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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Os extremos de Tolstói e Nietzsche e a plenitude de Santa Joana d'Arc

 


"Santa Joana d'Arc não estava presa na encruzilhada, nem por rejeitar todos os caminhos, como Tolstói, nem por aceitar todos, como Nietzsche. Ela escolheu um caminho, e o percorreu como um raio. Joana, no entanto, quando pensei nela, tinha em si tudo o que era verdade em Tolstói ou em Nietzsche, tudo o que era tolerável em qualquer um deles. Pensei em tudo o que é nobre em Tolstói: o prazer em coisas simples, especialmente em piedade simples, as realidades da terra, a reverência pelos pobres, a dignidade das costas encurvadas. Joana d'Arc tinha tudo isso, e mais esta grande característica: suportou a pobreza e também a admirou; ao passo que Tolstói é apenas um típico aristocrata tentando descobrir o segredo da pobreza. E então pensei em tudo o que era corajoso e orgulhoso e patético no pobre Nietzsche e em seu motim contra o vazio e a timidez de nosso tempo. Pensei em seu clamor pelo equilíbrio extático do perigo, sua fome pela corrida dos grandes cavalos, seu clamor às armas. Bem, Joana d'Arc tinha tudo isso, e mais uma vez com esta diferença: ela não elogiou a luta, mas luto. Sabemos que ela não temia um exército, enquanto Nietzsche pelo que sabemos, temia uma vaca. Tolstói apenas exaltou o camponês; ela era camponesa. Nietzsche apenas exaltou o guerreiro; ela era a guerreira. Ela venceu os dois em seus próprios ideais antagônicos: ela era mais gentil que um e mais violenta que o outro. No entanto, ela era uma pessoa perfeitamente prática que fez algo, enquanto eles eram especuladores selvagens que não fizeram nada. Era impossível que não passasse por minha cabeça o pensamento de que ela e sua fé talvez tivessem algum segredo de unidade e utilidade morais que se perdeu". 

G. K. CHESTERTON, Ortodoxia, cap. III, p. 52–53.

sábado, 2 de agosto de 2025

Os materialistas e os doidos

 


Devemo-nos lembrar que a filosofia materialista (verdadeira ou não) é muito mais limitadora do que qualquer religião. É certo que, em determinado sentido, todas as idéias inteligentes são estreitas: não podem ser mais largas do que elas próprias. Um cristão é tão limitado quanto um ateu. O cristão não poderá julgar o cristianismo falso e continuar a ser cristão. O mesmo ocorre com um ateu. Acontece, porém, que há um sentido muito especial no qual o materialismo tem maiores restrições do que o espiritualismo. Mc Cabe julga-me um escravo porque não posso acreditar no determinismo, e eu julgo Mc Cabe um escravo porque ele não pode acreditar em fadas. Examinando, porém, os dois vetos, verificaremos que o dele é, realmente, muito mais proibitivo do que o meu. O cristão tem plena liberdade de acreditar que existe no Universo uma ordem estabelecida e um inevitável desenvolvimento, mas o materialista não pode admitir, na sua irrepreensível máquina, a menor parcela de espiritualismo ou de milagre. O pobre Mc Cabe não poderá admitir o menor diabinho, nem que ele esteja escondido numa pimpinela. O cristianismo admite que o Universo é multiforme e, por vezes, misto, exatamente como o homem normal admite a própria complexidade. O homem são sabe, perfeitamente, que há em si qualquer coisa de animal, de demônio, de santo e de cidadão, chegando mesmo a admitir, quando é verdadeiramente são, que há em si alguma coisa de louco. Mas o mundo do materialista é perfeitamente simples e sólido, exatamente como o louco está convencido de que é uma criatura perfeitamente sã. O materialista julga que a história tem sido, simples e unicamente, uma cadeia de causalidade, como aquele interessante indivíduo, a quem há pouco nos referimos, que estava convencido de que era, simples e unicamente, um verdadeiro frango. Os materialistas e os doidos nunca têm dúvidas.

G. K. Chesterton, Ortodoxia, LTr, 2001, pág. 41-42

Os extremos de Tolstói e Nietzsche e a plenitude de Santa Joana d'Arc

  "Santa Joana d'Arc não estava presa na encruzilhada, nem por rejeitar todos os caminhos, como Tolstói, nem por aceitar todos, com...