que, intoxicada de nominalismo, vomita as distinções e formalidades dos escolásticos; e atribui ou nega, segundo convenha, o da parte ao todo e o do todo à parte.  

Se a parte peca, o todo deve assumir; e assim temos a Igreja ou a sociedade culpada de tudo que fizeram seus membros criminosos; mas não há que assustar-se tanto de assumir estas responsabilidades, porque agora se pode pedir perdão sem arrependimento nem reparação.  
Não deixa de ser lógico, porque se de tudo são culpados todos, no final a culpa não é de ninguém ou... se bem se pensa... a culpa é de Deus.

(Pe. Álvaro Calderón, F.S.S.P.X, La Santidad de La Iglesia)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O Islã: uma ideologia religiosa

 


Por D. Rubén Calderón Bouchet

A religião é um corpo de conhecimento cercado por uma série de práticas culturais que o homem recebeu do próprio Deus, com as características de um contrato de adesão, cujas cláusulas ele deve respeitar se quiser organizar sua vida de acordo com os desígnios da Divina Providência.

Por que uma ideologia?

O termo "ideologia" aplicado à religião de Maomé não é uma invenção nossa. Maxim Rodinson o utilizou para explicar e justificar a religião islâmica quando abordou o assunto em seu livro sobre Maomé.  

Contudo, por trás do uso que Rodinson faz do mesmo termo, reside um fundamento filosófico completamente diferente daquele que fundamenta nossa própria posição. Para Rodinson, a ideologia surge das mudanças provocadas no mundo árabe pela força de uma economia comercial que impõe uma organização individualista, sugerida pela ascensão de novos critérios econômicos, sobre a antiga estrutura tribal comunitária. Sem dúvida, para Rodinson, a religião não existe como uma realidade independente de um estado particular de consciência determinado por uma relação específica entre a humanidade e os meios de produção. A religião torna-se, assim, um ingrediente na complexa resposta que damos às necessidades práticas da vida, constituindo algo como o tempero poético na prosa áspera do processo econômico.  

Menos racionalista que o Professor Rodinson, acredito que a religião é um corpo de conhecimento cercado por uma série de práticas culturais que o homem recebeu do próprio Deus, com as características de um contrato de adesão, cujas cláusulas ele deve respeitar se quiser organizar sua vida de acordo com os desígnios da Divina Providência.  

O termo "religião natural" também é frequentemente usado para se referir ao conhecimento que a humanidade adquire de Deus através do mundo físico e das experiências de sua realidade interior. No entanto, assim como não existe um estado de natureza absolutamente puro de qualquer conexão sobrenatural com Deus, também não existe uma religião natural que não esteja, de fato, entrelaçada com as revelações da proto-tradição ou com as tradições históricas preservadas pelos diversos povos que compõem o mosaico diverso de nossa existência terrena.  

A meu ver, a religião não é um fenômeno da consciência condicionado por todos os eventos de nossas vidas, muito menos a consequência inevitável de qualquer situação social dada, por mais que seus elementos constituintes se multipliquem. Assim como a própria criação, a religião é uma dádiva de Deus, e é preciso ter perdido todo contato com o fundamento criativo do universo para pensar de forma diferente e buscar a origem de um processo onde não há realidade direta, mas sim dádivas gratuitas da criação e da revelação.  

Feitas essas primeiras advertências, que consideramos fundamentais, admitimos que, sem dúvida, as ideologias são criações do espírito humano com o propósito deliberado de justificar o poder assumido por um determinado grupo de homens, para conduzir outros numa direção diferente daquela que a Providência estabeleceu.  

Essa substituição de desígnios divinos por outros de aparência humana é o que ideologia e religião geralmente têm em comum, e o que leva muitos homens a confundi-las, ignorando suas claras diferenças.  

Independentemente da origem do livro que conhecemos pelo nome reduplicativo de "O Alcorão", a intenção inicial de seu autor era ensinar aos árabes o conteúdo do Pentateuco . Ao longo do Alcorão, há referências muito claras a isso, e apenas um forte desejo de enxergar nele uma manifestação religiosa original nos impediu de reconhecê-la. A religião pregada por Maomé está intimamente ligada ao monoteísmo israelita na forma que assumiu após o cisma causado pelo advento de Cristo. É, portanto, judaísmo em sua inspiração fundamental, mas um judaísmo ideológico, na medida em que sua decisão religiosa é rejeitar a fonte viva da revelação para se confinar aos limites de um propósito humano.  

Não é tarefa fácil para historiadores profissionais examinar a origem deste livro e dar alguma coerência à sucessão das "surahs" que constituem seu conteúdo. Embora a tradição islâmica seja unânime em atribuir sua autoria ao profeta Maomé, a forma como sua mensagem foi compilada e a ordem do texto dão origem a tantas contradições e divergências que é quase impossível aceitar todas as lendas que circulam sobre como ele foi escrito.  

O que chegou até nós parece basear-se nos ensinamentos de Maomé, mas não se pode afirmar estritamente que seja obra de um único autor, e sim de uma legião de copistas, intérpretes e compiladores, o que resultou na "vulgata" conhecida como Vulgata de Uthman, cerca de sessenta anos após a morte do Profeta. A classificação feita no texto tradicional é, como afirma Gaston Wiet, singularmente arbitrária:  

"Os diferentes capítulos (suras), cento e catorze no total, estão ordenados de acordo com sua extensão: o mais longo no início e o mais curto no final, sem levar em consideração a cronologia das revelações feitas ao profeta. Ora, como o livro sagrado tem partes que se contradizem, os muçulmanos consideraram necessário buscar uma relação cronológica entre as suras para saber, em caso de prescrições contrárias, qual delas é revogada e qual permanece" (WIET, G. L'Islam, Histoire Universelle de "La Pléiade", Vol. II, p. 54, Gallimard, Paris, 1957).  

A obra historiográfica, se a analisarmos com atenção, claramente contraria a atmosfera de segurança e certeza que os verdadeiros crentes desejavam impor ao Alcorão. Para eles, o que Maomé ouviu do Anjo Gabriel e o que está contido na Vulgata de Osman são uma só coisa, uma cópia fiel do livro que existe desde toda a eternidade no céu e que, junto com o trono de Alá, é guardado pelos Santos Anjos.  

Esta versão paradigmática do livro não guarda qualquer semelhança com o que é facilmente perceptível, e é preciso a fé inabalável de um verdadeiro muçulmano para aceitá-la sem dar ouvidos às alegações da crítica histórica. Assim como não há certeza sobre a origem dos textos, também não há certeza sobre o idioma em que foram originalmente escritos. Embora seus defensores mais fervorosos o considerem um "árabe eloquente e puro", os censores decretam que esse idioma ainda não existia e surgiu precisamente com o Alcorão, propagado pela Vulgata de Osman.  

Nada desanima um verdadeiro crente quando se trata do livro sagrado: nem os dados filológicos sobre a evolução da língua árabe, nem o conhecimento fornecido pela ciência a respeito das formas literárias e sua disseminação no mundo antigo. O Alcorão é um poema, um código legal, um livro religioso e uma narrativa dos eventos relacionados à pregação de Maomé. É tudo isso e muito mais que pode ser descoberto quando examinado com a devida diligência. Um leitor imparcial e objetivo, à semelhança de nossos cientistas, pode não descobrir nenhum desses gêneros. Renan, que hesitou por muito tempo em classificá-lo com certeza, finalmente afirmou que se tratava de uma coleção de discursos de diversos tipos, declaração que, no entanto, não o satisfez particularmente.  

Para os verdadeiros crentes — e os muçulmanos são crentes por excelência — este é o livro sagrado e o ponto de partida de uma disciplina religiosa que superou a anarquia de seu temperamento e os impulsionou a conquistar o mundo com uma força, fé e fervor raramente igualados na história. Chamá-lo de livro religioso sem oferecer explicações que o distingam de outros do mesmo gênero é uma quebra de confiança.  

Sem dúvida, existem várias verdades no Alcorão que pertencem ao repertório tradicional da religião revelada e, como é fácil perceber, essas noções são de origem bíblica. Foi muito tempo depois da pregação de Maomé que surgiu a ideia de atribuir ao Alcorão uma originalidade que a simples leitura de seus textos tornava completamente desnecessária e que a comparação mais simples deixava clara sem qualquer dificuldade.  

Existem verdades religiosas, mas não uma nova revelação; apenas um arranjo discreto para tornar esses princípios acessíveis à imaginação árabe, sem a menor tentativa de elevar as mentes a um encontro com Deus que lhes permita trilhar um caminho rumo à perfeição espiritual. Pelo contrário, o Alcorão parece destinado a despertar uma onda incontrolável de paixão que impulsiona a alma do crente para a conquista política e militar, e de modo algum para a obra da contemplação mística.  

A disciplina imposta aos fiéis não visa à reforma ascética, exceto pela imposição da vida militar e pela exaltação da coragem diante da morte, sustentada por uma visão da vida após a morte perfeitamente alinhada às inclinações mais lascivas do erotismo. A salvação não é obra da purificação espiritual, mas da obediência passiva aos líderes religiosos e políticos da comunidade islâmica. A guerra santa é o único sacramento que abre os portões do paraíso para o crente. Isso explica por que a paz corrompe o espírito muçulmano e, em última instância, o leva a disputas sem sentido, preguiça e desespero.  

O Alcorão inspira um ato de fé do qual toda reflexão inteligente desapareceu, e por essa mesma razão, nada que se assemelhe à teologia cristã é conhecido entre os muçulmanos. O trinitarismo cristão é negado com os argumentos mais grosseiros e a mais completa obscuridade; e mesmo quando se diz que Jesus era a Palavra de Deus, afirma-se simplesmente que ele era um profeta como qualquer outro, por meio de cuja boca Deus revelou a sua vontade. O mistério da Encarnação é negado por princípio, e qualquer discussão sobre ele desperta a ira do muçulmano, que vê o próprio fundamento do seu monoteísmo ameaçado.  

Ao examinarmos os deveres religiosos prescritos pelo Alcorão e os atos de adoração que os enquadram, percebemos sem esforço sua perfeita simplicidade e o absoluto desrespeito por qualquer movimento interior que vise orientar a alma nas mais nobres faculdades do espírito.  

Existem cinco obrigações que um muçulmano deve cumprir para manter um bom relacionamento com Deus: confessar que Alá é o único Deus e Maomé é Seu profeta. Isso deve ser feito sempre que necessário, especialmente durante eventos solenes da vida e quando a morte é iminente. Quatro orações são obrigatórias: ao amanhecer, ao meio-dia, ao entardecer e à noite. O crente deve estar voltado para Meca para nunca se esquecer do centro de onde começou sua jornada. As orações podem ser realizadas individualmente ou em congregação. Quando várias pessoas se reúnem para orar, uma delas lidera a cerimônia com as prostrações e saudações apropriadas. A preparação para a oração requer um ato de purificação, que consiste em lavar o rosto, as mãos, os antebraços e os pés. Isso deve ser feito com água pura ou, na falta desta, com areia. Nada é mencionado sobre a possibilidade de purificação interior.  

Entre os muçulmanos, existe uma prática aparentemente muito rigorosa de jejum. Durante os trinta dias do Ramadã, o nono mês do calendário lunar islâmico, os fiéis não podem comer, beber, fumar ou ter relações sexuais durante o dia, entre o nascer e o pôr do sol.  

Todo bom muçulmano deve dar à sua comunidade religiosa um décimo de sua renda e tem a obrigação de fazer uma peregrinação ritual a Meca, cuja execução envolve um repertório bastante complexo de atos puramente externos que condicionam as predisposições de obediência e submissão à lei do Profeta.  

O Alcorão estabelece a poligamia como fundamento da família islâmica. Entende-se que um bom muçulmano não pode ter mais de quatro esposas. Uma justificativa para essa forma de casamento pode ser encontrada na introdução do livro sagrado em sua edição argentina recente.  

Não é preciso ser excessivamente pudico para compreender o grau de submissão aos sentidos que tal união implica. Entende-se que o privilégio de ter um harém, por mais modesto que seja, significa que os crentes menos afortunados devem resignar-se à poliandria ou, na melhor das hipóteses, a uma monogamia aceita sem entusiasmo.  

Numa organização social dominada pela presença vigilante dos clãs, o casamento é, acima de tudo, um ato político, cujo propósito fundamental é a união das famílias. Daí a importância, para os líderes, de forjar alianças frutíferas com os grupos familiares mais poderosos. Maomé continuou a prestar uma homenagem calorosa a este costume de solidariedade, mas foi em grande parte superado pelos seus sucessores, uma vez que a expansão do Islão exigiu inúmeras alianças.  

O desprezo percebido pelas mulheres entre os árabes tem sido, em certa medida, exagerado. O Alcorão recomenda gentileza e bondade para com as mulheres, as crianças e os idosos. No entanto, sua ética é essencialmente masculina, e são os homens capazes que carregam tanto o fardo quanto a honra da guerra que santifica e salva. As mulheres pertencem ao mundo secreto e privado do homem, o "harém", cujo significado alude a essa situação de privacidade secreta.  

Após a morte de sua primeira esposa, que teve a rara distinção de ser sua única esposa, Maomé teria arranjado treze casamentos, segundo analistas mais inclinados a documentar fatos comprovados. Outros afirmam que ele teve quinze esposas. Em todo caso, é um número que muitos imãs considerariam insignificante e de forma alguma indigno de um homem de sua estatura.  

É claro que soldados comuns podiam praticar livremente masturbação, pederastia ou bestialidade, sem que nenhum desses vícios fosse especificamente condenado ou os impedisse permanentemente de entrar no Paraíso , no caso daqueles que morressem em batalha. Maomé compreendia muitas das desvantagens da poligamia e escreveu, não sem certa desilusão: "que vocês nunca conseguirão estabelecer harmonia entre suas esposas, por melhores que sejam suas intenções". Ele então acrescentou, com o objetivo de prevenir qualquer tentativa prematura de subversão feminina:  

"Os homens são pastores das mulheres, porque Deus os escolheu e porque eles as sustentam com seus bens. As boas esposas devem ser recatadas e guardar sua castidade na ausência de seus maridos, pois Deus vela por elas. Quanto àquelas de quem suspeitais de infidelidade, admoestem-nas e deixem-nas em paz em seus leitos; se persistirem, castiguem-nas, mas se obedecerem a vocês, não as provoquem. Em verdade, Deus é Exaltado, Grande." (Surata 4, versículo 34). 

É claro que esse regime, longe de ser apaziguador, aumenta a luxúria do temperamento árabe e frequentemente provoca certos excessos de concupiscência, aqueles que Maomé, com grande mente aberta, chamou de obscenidades: copular com a mãe, filha, irmãs, amas de leite, irmãs de criação, noras, sogras ou enteadas sob tutela. O conselho do Alcorão é evitar tais transgressões, mas, uma vez consumado o ato, deve-se confiar em Deus, que é o mais indulgente e misericordioso (S.4-A1.23).  

A indulgência de Alá para com as fraquezas humanas é tão generosa que nenhum esforço ascético é necessário para alcançar o paraíso. Poderíamos dizer, ampliando um pouco os limites desta reflexão — uma reflexão que não pretende aprofundar complexidades teológicas —, que assim como não existe uma teologia ascética, não há sequer um indício de esforço no Alcorão para alcançar uma certa perfeição espiritual.  

Isso nos obriga a considerar cuidadosamente o caráter religioso deste livro, pois, embora demonstre uma preocupação constante em confirmar o legalismo da "Torá" judaica , há também duas outras intenções que devem ser destacadas: em primeiro lugar, refutar os princípios cristãos, reformulando a pregação de Cristo dentro da estrutura do legalismo talmúdico e, em segundo lugar, provocar uma exaltação agressiva da fé para servir a um objetivo de conquista político-militar.  

O Antigo Testamento é um livro religioso e, embora narre as provações do povo escolhido em seu relacionamento com Deus, o protagonista da narrativa é sempre Javé, a tal ponto que as pessoas que recebem a revelação são valorizadas na medida em que demonstram fidelidade às verdades propostas para sua preservação e disseminação entre a humanidade. O povo israelita é uma comunidade sacrificial que Javé escolheu para si como instrumento para um propósito essencialmente religioso.  

A relação do Alcorão com o povo árabe, aparentemente, segue um padrão semelhante, mas rapidamente se transforma em um instrumento de agressão conquistadora. Todos os aspectos negativos da transformação do povo de Israel quando rejeitaram Cristo aparecem no Islã sem nenhum dos fatores atenuantes que tornam a situação espiritual do judeu moderno tão complexa. Este sempre mantém um senso de dependência do julgamento divino, o que o obriga a examinar cuidadosamente a justificativa de suas ações. De uma perspectiva puramente humana e histórica, o advento de Cristo frustrou as expectativas messiânicas dos judeus. Eles esperavam que o enviado de Javé os colocasse à frente de todas as nações como um povo sacerdotal, mas Jesus enfatizou a universalidade da mensagem religiosa e colocou os primogênitos no mesmo nível dos gentios.  

Esse orgulho judaico profundamente ferido, que o ressentia e se fechava para sempre no confinamento de uma esperança carnal orientada principalmente para a destruição do cristianismo ou sua corrupção em um messianismo deste mundo.  

Os árabes adotaram do judaísmo um esquema de simplificação ativista e violenta, rejeitando com desprezo tudo o que no cristianismo pudesse ser profundo e misterioso. Consideravam blasfêmia falar da Trindade, pois não tinham o menor interesse em meditar sobre a natureza de Deus. Isso lhes era grego. O essencial é conhecer a vontade divina, expressa na lei, e cumprir seus mandamentos, que consistem em conquistar as nações para Alá. Se os demais não "negarem o que dizem, um severo castigo recairá sobre os blasfemos dentre eles" (Surata 5, Versículo 73).  

Essas estruturas incentivam a ação e confundem aqueles que questionam e complicam a fé com seus problemas. Ao longo da Surata 5, o autor do Alcorão enfatiza que Cristo e Maria ensinaram a obediência à lei e nunca se consideraram divinos, nem se compararam a Deus. Por essas razões, os ensinamentos de Jesus devem ser compreendidos dentro de uma estrutura de fidelidade absoluta à Torá, e não dentro da falsa ruptura alegada pelos cristãos.  

Não há mistério trinitário, nem encarnação, nem graça santificadora; portanto, pode-se afirmar com certeza que o Islã rejeita formalmente a religião, mas aceita substituir a vontade de Deus pelos desígnios de sua ferocidade conquistadora. Não há pecado original, nem natureza decaída; a maioria das transgressões é apagada com simples penitência externa, porque, em essência, não constituem ofensas contra Deus, mas sim infrações disciplinares que devem ser corrigidas com a mão de ferro do governante. Em sentido estrito e formal, o Islã não é uma religião, nem constitui um ramo privilegiado da tradição primordial. É uma ideologia, como afirma Rodinson, mas inteiramente baseada no judaísmo e sem qualquer complicação messiânica além da imposição do Islã pela força das armas.

  
  
Nota do Editor (*): Todas as citações do Alcorão presentes nesta obra foram extraídas de: O Sagrado Alcorão, tradução literal, completa e direta do árabe para o espanhol, com comentários e suratas de Ahmed Abboud e Rafael Castellanos, 3ª edição, Editorial Arábigo Argentina El Nilo", Buenos Aires, Argentina, 1980. Deve-se esclarecer que a palavra "sura" é um substantivo masculino, apesar de seu uso feminino no texto mencionado, e por essa razão o leitor encontrará "el sura", etc., ao longo da obra.

Sermão da Quaresma - São Leão Magno

 


Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito será vergonhosamente rebaixado de sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade, de rei que deveria ser, torna-se escravo.

Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atrativos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o cetro que lhe é devido de pleno direito, nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu Mestre.

É, sem dúvida, uma preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, por uma vigilância constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar essa vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta época do ano, quando nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia de suas manobras.

Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que passamos a Quaresma castigando todas as molezas, apagando todas as negligências do passado; usam então de todo o poder de sua malícia para induzir em alguma impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão.

Meus caros irmãos, entramos na Quaresma, isto é, em uma fidelidade maior ao serviço do Senhor. É como se entrássemos em um combate de santidade.

Então preparemos nossas almas para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos por nossa salvação, mais violentamente seremos atacados por nossos adversários. Mas Aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. Nossa força vem d’Aquele em quem pomos nossa confiança.

Pois se o Senhor se deixou tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força de seu socorro, o ensinamento de seu exemplo. Acabaste de ouvi-Lo. Ele venceu seu adversário com as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida a sua humanidade será maior, maior também a punição de seu adversário se Ele triunfa sobre o inimigo do gênero humano não como Deus, mas como homem.

Assim, Ele combateu para que combatêssemos como Ele; Ele venceu para que também nós vencêssemos da mesma forma. Pois, meus caríssimos irmãos, não há atos de virtude sem a experiência das tentações, a fé sem a provação, o combate sem um inimigo, a vitória sem uma batalha. 

A vida se passa nomeio das emboscadas, no meio dos combates.Se não quisermos ser surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos vencer, é preciso lutar. Eis porque Salomão, que era sábio, diz: Meu filho, quando entras para o serviço do Senhor, prepara a tua alma para a tentação (Eclo. 2,1).

Cheio da sabedoria de Deus, sabia que não há fervor sem combate laborioso; prevendo o perigo desses combates, anunciou-os de antemão para que, advertidos dos ataques do tentador, estivéssemos preparados para aparar seus golpes.


Sermão sobre a Quaresma, São Leão Magno
Evangelho: S. Mateus 4, 1-11

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Sermão sobre o conhecimento e a ignorância - São Bernardo de Claraval


 


I- O conhecimento das letras é bom para a instrução, mas o conhecimento da própria fraqueza é mais útil para a salvação. Aqui estou para cumprir o que vos prometi; aqui estou para satisfazer vosso desejo; aqui estou, também, obrigado pela dívida que tenho para com Deus, a Quem sirvo.

Como vedes, três são as razões que me impelem a pregar: o compromisso assumido, o amor fraterno e o temor a Deus.

Se me abstivesse de falar, pela minha boca condenar-me-ia. Mas o que acontece se eu falar? Também neste caso, corro o mesmo risco, o de ser condenado pela minha própria boca: por pregar e não praticar o que prego. Ajudai-me, pois, com vossas orações, para que eu possa sempre falar o que é necessário e, com minha conduta, praticar o que prego.

Tinha vos anunciado o tema do sermão de hoje: a ignorância, ou melhor, as ignorâncias, porque, como lembrais, há duas ignorâncias: a de nós próprios e a de Deus. E vos aconselhava a evitar uma e outra, pois ambas são perdição.

Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse assunto. Antes, porém, discutiremos se toda ignorância é condenável. Parece-me que não, pois nem toda ignorância produz perdição: há muitas e mesmo inúmeras coisas que se podem ignorar sem problema algum para a salvação.

Se alguém, por exemplo, desconhece artes mecânicas, como a carpintaria, a arte de edificação e outras que são exercidas para a utilidade da vida neste mundo, acaso tal ignorância constitui obstáculo para a salvação?
Também são muitos são os que se salvaram e agradaram a Deus pela sua conduta e com seus atos sem as artes liberais (e, certamente, são úteis e moralmente bons esses estudos). Quantos não enumera a Epístola aos Hebreus (cap. XI), que se tornaram agradáveis a Deus não com erudição, "mas com consciência pura e fé sincera" (I Tim 1,5). E agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não com os de seu saber. Cristo não foi buscar Pedro, André, os filhos de Zebedeu e todos os outros discípulos, entre filósofos; nem em escola de retórica e, no entanto, valeu-se deles para realizar a salvação na terra.

Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens - como diz de si mesmo o Eclesiastes (1, 16) -, mas, por causa de sua fé e de sua benignidade, o Senhor os salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos mostraram ao mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com palavras eloqüentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a Deus: pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus salvar os que crêem, porquanto o mundo com sua sabedoria não O conheceu (I Cor 2, 1; 1, 17-21).

II - Posso estar dando a impressão de querer lançar em descrédito o saber, de repreender os doutos, de proibir o estudo das letras. Longe de mim, tal atitude! Conheço muito bem o inestimável serviço que os homens doutos têm prestado à Igreja: seja refutando os adversários dela, seja na instrução dos simples.

Com efeito, o que li na Sagrada Escritura foi: "Como rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que não exerças Meu sacerdócio" (Os 4, 6). E mais: "Os doutos resplandecerão com o brilho do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como estrelas em perpétuo resplendor" (Dn 12, 3).

Mas, por outro lado, li também: "O saber incha" (I Cor 8, 1).

E, finalmente: "No acúmulo de saber, acumula-se a dor" (Ecl 1, 18).

Vede que há saberes e saberes: há um saber que produz o inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais capazes de distinguir qual deles é útil e necessário para a salvação: o que incha ou o que dói? E não duvido que prefiras o que aflige ao que incha, porque, se a saúde pela inchação é aparentada, pela aflição é procurada.

Ora, quem procura, acaba encontrando, pois "quem pede, recebe" (Lc 11,10). E é certo que Aquele que cura os que têm o coração contrito abomina o inchaço dos orgulhosos, pois a Sabedoria diz: "Deus resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes" (Tg 4,6). E o Apóstolo diz: "Exorto-vos, em virtude do ministério que pela graça me foi dado, a não pretender saber mais do que convém, mas saber com sobriedade" (Rom 12,3).

O Apóstolo não proíbe saber, mas sim saber mais do que convém. E o que é saber com sobriedade? É cuidar de aplicar-se prioritariamente ao que mais interessa saber, pois o tempo é breve. Ora, ainda que todo saber, desde que submetido à verdade, seja bom, tu, que buscas com temor e tremor a salvação e a buscas apressadamente, dada a brevidade do tempo, deves aplicar-te a saber, antes e acima de tudo, o que conduz mais diretamente à salvação.

Acaso não dizem os médicos do corpo que parte da medicina é precisamente determinar a ordem dos alimentos: qual deve ser ingerido antes, qual depois e o modo de os ingerir? Ora, mesmo sendo bons os alimentos que Deus criou, tu os tornas nocivos se não observas o modo e a ordem ao ingeri-los. Aplica, pois, aos saberes, o que dissemos dos alimentos.

III - Mas o melhor é encaminhar-vos ao Mestre. Não é nossa esta sentença, mas d'Ele; ou antes, é nossa porque a aprendemos d'Aquele que é a Verdade. E diz: "Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber" (I Cor 8,2).

Vede como não é aprovado o saber muitas coisas se se ignora o modo de saber. Vede como o fruto e a utilidade do saber consiste no modo de saber.

Mas o que é este modo de saber? O que, senão saber segundo a ordem, o amor e o fim devidos?

Segundo a ordem, isto é, priorizando o que é mais necessário para a salvação; segundo o amor, isto é, voltando-nos mais ardentemente para o que mais nos impele a amar; segundo o fim: não por vaidade ou curiosidade ou objetivos semelhantes, mas somente pela tua própria edificação e pela de teu próximo.

Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade.

Há quem busque o saber só para poder exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam à mordaz sátira que diz: "Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes" (Persius, Satyra 1, 27).

Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico.

Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência.

IV- De todos estes que buscam o conhecimento, só os dois últimos não incorrem em abuso do saber, já que o buscam para praticar o bem. Deles é que fala o salmo: "O saber é bom para quem o põe em prática" (Sl 111, 10). Os demais devem ouvir a Escritura: "Quem conhece o bem e não o pratica, comete pecado" (Tg 4, 17).

É como se, numa comparação, disséssemos: tomar alimento e não digeri-lo faz mal. Um alimento indigesto, mal cozinhado, produz maus humores e, em vez de nutrir o corpo, corrompe-o. Assim também pode dar-se o caso de o estômago da alma, que é a memória, ingerir muitos conhecimentos que não foram cozinhados pelo fogo do amor e nem passaram para ser elaborados pelo aparelho digestivo da alma (no caso, os atos e costumes), a fim de que a alma se torne boa pelo bom conhecimento (o que pode ser atestado pela vida e pelos costumes). E acaso um tal saber indigesto não deve ser considerado pecado, tal como um alimento que se transforma em humores maus e nocivos? E os maus humores do corpo não equivalem aos maus costumes da alma? E não virá a sofrer de inchaços e cólicas de consciência quem conhece o bem e não o pratica?

Acaso não se lhe aplicará a sentença de morte e condenação, toda vez que lhe vier à mente a palavra de Deus: "O servo, que conhece a vontade de seu senhor e não a pratica, torna-se digno de muitos açoites" (Lc 12,47)?

E não será em nome desta alma, o pranto do profeta (Jer 4,19): "Doem-me as entranhas, doem-me as entranhas"? Gemidos geminados que - salvo outra interpretação - apontam para o que dizíamos: o profeta fala de si mesmo, pois estava pleno de saber, inflamado de amor e, desejando intensamente transmitir esse saber, não encontrou quem se interessasse por ouvir e teve de arcar sozinho com o peso de um saber que não pôde comunicar. Chorou, pois, o zeloso doutor da Igreja, tanto por aqueles que menosprezam a busca do saber que dirige o bem viver, como pelos que, embora sabendo, no entanto, vivem mal. E, por isso, o profeta repete seu lamento.

V- Compreendes agora quão verdadeira é a sentença do Apóstolo: "O saber incha"? Por isso, convém que a alma antes se conheça a si mesma, coisa que é requerida pela ordem e pela utilidade.

Pela ordem, porque, para nós, o primeiro conhecimento deve ser o do que somos; pela utilidade, porque tal conhecimento não incha, mas humilha e serve de fundação para a edificação. Pois o edifício espiritual que não tem seu fundamento na humildade, não se agüenta em pé.

E para aprender a humildade, a alma não encontra nada mais convincente do que descobrir-se a si mesma na verdade. Deve-se, portanto, evitar a dissimulação, o auto-engano doloso, deve o homem encarar-se de frente, evitando fugir de si mesmo.

Pois, defrontando-se a alma com a límpida luz da verdade, encontrar-se-á muito diferente do que julgava ser e, suspirando em sua miséria - uma miséria que já não pode esconder porque é verdadeira e manifesta -, clamará com o salmista ao Senhor: "Em Tua verdade me humilhaste" (Sl 119, 75). Como não se humilhará neste verdadeiro conhecimento de si, ao dar-se conta da carga de seus pecados, sob o peso deste corpo mortal, ao ver-se imersa em preocupações terrenas, infectada pelos desejos carnais, cega, curvada, fraca, envolta em mil pavores, angustiada ante mil dificuldades, sufocada ante mil dúvidas, indigente de mil necessidades, inclinada ao vício, impotente para as virtudes?

Onde está agora o olhar arrogante? Onde, a cabeça orgulhosamente erguida? Não será ela ainda mais arremessada em sua desolação, trespassada por espinhos? (Sl 32, 4). Que ela - diz o salmista - derrame lágrimas, que chore e gema, que se volte para o Senhor e clame em sua humildade: "Cura, Senhor, minha alma, pois pequei contra Ti" (Sl 41,5). Se ela se voltar para o Senhor, encontrará consolo, pois Ele é o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação.

VI - Eu, quando olho para mim mesmo, fico imerso em amargura; logo, porém, que alço a vista para o auxílio da misericórdia divina, suaviza-se meu amargor com a alegria da visão de Deus e Lhe digo: "Minha alma está conturbada interiormente, por isso me lembro de Ti" (Sl 42,7).

Basta um pouco de conhecimento de Deus para experimentar que Ele é piedoso e solícito, pois, na verdade, Ele é um Deus de bondade e misericórdia, que perdoa a maldade (Joel 2,13); Sua natureza é a bondade e é próprio d'Ele perdoar e ter misericórdia sempre.

Deus se dá a conhecer nesta experiência e desta maneira salutar, a partir do momento em que o homem se reconheça indigente e clame ao Senhor; e Ele o ouvirá e dir-lhe-á: "Eu te libertarei e tu Me glorificarás" (Sl 50,15).

Assim, o conhecimento próprio é um passo para o conhecimento de Deus. Vê-lO-ás em Sua imagem, que em ti se forma, na medida em que tu, desarmado pela humildade, com confiança, irás refletindo a glória do Senhor e, levado pelo Espírito de Deus, de claridade em claridade, irás te transformando nessa imagem.

VII - Reparai, pois, como ambos conhecimentos são necessários para a salvação, de tal modo que não pode faltar nenhum dos dois. Pois, se desconheces a ti mesmo, não terás temor de Deus em ti, nem humildade. Por acaso pensas que podes alcançar a salvação sem temor de Deus e sem humildade?

(Neste momento, o auditório murmura: "Não, não!").

Fizestes bem de indicar-me o "não" absoluto de vosso juízo, ou antes, que não estais desprovidos de juízo... Nem vale a pena continuar falando sobre o óbvio.

Mas, prestai atenção a um outro ponto...

Ou será melhor parar, por causa dos que já estão pestanejando? Eu pretendia, em um só sermão, dar conta do que tinha prometido: falar da dupla ignorância, e fá-lo-ia se não me parecesse que este discurso já está demasiadamente longo para os que o acham cansativo. E vejo alguns bocejando e outros dormitando. E não é de admirar, pois a longuíssima vigília de oração que tivemos hoje os desculpa.

O que direi, porém, daqueles que dormem agora, mas dormiram também enquanto rezávamos os ofícios? Não quero, porém, levar isto adiante e envergonhá-los, baste ter mencionado o fato... Penso que de hoje em diante cuidarão de estar atentos, advertidos que foram pela nossa correção.

Com esta esperança e em atenção a eles, em vez de continuar, partamos, suspendendo por clemência o discurso, e dêmos-lhe fim, embora não tenha atingido seu fim. Eles, por sua vez, tendo sido objeto de nossa compreensão, associem-se a nós em glorificar o Esposo da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém.

Sermão 36 sobre o Cântico dos Cânticos

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O caráter antirreligioso da civilização moderna

 


Se se excetuam os territórios que a civilização racionalista de nosso tempo ainda não desquiciou, dos quais fazem parte a maioria dos países de missão, em toda parte o cristianismo estagna, regride ou ainda morre nas sociedades humanas. Onde se forma o homem-massa — que não é somente o proletário —, o cristianismo se anemiza e desaparece; basta lançar um olhar sobre as vastas aglomerações edificadas pelo industrialismo para estar convencido disso. Na presença dessa lepra imensa e transbordante que aumenta sem cessar, tem-se a impressão desconsoladora de que o Senhor começa de novo, segundo a forte expressão do P. Don-coeur, a política da Arca de Noé.

A crise perigosa atual é evidentemente contemporânea da civilização racionalista; tem dela a extensão territorial. Há aí muito mais que uma simples coincidência.

O próprio do racionalismo moderno é, com efeito, desencarnar o homem, separando dele o espírito e a vida. Os miasmas que difunde graças a uma técnica e a uma política tão coletivas quanto possível penetram nele por todos os seus poros e o tornam incapaz de suportar a menor dose de fermento cristão. O homem formado pela civilização contemporânea rejeita mecanicamente o enxerto do cristianismo. Tornou-se constitutivamente inapto para receber a mensagem de encarnação que lhe propõe a fé cristã, pois as bases naturais que poderiam acolhê-la foram minadas nele de cima a baixo. O fracasso da evangelização das massas é um fato patente, apesar do trabalho e da santidade empregados por aqueles que generosamente a empreenderam. Esse fracasso tem, por outro lado, um antecedente histórico: o cristianismo não penetrou nas massas romanas entregues aos jogos do circo e aos vendavais do Império em perdição, embora estivesse então na plenitude de sua juventude e de seu ardor conquistador.

A razão desse fracasso ressonante, que não exclui, por outro lado, certos resultados individuais ou esporádicos, parece-nos clara. Um dos resultados mais claros da desvitalização do espírito e da desespiritualização da vida provocadas pelo racionalismo é a perda do sentido ontológico do real, em particular do real mais próximo: o próprio próximo. O homem-massa, tomado como tal, é literalmente inabordável, salvo quando se excita nele o último reflexo de sua vitalidade em declínio: o da conservação e da defesa, que se opõe precisamente ao próximo. Seu espírito desencarnado, desenraizado da vida e dos corpos superiores que são a família, a profissão, a pátria, encontra-se sem defesa diante das ideologias e das técnicas do coletivismo que louvam sua propensão nativa à ruptura e que lhe aparecem como um ersatz de salvação. Na mesma medida em que aspira confusamente a salvar-se, seu desenraizamento da vida o desvia do real e o obriga a construir completamente essas ideologias e essas técnicas, que bastará em seguida a hábeis condutores orquestrar e sistematizar em função de seu último reflexo de defesa contra a morte. Essa é, sem dúvida, a tara essencial do liberalismo burguês e do socialismo proletário: ter desconhecido, em proveito de seu próprio triunfo, a condição encarnada do homem e suas relações orgânicas com a realidade.

Tendo perdido o sentido do real e do próximo, mas obrigado a viver ao lado de seus semelhantes, o homem refugia-se então numa representação abstrata e imaginária da existência social, que se apresenta para ele como um absoluto porque entretém seu eu ilusoriamente liberado de todo quadro, de toda obrigação, e que, no entanto, é o contrário do absoluto porque é irreal. Seu ateísmo, como sua crença degradada, sua mística — que, semelhante àquela que ele nega, admite graus, desde o gesto ritual, recobrindo uma participação reduzida até a visão — derivam diretamente disso.

Pois o coletivo, na medida em que o é, não pensa, não sente, não experimenta nenhuma impulsão afetiva em direção a outro ou ao que o ultrapassa. Somente um ser pessoal, em quem o espírito se encarna na vida e que pela vida percebe a transcendência do real, é capaz de pensar, de sentir ou de amar.

Um homem que se identifica ao coletivo reduz-se a um mecanismo manobrado do exterior, de onde a menor ideia de Deus é desterrada. Se a desflora, é como a semente caída sobre a pedra, cujo germe não pode penetrar no interior de um meio vital. Aborta sem remissão. É somente em um ser cujo espírito não está separado da vida que a ideia de Deus pode ser um início, um pressentimento, uma espécie de palpitação obscura da realidade existencial do Absoluto, porque encontra nela um terreno já preparado por todas as transcendências terrestres concretas que encontrou.

Por essa razão, o homem que está absorvido pelo coletivo se produz cegamente desde que lhe é apresentada a ideia de Deus, a fortiori a de Cristo, Deus encarnado na existência terrestre. Submerso num não-ser coletivo e num absoluto social irreal, seu pensamento em declínio fecha-se hermeticamente diante de toda ideia que se prolonga numa existência pessoal e concreta. Seu aprisionamento no eu por baixo e num universal sem forma e sem semblante por cima faz dele um ateu para quem a ideia de Deus não tem nenhum sentido.

A própria palavra de Deus o transtorna, pois não pode crer senão numa pseudoexistência coletiva que conforta idealmente sua vitalidade desfalecente. Tocamos aqui o grande mistério do ateísmo religioso. O homem que não crê em nada sem dúvida jamais existiu, mesmo antes da pregação do Evangelho. Crer é essencialmente aderir a alguma coisa que não se pode ver, palpar ou mesmo pensar, mas que existe para além do inapreensível. A fé é consubstancial ao homem porque ele não é tudo. Mas no homem desencarnado a crença vai de um só ímpeto para a coletividade universal e imaginária que leva em seu espírito, à qual se agarra com tanto mais força quanto mais se confunde com seu próprio eu. O coletivo é, ao mesmo tempo, o mesmo e além, como Deus. Sem essa imersão no coletivo e no ombro a ombro do rebanho que multiplica sua fraqueza e a mascara em potência, ele seria varrido sem piedade para fora do mundo, no qual não tem mais que ínfimas possibilidades de inserção. É-lhe necessário reencontrar o mundo do qual se desenraigou: é necessário que viva. O único sentido do divino que ainda possui é o de um panteísmo degradado, que se condensa totalmente na posse do mundo pela coletividade imaginária da qual é membro, porque já não pode estar no mundo sozinho: sua desencarnação o expulsa dele. Agarra-se assim ao coletivismo ateu e religioso como a uma tábua de salvação. Para ele, a coletividade erige-se em mediadora da existência, como o Cristo, mas de uma existência exclusivamente orientada para a terra na qual deve viver. Seu panteísmo dobra-se de materialismo radical.

Assim, o homem formado no clima da civilização moderna evolui pela vertente oposta ao cristianismo; é incapaz de conceber um Deus pessoal, um Deus espiritual que se encarna para a salvação dos homens. Para concebê-lo é necessário que o evangelizador o faça subir as encostas que desceu. Os fundamentos da crença em Deus estão afundados em seu ser; restam apenas cumes cujo penoso ascenso será de fato excepcional. O restante, os imperceptíveis movimentos em direção à transcendência, só Deus os vê e os julga.

Por mais amarga que seja essa constatação, é necessário dizer que a readaptação ao cristianismo do homem entregue aos prestígios da civilização atual — e semelhante homem forma legião — só é possível na medida em que escapará às influências deletérias que suporta. E nada permite prevê-lo. Do mesmo modo que no termo da civilização antiga, mas incomparavelmente mais profunda e mais universalizada, parece que o homem moderno esteja atado à civilização que construiu e que será necessária uma catástrofe inimaginável para romper sua convivência maléfica. Quando se considera com que avidez, com que exaltação ou com que estupor resignado o homem atual acolhe as ideias racionalistas que enchem seu espírito sem vida e saturam seus instintos animais, é preciso convir que essas ideias constituem a projeção de sua substância mais íntima e que ele se reencontra nelas.

O cristianismo tem tanto mais dificuldade em manter-se em seu ambiente quanto mais se articulam três linhas de força diretamente opostas ao dinamismo da mensagem cristã: a ideia de progresso, os sortilégios da técnica, o cerco da política.


CORTE, Marcel de. Ensayo sobre el fin de nuestra civilización, p. 180–185.

domingo, 11 de janeiro de 2026

A Virtude da Temperança

 


A temperança liga-se estreitamente à prudência pois modera as paixões do concupiscível e conserva-as num justo meio razoável entre o excesso e a carência. Ela se une à justiça pelos atos e pela rejeição à intemperança, vício essencialmente próprio ao indivíduo dedicado ao seu prazer pessoal. Ela é companheira da força, que luta pelo bem comum, já que é impossível ser forte sem ser temperante.
(...)
Não há nenhuma outra virtude que esteja em mais estreita conexão com todas as demais ou que lhe seja mais extensível: quase todas as virtudes, cardeais ou não, tem necessidade da temperança para se levar a efeito. Seu uso é freqüente, cotidiano, e, se a força a supera “dum certo modo” (quoad aliquid) por seu aspecto social, por sua freqüência necessária e pelos vínculos concretos com as demais virtudes, a temperança pode encontrar a preferência do moralista, não somente em relação à força, mas “mesmo à justiça”. Ela é uma virtude viril e santo Tomás, seguindo Aristóteles, comenta com precisão que seu contrário “é um pecado de concupiscência” excessiva que, de ordinário, atribuímos às crianças. Igualmente destaca, acompanhando “o mestre daqueles que sabem”, que a intemperança é um vício mais grave que a pusilanimidade, porque é mais voluntária, mais própria do homem feito. O pusilânime tem quase sempre o espírito paralisado diante do perigo da morte física ou moral; é mais sujeito aos impulsos exteriores que sofre, mais sensível aos riscos e às ameaças em geral. O intemperante é atraído pelos gozos particulares, adjacentes ou acessórios às concupiscências da natureza. Ora, “é pura e simplesmente mais voluntário o que é voluntário nas ações singulares, nas quais culminam a virtude ou o vício, no sentido próprio dos termos”.

Mas, indo um pouco além, estas ações singulares não estão isoladas de seus prolongamentos sociais. A vergonha que se associa à intemperança se opõe à honra e distinção da virtude contrária. Sem dúvida, a intemperança é freqüente em meio à humanidade, e sua repetição, por demais visível, parece diminuir a vergonha e a desonra que se associam a ela na opinião dos homens. Todavia, elas não se apagam completamente dali: a natureza do vício ao qual sucumbe o intemperante, marcada por sua gravidade, opõe-se a isto. Demais, os estigmas deixados pela intemperança sobre o aspecto do homem ― a abjeção de sua conduta libidinosa ― apagam, diz-nos Santo Tomás com profundeza, o brilho e a beleza inerentes ao homem temperante, equilibrado, dono de si, seguro das finalidades que persegue, e cuja razão ilumina, por sua transparência, os atos virtuosos. Um visível envilecimento caracteriza o libidinoso e, na mulher, os artifícios que o dissimulam só acentuam a ausência de castidade. Todos esses sinais, ao mesmo tempo individuais e sociais, cujos sentidos são evidentíssimos, manifestam que o homem ou a mulher entregues à intemperança se rebaixam ao nível do animal, destruindo em si as marcas do seu caráter verdadeiramente humano.

Marcel de Corte. A temperança, virtude desaparecida. Publicado originalmente na Revista Itineraires n. 250, Fev/81 Tradução: Permanência.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As regras de Santo Inácio de Loyola para o discernimento dos espíritos

 


1. Àqueles que vão de pecado mortal em pecado mortal costuma, geralmente, o inimigo propor gozos aparentes e despertar-lhes na imaginação prazeres e desejos impuros, para mais os conservar e mergulhar em seus vícios e pecados. Ao contrário, o bom espírito causa-lhes remorsos e estímulos de consciência para os retirar de tão lastimoso estado.

2.Com aqueles que procuram intensamente purificar-se de seus pecados, e progredir no serviço de Deus, Nosso Senhor, dá-se o contrário do que foi dito na primeira Regra. Pois neles costuma o demônio suscitar perturbações de consciência, tristeza e desânimo, inquietando-os com falsas razões, para que não vão por diante na sua santificação. Pelo contrário, é próprio do bom espírito dar coragem, forças, consolações, lágrimas, inspirações e tranqüilidades, tornando-lhes tudo fácil e afastando todos os impedimentos, para que vão sempre adiantando na virtude e perfeição.

3. Da consolação espiritual. Chamo consolação qualquer movimento interno que impele a alma para mais servir e amar o seu Criador e Senhor, afastando-a, por conseguinte, de todas as coisas criadas para só descansar no Criador delas; e também quando provoca lágrimas de amor a Deus, de dor dos próprios pecados, de compaixão pela morte de Cristo e de outras coisas ordenadas diretamente ao seu serviço e louvor; finalmente, chamo consolação a todo aumento de fé, de esperança e caridade, e a toda a alegria interna que atrai o homem para as coisas celestes e salvação de sua alma, dando-lhe paz e tranqüilidade em seu Criador e Senhor.

4. Da desolação espiritual. Chamo desolação tudo que é contrário ao que foi mencionado na terceira Regra, como por exemplo: trevas na alma, perturbações, inclinação para coisas baixas e terrenas; desassossego por várias tentações, que impelem a alma para a desconfiança, enfraquecendo-a na fé e na caridade, tornando-a triste e indolente no serviço de seu Criador e Senhor. Porque da mesma forma que a consolação é contrária à desolação, também os pensamentos, que nascem da consolação, são contrários aos que nascem da desolação.

5. No tempo da desolação não se deve mudar nada, mas perseverar firme e constante nos propósitos feitos no tempo da consolação; porque do mesmo modo que na consolação nos aconselha e guia o bom espírito, assim o mau nos causa, na desolação, sugestões, a que não podemos dar assentimento.

6. Ainda que na desolação não devamos mudar nossos propósitos, contudo é muito útil agir contra a mesma desolação, persistindo, por exemplo, mais tempo na oração, no exame de consciência e alargando-nos mais no uso das penitências.

7. Quem está na desolação considere que o Senhor, para o provar, o abandona a suas próprias forças naturais, a fim de que resista às várias tentações do inimigo; pois não lhe falta o auxílio divino, ainda que o não sinta; porque, se o Senhor lhe tirou o fervor primitivo, e sensível, e a graça superabundante, deixou-lhe todavia a graça suficiente para a sua salvação.

8. Quem está na desolação, trabalhe por levar com paciência as penas que lhe sobrevêm e pense que prontamente será consolado, tomando as medidas contra tal desolação como foi indicado na 6ª Regra.

9. São três as causas principais por que nos achamos desolados. A primeira é porque somos tíbios, preguiçosos ou negligentes em nossos exercícios espirituais e, por nossas faltas, se afasta de nós a consolação espiritual. A segunda porque Deus quer ver quanto podemos e até onde chegamos no seu serviço e louvor sem os auxílios da consolação. A terceira, porque Deus nos quer dar a conhecer que não está em nosso poder sentir grande devoção, amor intenso, lágrimas, nem qualquer outra consolação espiritual, mas que tudo é graça de Deus, Nosso Senhor, a fim de que não nos ensoberbecemos nem envaidecermos atribuindo a nós mesmos a devoção e outras manifestações da consolação espiritual.

10. Aquele que está em consolação pense como se portará na desolação que depois virá, armazenado novas forças para esse tempo.

11. Quem está consolado procure humilhar-se e abater-se quanto puder, considerando quão pouco vale no tempo da desolação sem a graça da consolação. Pelo contrário, quem está na desolação, pense que muito pode com a graça, que não lhe falta para resistir a seus inimigos, recebendo forças de seu Criador e Senhor.

12. O inimigo procede como uma mulher, mostrando-se fraco contra o forte, e forte contra o fraco. Assim como é próprio da mulher, quando luta com algum homem, perder a coragem e fugir, se o homem se mostra corajoso; e, ao contrário, se o homem se mostra covarde e tímido, a ira da mulher chega até ao excesso: do mesmo modo costuma o nosso inimigo enfraquecer e fugir, se aquele que se exercita nas coisas espirituais lhe resiste varonilmente e se opõe diametralmente às suas sugestões; se, pelo contrário, aquele que se exercita, começa a ter medo e a perder a coragem em lhe resistir, não há fera no mundo mais terrível, que este inimigo da natureza humana.

13. Porta-se também o demônio como um falso amante, que não quer ser descoberto. Assim como um homem que, procurando seduzir, com suas ilusórias palavras, a filha dum pai honesto, ou a esposa dum marido honrado, lhes propõe silêncio e pede segredo para que suas pérfidas insinuações não cheguem aos ouvidos do pai ou do marido, pois desfazer-se-ia toda a sua tentativa: assim quer o inimigo que as falazes propostas, que segreda à alma justa, fiquem ocultas e não sejam manifestadas ao confessor ou a uma pessoa espiritual que conheça bem seus embustes, pois perderia toda a esperança de consumar a sua malícia ao ver descobertos todos os seus artifícios.

14. Porta-se também o demônio como um general, quando quer apoderar-se duma fortaleza. Pois, à semelhança dum comandante ou chefe militar que, depois de assentar os arraiais, explora as fortificações e obras de defesa, para saber qual é a parte mais fraca, para começar por ela o ataque: assim o maligno espírito anda rondando em volta de nós para explorar as nossas virtudes teologais, cardeais e morais, a fim de começar por onde nos achar mais fraco, e nos render.

EXERCÍCIOS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA
– Com práticas e meditações para oito dias de retiro pelo Pe. Alexandrino Monteiro, S.I.
– II Edição – Editora Vozes – 1959  – pp. 320-323.


II

1. É próprio de Deus e de seus Anjos, quando entram numa alma, enchê-la da verdadeira alegria e gozo espiritual, e banir toda a tristeza que o inimigo procura introduzir nela. Ao contrário, é próprio do mau espírito combater esta alegria e gozo espiritual por motivos fúteis, sutilezas e contínuas ilusões.

2. Só a Deus pertence consolar a alma sem causa precedente, pois só Ele tem direito de entrar nela e sair quando quiser, movendo-a ao amor de sua divina Majestade. Digo sem causa precedente, isto é, sem nenhum aviso prévio ou conhecimento de qualquer objeto, que dê origem àquela consolação.

3. Quando a consolação é precedida de alguma causa, o bom e o mau anjo podem ser igualmente o seu autor; mas os fins são inteiramente contrários. O bom anjo tem por finalidade o aproveitamento da alma, que deseja ver crescer nas virtudes. O mau anjo, ao contrário, quer vê-la retroceder no bem, para a levar, enfim, a seus perversos intentos.

4. É próprio do mau espírito transformar-se em anjo de luz e entrar primeiramente nos sentimentos da alma piedosa e acabar por lhe inspirar os seus próprios sentimentos. Assim, começa por sugerir a esta alma pensamentos bons e santos conforme às suas disposições virtuosas; mas logo, pouco a pouco, procura prendê-la em seus laços secretos e levá-la a consentir em seus pecaminosos intentos.

5. É examinar com grande cuidado o curso de nossos pensamentos. Se o princípio, o meio e o fim são bons e tendem ao bem, é sinal de que vêm do bom anjo; mas se no decurso deles se encontram alguma coisa má, vã ou diferente do que tínhamos proposto fazer, é sinal evidente de que tais pensamentos procedem do mau espírito.

6. Quando o demônio for descoberto por sua cauda serpentina, isto é, pelo fim pernicioso a que nos quer levar, será útil considerar os pensamentos que nos sugeriu, examinar-lhes o princípio e ver como, pouco a pouco, nos fez perder a alegria espiritual até nos levar à sua perversa intenção. A fim de que, pela experiência alcançada, nos acautelemos para o futuro de suas costumadas fraudes.

7. Naqueles que vão de bem em melhor costuma o bom anjo insinuar-se docemente, como uma gota d’água que cai numa esponja. O mau anjo, ao contrário, entra bruscamente como água que cai em pedra. Naqueles, porém, que vão de mal em pior, entram os mesmos espíritos diversamente, conforme à disposição da alma lhes é contrária ou semelhante. Se lhes é contrária, entram ruidosamente; se semelhante, entram silenciosamente e como por casa de porta aberta.

8. Quando a consolação vem sem causa precedente, ainda que esteja livre de fraude, pois é de Deus, como foi dito na 2ª Regra, contudo a alma, que recebe esta consolação, deve atender bem e distinguir o tempo que se lhe segue. Pois neste segundo tempo, em que a alma se sente toda fervorosa e gozando ainda dos restos da consolação passada, acontece tomar várias resoluções, que não são inspiradas imediatamente por Deus, e por isso devem-se examinar bem antes de se lhes dar inteiro assentimento e por em execução.

EXERCÍCIOS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA
Com práticas e meditações apropriadas para oito dias de retiro pelo Pe. Alexandrino Monteiro, S.I.
II Edição – Editora Vozes – 1959 – pp. 324-325


A santidade da Igreja

  Diante do aumento da delinquência entre os jovens, os juízes tendem a condenar os pais, é razoável? Muitas vezes sim, mas o razoável é jul...