Mostrando postagens com marcador Espiritualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Espiritualidade. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de março de 2026

Conselhos para escapar dos laços do diabo

 


Quem quer escapar dos laços e tentações finais do anticristo ou do demônio, deve abrigar dos sentimentos em si mesmo:

Primeiro, que sinta de si mesmo como de um corpo morto, cheio de vermes e fedorentos, como um cadáver ao que não se dignam ver nem olhar, e mais, tapa-se o nariz pelo péssimo odor e cheiro, e apartam o rosto para não ver tal e tanta abominação (Ludolfo de Saxonia, Vita Christi, I, c.16). É o que nos convém fazer a ti e a mim, caríssimo, porém mais a mim, porque toda minha vida é hedionda, sou todo hediondo, todo meu corpo, toda minha alma, tudo o que está dentro de mim está cheio de corrupção e podridão dos pecados e maldades fedidíssimos e abominabilíssimos que tenho, e, o que é pior, cada dia sinto que este fedor se renova mais recente e mais angustiante.

A alma fiel deve sentir tal fedor de si mesma, com grande vergonha diante de Deus, como diante dAquele que vê e sabe todas as coisas, como se estivesse diante de seu rigoroso juízo, doendo-se totalmente da ofensa feita a Deus e da perdida de graça na alma, a que tinha por ser redimida pelo preciosíssimo Sangue de Cristo e lavada pela água do batismo. E assim como sente e crê para si e para Deus que és hediondo, assim também sinta e creia o mesmo diante dos anjos e almas santas, e diante de todos os homens que vivem no mundo. Para todos eles és abominável e repugnante: todos eles não só não querem ver nem escutar suas obras e palavras, senão que se tapam os narizes e voltam o rosto para não vê-lo e o jogam de lado como um fétido cadáver e assim está desterrado deles, separado e arrojado como um leproso, e mais, até que volte em si.

Se alguém fizer justiça de si mesmo e sentir de seu corpo o que é justo, e deve crer que é assim, deveriam tirar-lhe os olhos, romper-lhe o nariz, cortar-lhe as mãos, as orelhas e a boca e todos os outros sentidos corporais e membros, pois como todos eles ofendeu a Deus criador.

Desta forma, deseje ser desprezado e ultrajado e sofrer com paciência todos os vitupérios, vergonhas, difamações, blasfêmias e adversidades com grande gozo e alegria.

Em segundo lugar, convém que desconfie totalmente de si mesmo, de todos seus bens e de toda sua vida, e que te convertas totalmente e te reclines nos braços de Jesus Cristo, paupérrimo, vilíssimo, improperado, desprezado e morto por ti, até que tu estejas morto em todos teus sentimentos humanos e que Jesus Cristo crucificado viva em teu coração e em tua alma, e todo transformado e transfigurado sintas cordialmente em ti, de maneira que nunca vejas e nem sintas, nem ouças, senão ao mesmo Jesus cravado na Cruz, morto e suspenso por ti, a exemplo da Virgem Maria, morto ao mundo e vivendo pela fé (Gl 2, 20; Ludolfo de Saxonia, Vita Christi, I, c.16). E toda tua alma viva nesta fé até a ressurreição, na que o Senhor te infundirá um gozo espiritual e o dom do Espírito Santo em ti e naquelas pessoas nas quais há de renovar- se o estado dos Apóstolos e da Igreja santa de Deus. Exercita-te em santas orações ou meditações sagradas e afetos, para obter os dons das virtudes e a graça de Deus.

São Vicente Ferrer, Tratado da Vida Espiritual, p. 55–56.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As regras de Santo Inácio de Loyola para o discernimento dos espíritos

 


1. Àqueles que vão de pecado mortal em pecado mortal costuma, geralmente, o inimigo propor gozos aparentes e despertar-lhes na imaginação prazeres e desejos impuros, para mais os conservar e mergulhar em seus vícios e pecados. Ao contrário, o bom espírito causa-lhes remorsos e estímulos de consciência para os retirar de tão lastimoso estado.

2.Com aqueles que procuram intensamente purificar-se de seus pecados, e progredir no serviço de Deus, Nosso Senhor, dá-se o contrário do que foi dito na primeira Regra. Pois neles costuma o demônio suscitar perturbações de consciência, tristeza e desânimo, inquietando-os com falsas razões, para que não vão por diante na sua santificação. Pelo contrário, é próprio do bom espírito dar coragem, forças, consolações, lágrimas, inspirações e tranqüilidades, tornando-lhes tudo fácil e afastando todos os impedimentos, para que vão sempre adiantando na virtude e perfeição.

3. Da consolação espiritual. Chamo consolação qualquer movimento interno que impele a alma para mais servir e amar o seu Criador e Senhor, afastando-a, por conseguinte, de todas as coisas criadas para só descansar no Criador delas; e também quando provoca lágrimas de amor a Deus, de dor dos próprios pecados, de compaixão pela morte de Cristo e de outras coisas ordenadas diretamente ao seu serviço e louvor; finalmente, chamo consolação a todo aumento de fé, de esperança e caridade, e a toda a alegria interna que atrai o homem para as coisas celestes e salvação de sua alma, dando-lhe paz e tranqüilidade em seu Criador e Senhor.

4. Da desolação espiritual. Chamo desolação tudo que é contrário ao que foi mencionado na terceira Regra, como por exemplo: trevas na alma, perturbações, inclinação para coisas baixas e terrenas; desassossego por várias tentações, que impelem a alma para a desconfiança, enfraquecendo-a na fé e na caridade, tornando-a triste e indolente no serviço de seu Criador e Senhor. Porque da mesma forma que a consolação é contrária à desolação, também os pensamentos, que nascem da consolação, são contrários aos que nascem da desolação.

5. No tempo da desolação não se deve mudar nada, mas perseverar firme e constante nos propósitos feitos no tempo da consolação; porque do mesmo modo que na consolação nos aconselha e guia o bom espírito, assim o mau nos causa, na desolação, sugestões, a que não podemos dar assentimento.

6. Ainda que na desolação não devamos mudar nossos propósitos, contudo é muito útil agir contra a mesma desolação, persistindo, por exemplo, mais tempo na oração, no exame de consciência e alargando-nos mais no uso das penitências.

7. Quem está na desolação considere que o Senhor, para o provar, o abandona a suas próprias forças naturais, a fim de que resista às várias tentações do inimigo; pois não lhe falta o auxílio divino, ainda que o não sinta; porque, se o Senhor lhe tirou o fervor primitivo, e sensível, e a graça superabundante, deixou-lhe todavia a graça suficiente para a sua salvação.

8. Quem está na desolação, trabalhe por levar com paciência as penas que lhe sobrevêm e pense que prontamente será consolado, tomando as medidas contra tal desolação como foi indicado na 6ª Regra.

9. São três as causas principais por que nos achamos desolados. A primeira é porque somos tíbios, preguiçosos ou negligentes em nossos exercícios espirituais e, por nossas faltas, se afasta de nós a consolação espiritual. A segunda porque Deus quer ver quanto podemos e até onde chegamos no seu serviço e louvor sem os auxílios da consolação. A terceira, porque Deus nos quer dar a conhecer que não está em nosso poder sentir grande devoção, amor intenso, lágrimas, nem qualquer outra consolação espiritual, mas que tudo é graça de Deus, Nosso Senhor, a fim de que não nos ensoberbecemos nem envaidecermos atribuindo a nós mesmos a devoção e outras manifestações da consolação espiritual.

10. Aquele que está em consolação pense como se portará na desolação que depois virá, armazenado novas forças para esse tempo.

11. Quem está consolado procure humilhar-se e abater-se quanto puder, considerando quão pouco vale no tempo da desolação sem a graça da consolação. Pelo contrário, quem está na desolação, pense que muito pode com a graça, que não lhe falta para resistir a seus inimigos, recebendo forças de seu Criador e Senhor.

12. O inimigo procede como uma mulher, mostrando-se fraco contra o forte, e forte contra o fraco. Assim como é próprio da mulher, quando luta com algum homem, perder a coragem e fugir, se o homem se mostra corajoso; e, ao contrário, se o homem se mostra covarde e tímido, a ira da mulher chega até ao excesso: do mesmo modo costuma o nosso inimigo enfraquecer e fugir, se aquele que se exercita nas coisas espirituais lhe resiste varonilmente e se opõe diametralmente às suas sugestões; se, pelo contrário, aquele que se exercita, começa a ter medo e a perder a coragem em lhe resistir, não há fera no mundo mais terrível, que este inimigo da natureza humana.

13. Porta-se também o demônio como um falso amante, que não quer ser descoberto. Assim como um homem que, procurando seduzir, com suas ilusórias palavras, a filha dum pai honesto, ou a esposa dum marido honrado, lhes propõe silêncio e pede segredo para que suas pérfidas insinuações não cheguem aos ouvidos do pai ou do marido, pois desfazer-se-ia toda a sua tentativa: assim quer o inimigo que as falazes propostas, que segreda à alma justa, fiquem ocultas e não sejam manifestadas ao confessor ou a uma pessoa espiritual que conheça bem seus embustes, pois perderia toda a esperança de consumar a sua malícia ao ver descobertos todos os seus artifícios.

14. Porta-se também o demônio como um general, quando quer apoderar-se duma fortaleza. Pois, à semelhança dum comandante ou chefe militar que, depois de assentar os arraiais, explora as fortificações e obras de defesa, para saber qual é a parte mais fraca, para começar por ela o ataque: assim o maligno espírito anda rondando em volta de nós para explorar as nossas virtudes teologais, cardeais e morais, a fim de começar por onde nos achar mais fraco, e nos render.

EXERCÍCIOS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA
– Com práticas e meditações para oito dias de retiro pelo Pe. Alexandrino Monteiro, S.I.
– II Edição – Editora Vozes – 1959  – pp. 320-323.


II

1. É próprio de Deus e de seus Anjos, quando entram numa alma, enchê-la da verdadeira alegria e gozo espiritual, e banir toda a tristeza que o inimigo procura introduzir nela. Ao contrário, é próprio do mau espírito combater esta alegria e gozo espiritual por motivos fúteis, sutilezas e contínuas ilusões.

2. Só a Deus pertence consolar a alma sem causa precedente, pois só Ele tem direito de entrar nela e sair quando quiser, movendo-a ao amor de sua divina Majestade. Digo sem causa precedente, isto é, sem nenhum aviso prévio ou conhecimento de qualquer objeto, que dê origem àquela consolação.

3. Quando a consolação é precedida de alguma causa, o bom e o mau anjo podem ser igualmente o seu autor; mas os fins são inteiramente contrários. O bom anjo tem por finalidade o aproveitamento da alma, que deseja ver crescer nas virtudes. O mau anjo, ao contrário, quer vê-la retroceder no bem, para a levar, enfim, a seus perversos intentos.

4. É próprio do mau espírito transformar-se em anjo de luz e entrar primeiramente nos sentimentos da alma piedosa e acabar por lhe inspirar os seus próprios sentimentos. Assim, começa por sugerir a esta alma pensamentos bons e santos conforme às suas disposições virtuosas; mas logo, pouco a pouco, procura prendê-la em seus laços secretos e levá-la a consentir em seus pecaminosos intentos.

5. É examinar com grande cuidado o curso de nossos pensamentos. Se o princípio, o meio e o fim são bons e tendem ao bem, é sinal de que vêm do bom anjo; mas se no decurso deles se encontram alguma coisa má, vã ou diferente do que tínhamos proposto fazer, é sinal evidente de que tais pensamentos procedem do mau espírito.

6. Quando o demônio for descoberto por sua cauda serpentina, isto é, pelo fim pernicioso a que nos quer levar, será útil considerar os pensamentos que nos sugeriu, examinar-lhes o princípio e ver como, pouco a pouco, nos fez perder a alegria espiritual até nos levar à sua perversa intenção. A fim de que, pela experiência alcançada, nos acautelemos para o futuro de suas costumadas fraudes.

7. Naqueles que vão de bem em melhor costuma o bom anjo insinuar-se docemente, como uma gota d’água que cai numa esponja. O mau anjo, ao contrário, entra bruscamente como água que cai em pedra. Naqueles, porém, que vão de mal em pior, entram os mesmos espíritos diversamente, conforme à disposição da alma lhes é contrária ou semelhante. Se lhes é contrária, entram ruidosamente; se semelhante, entram silenciosamente e como por casa de porta aberta.

8. Quando a consolação vem sem causa precedente, ainda que esteja livre de fraude, pois é de Deus, como foi dito na 2ª Regra, contudo a alma, que recebe esta consolação, deve atender bem e distinguir o tempo que se lhe segue. Pois neste segundo tempo, em que a alma se sente toda fervorosa e gozando ainda dos restos da consolação passada, acontece tomar várias resoluções, que não são inspiradas imediatamente por Deus, e por isso devem-se examinar bem antes de se lhes dar inteiro assentimento e por em execução.

EXERCÍCIOS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA
Com práticas e meditações apropriadas para oito dias de retiro pelo Pe. Alexandrino Monteiro, S.I.
II Edição – Editora Vozes – 1959 – pp. 324-325


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Comentários de Evágrio Pôntico sobre a luxúria

 


O demônio da fornicação, como ele mesmo diz, é um demônio que possui engenhosidades para tentar os outros. Vejamos:

"Quando alguém adquire a impassibilidade da parte concupiscente e faz com que os pensamentos vergonhosos sejam doravantes um pouco esfriados, este demônio introduz homens e mulheres [que se divertem juntos] e torna o sujeito um espectador de cenas e atitudes condenáveis. Contudo, essa tentação pode ser combatida com oração intensa e regime estrito unido às vigílias e os exercícios de contemplação espirituais".

Logo, vemos que a parte do irascível deve ser fortalecida na primeira parte da luta contra esses maus pensamentos. O irascível ordenado seria um remédio útil nas tentações.

"...é preciso estar atento a isso e arrancar rapidamente do intelecto tais imagens, para que elas não se tornem um — tição fumegante — que nos leve a ceder contra tentações.

Todos os pensamentos impuros que persistem em nós por causa das paixões fazem o intelecto decair "até a ruína e a perdição". (1Tm 6, 9)

Os efeitos desastrosos de tais pensamentos levam o intelecto a rejeitar as refeições divinas — isto é — o conhecimento e a busca de Deus nas Sagradas Escrituras. Logo, vemos que a persistência e o consentimento dos maus pensamentos nos levam a perder as ciências de Deus (as virtudes).

O coração precisa estar atento para verificar aquilo que o intelecto está nutrindo. Como o intelecto não pode receber duas imagens ao mesmo tempo, façamos o seguinte contra as tentações:

É preciso que nos momentos de tentações, façamos o intelecto sair de um pensamento impuro para uma outra representação, e desta para uma outra, para que não alimentemos o nosso enganador com sua tentação diabólica.

Caso o intelecto não se desloca do objeto de tentação, ele vai se submergir pela paixão, e se arrisca a caminhar ao pecado pelo ato. Esse intelecto tem necessidade de vigília, purificações e orações.

O pensamento demoníaco (a tentação) são representações de imagens do homem sensível ao passo que ele as alimenta levado pelas paixões na fala, no modo de vestir ou age em segredo.

O intelecto divaga quando está apaixonado (dominado por uma paixão) e se torna difícil de segurar quando visita e revisita as matérias produtoras do prazer.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

O Reino de Deus na vida íntima



Por D. Rubén Calderón Bouchet

Não vê quem quer, mas quem pode. Verdade de simples bom senso, fundada na aptidão da vista para perceber, mediante um exercício adequado, aspectos da realidade não notados pelo inexperiente. A vida espiritual do homem é um exercício constante, cujos progressos se medem pelas mudanças qualitativas experimentadas na condução da própria vida. A explicação deste fato possui um grau inevitável de inefabilidade, mas pode ser compreendida pela analogia existente em todas as experiências espirituais. O poeta, o músico, o sábio e o cientista, em suas respectivas esferas, conhecem as transformações provocadas pelo aprofundamento no domínio de seu saber ou de sua arte. Há um nível de profundidade, de compromisso vital com a ordem real, que é fruto de uma conquista espiritual permanente.

A vida religiosa obedece a um ritmo análogo, e seu progresso ou atrofia depende, em grande medida, da resposta adequada dada pelo homem aos movimentos da Graça. Os grandes místicos de todos os tempos, mas em particular os profetas de Israel e os santos da tradição cristã, deixaram um testemunho preciso de suas experiências interiores. A dificuldade de serem compreendidos pelo homem de hoje se deve à anemia religiosa, e não, como se pretende fazer crer, à incidência de uma linguagem escrita para outra época. A linguagem religiosa — como a musical ou a poética — requer, para ser compreendida, uma alma afinada na percepção de suas invocações. Os costumes grosseiros de uma época mergulhada no sensualismo de experiências epidérmicas tornam cada dia mais difícil a tarefa de penetrar na profundidade da alma onde habita o Espírito Santo.

Sendo de natureza decaída, o homem foi chamado pelo batismo a uma forma de vida mais nobre. O batismo possui um duplo significado: a morte do homem do pecado e o nascimento para uma participação mais íntima na existência de Deus. O bem dado pela Graça — disse São Tomás de Aquino — é mais importante que todos os bens naturais do universo: inicia a vida eterna e, por conseguinte, a realização do Reino de Deus nas almas. 

Não basta a presença sobrenatural de um germe de vida divina para o advento do Reino de Deus. É necessário um cuidado permanente e uma tenaz atenção empenhada no delicado crescimento dessa semente. A fé, a esperança e a caridade cristãs constituem um organismo espiritual regenerador, cujo vigor atua de modo criador e em perpétua colaboração com a boa disposição das faculdades e apetites naturais. Foi erro luterano crer em uma justificação do homem imputável exclusivamente aos méritos de Cristo, como se a Graça abolisse a liberdade humana e construísse o Reino de Deus sem a contribuição voluntária do crente.

Rubén Calderón , Apogeu da Cidade Cristã, Cap. 1, O Reino de Deus na Vida Íntima, Art. 4.


domingo, 22 de junho de 2025

O monge domador de animais


Muitos moços estariam prontos a matar o dragão nos bosques, como Siegfrield; mas, quanto se trata do dragão das suas más inclinações, não têm a paciência de lhe dar combate. Preferem renunciar a esse santo trabalho.

Uma noite, o abade de um mosteiro perguntou a um dos seus monges: “Que tens hoje?” – “Eu, respondeu o monge, como todos os outros dias, estive tão ocupado que minhas fracas forças nunca teriam bastado para isso, se não fosse o auxílio da graça divina. Todos os dias tenho de vigiar dois falcões, conter dois cervos, forçar dois gaviões a fazerem minha vontade, vencer um verme, domar um urso e tratar de um doente!”

- “Que é que estás contando?, interrogou o abade rindo. Tais trabalhos não se fazem no nosso mosteiro!” – “Assim é contudo, replicou o monge. Os dois falcões são meus olhos, que devo vigiar continuamente para que não se detenham em objeto proibido. Os dois veados são meus pés, cujo andar devo regrar, se não quiser que me conduzam pela senda do mal. Os dois gaviões são minhas mãos, que me cumpre forçar a trabalhar e a fazer o bem. O verme é minha língua, que precisa ser refreada cem vezes no dia para não ter conversas vãs e superficiais. O urso é o meu coração, cujo egoísmo e vaidade tenho que domar. E o doente é meu corpo, de que me cumpre tomar cuidado incessante, para que a sensualidade não se aposse dele.”

E aquele monge tinha bem razão. A luta contra os teus instintos desordenados assemelha-se ao trabalho do domador; e todos os que querem progredir o seu caráter devem entregar-se diariamente a esse trabalho... tu também, meu filho.

O jovem, que tem cuidado de se tornar homem de caráter, jamais desculpará os seus defeitos, dizendo: “Não há remédio, nasci assim, é a minha natureza”; porém trabalhará sem descanso em aperfeiçoar a sua alma... Repete, pois, a miúdo: se minha alma está cheia de animais selvagens, domá-los-ei! Não ficarei como nasci, virei a ser aquilo que quero ser!

Dom Tihamer Toth

O Moço de Caráter



Os extremos de Tolstói e Nietzsche e a plenitude de Santa Joana d'Arc

  "Santa Joana d'Arc não estava presa na encruzilhada, nem por rejeitar todos os caminhos, como Tolstói, nem por aceitar todos, com...