domingo, 29 de junho de 2025

Da sociedade sob o império da teologia católica


Por Juan Donoso Cortés

Essa nova teologia chama-se catolicismo. O catolicismo é um sistema de civilização completo; tão completo, que na sua imensidão abarca tudo: a ciência de Deus, a ciência do anjo, a ciência do universo, a ciência do homem. O incrédulo cai em êxtase ao ver sua inconcebível extravagância, e o crente, ao ver tão estranha grandeza. Se acaso há alguém que, ao contemplá-la, passa indiferente e sorri, os homens, mais assombrados ainda dessa estúpida indiferença que daquela colossal grandeza e daquela inconcebível extravagância, levantam a voz e exclamam: «Deixai passar o insensato».

A humanidade inteira cursou, por espaço de dezenove séculos, nas escolas de seus teólogos e doutores; e, após tanto estudar e tanto aprender, ainda hoje não atingiu, com sua sonda, o abismo de sua ciência. Ali aprende-se como e quando hão de findar, e quando e como tiveram princípio, as coisas e os tempos; ali se descobrem segredos maravilhosos, sempre ocultos às especulações dos filósofos gentios e ao entendimento de seus sábios; ali se revelam as causas finais de todas as coisas, o movimento ordenado dos negócios humanos, a natureza dos corpos e as essências dos espíritos, os caminhos por onde andam os homens, o termo a que se dirigem, o ponto de onde vêm, o mistério de sua peregrinação e a rota de sua viagem, o enigma de suas lágrimas, o segredo da vida e o arcano da morte. As crianças amamentadas em seus fecundíssimos seios sabem hoje mais que Aristóteles e Platão, luminares de Atenas. E, contudo, os doutores que tais coisas ensinam e a tais alturas ascendem, são humildes. Só ao mundo católico foi dado oferecer, sobre a terra, um espetáculo antes reservado aos anjos do céu: o espetáculo da ciência prostrada pela humildade ante o acatamento divino.

Chama-se esta teologia católica porque é universal; e é-o em todos os sentidos e sob todos os aspectos: é universal porque abarca todas as verdades; é-o porque abarca tudo quanto todas as verdades contêm; é-o porque, por sua natureza, está destinada a dilatar-se por todos os espaços e a prolongar-se por todos os tempos; é-o em seu Deus e é-o em seus dogmas.

Deus era unidade na Índia, dualismo na Pérsia, variedade na Grécia, multidão em Roma. O Deus vivo é uno em substância, como o índico; múltiplo em pessoas, à semelhança do persa; à maneira dos deuses gregos, é variegado em atributos; e, pela multidão de espíritos (deuses) que o servem, é multidão à maneira dos deuses romanos. É causa universal, substância infinita e impalpável, repouso eterno e autor de todo movimento; é inteligência suprema, vontade soberana, continente e não contido. Ele é quem tirou tudo do nada, quem mantém cada coisa em seu ser; quem governa as coisas angélicas, humanas e infernais. É misericordiosíssimo, justíssimo, amorosíssimo, fortíssimo, potentíssimo, simplicíssimo, secretíssimo, belíssimimo, sapientíssimo. O Oriente conhece sua voz, o Ocidente lhe obedece, o Meio-Dia o reverencia, o Setentrião o acata. Sua palavra incha a criação, os astros velam sua face, os serafins refletem sua luz em suas asas inflamadas, os céus lhe servem de trono, e a redondeza da terra está suspensa em sua mão. Quando se cumpriram os tempos, o Deus católico mostrou sua face; bastou isso para que todos os ídolos fabricados pelos homens ruíssem por terra. Não podia ser de outro modo, pois as teologias humanas não eram senão fragmentos mutilados da teologia católica, e os deuses das nações não eram senão a deificação de alguma das propriedades essenciais do verdadeiro Deus, do Deus bíblico.

O catolicismo apoderou-se do homem em seu corpo, em seus sentidos e em sua alma. Os teólogos dogmáticos ensinaram-lhe o que devia crer; os morais, o que devia fazer; e os místicos, remontando-se acima de todos, ensinaram-lhe a elevar-se ao alto com asas de oração, essa escada de Jacó feita de pedras cintilantes, por onde Deus desce à terra e o homem sobe ao céu, até confundirem-se céu e terra, Deus e homem, abrasados todos no incêndio de um amor infinito.

Pelo catolicismo, entrou a ordem no homem, e pelo homem nas sociedades humanas. O mundo moral reencontrou, no dia da Redenção, as leis que perdera no dia da prevaricação e do pecado. O dogma católico foi o critério das ciências, a moral católica o critério das ações, e a caridade o critério dos afetos. A consciência humana, saída do caos, viu com clareza nas trevas interiores, assim como nas exteriores, e reconheceu a bem-aventurança da paz perdida, à luz desses três critérios divinos.

A ordem passou do mundo religioso ao mundo moral, e deste ao mundo político. O Deus católico, criador e sustentador de todas as coisas, sujeitou-as ao governo de sua providência, e governou-as por seus vigários. Diz São Paulo em sua Epístola aos Romanos (cap. 13): Non est potestas nisi a Deo. E Salomão, nos Provérbios (cap. 8, v. 15): Per me reges regnant, et conditores legum justa decernunt. A autoridade de seus vigários foi santa justamente por ser alheia, isto é, divina. A ideia de autoridade é de origem católica. Os antigos governantes dos povos fundaram sua soberania sobre fundamentos humanos; governavam para si, e governavam pela força. Os governantes católicos, desprezando-se a si mesmos, não foram outra coisa senão ministros de Deus e servidores dos povos. Quando o homem passou a ser filho de Deus, logo cessou de ser escravo do homem. Nada há, ao mesmo tempo, mais respeitável, mais solene e mais augusto do que as palavras que a Igreja proferia aos ouvidos dos príncipes cristãos no momento de sua consagração: «Tomai este bastão como emblema de vosso sagrado poder, para que possais fortificar o fraco, sustentar o vacilante, corrigir o vicioso e conduzir o bom pelo caminho da salvação. Tomai o cetro como regra da equidade divina, que governa o justo e pune o mau; aprendei, por ele, a amar a justiça e a aborrecer a iniquidade.» Estas palavras guardavam perfeita consonância com a ideia de autoridade legítima, revelada ao mundo por Nosso Senhor Jesus Cristo: Scitis quia hi, qui videntur principari gentibus, dominantur eis: et principes eorum potestatem habent ipsorum. Non ita est autem in vobis, sed quicumque voluerit fieri major, erit vester minister; et quicumque voluerit in vobis primus esse, erit omnium servus. Nam et Filius hominis non venit ut ministraretur ei, sed ut ministraret, et daret animam suam redemptionem pro multis (Mc 10, 42-45).

Todos lucraram com essa ditosa revolução: os povos e seus governantes; os segundos, porque, não tendo antes dominado senão sobre os corpos pelo direito da força, passaram a governar corpos e espíritos juntamente, sustentados pela força do direito; os primeiros, porque passaram da obediência ao homem à obediência a Deus, e da obediência forçada à obediência consentida. Contudo, se todos ganharam, não ganharam todos igualmente, pois os príncipes, no próprio ato de governar em nome de Deus, representavam a Humanidade do ponto de vista de sua impotência para constituir autoridade legítima por si mesma e em nome próprio; ao passo que os povos, no próprio ato de obedecer em seu príncipe somente a Deus, representavam a mais alta e gloriosa das prerrogativas humanas: a de não se sujeitarem senão ao jugo da autoridade divina. Isso explica, por um lado, a singular modéstia que resplandece na História nos príncipes ditosos, a quem os homens chamam grandes, e a Igreja chama santos; e, por outro, a nobreza altiva que se vê estampada no semblante de todos os povos católicos. Uma voz de paz, de consolo e de misericórdia se erguera no mundo, e ressoara profundamente na consciência humana; e essa voz ensinara aos homens que os pequenos e necessitados nascem para ser servidos, porque são necessitados e pequenos; que os grandes e ricos nascem para servir, porque são ricos e grandes. O catolicismo, divinizando a autoridade, santificou a obediência; e santificando uma e divinizando a outra, condenou o orgulho em suas mais tremendas manifestações: no espírito de dominação e no espírito de rebeldia. Duas coisas são absolutamente impossíveis numa sociedade verdadeiramente católica: o despotismo e as revoluções. Rousseau, que por vezes teve súbitas e grandes iluminações, escreveu estas notáveis palavras: «Os governos modernos devem indubitavelmente ao cristianismo, por um lado, a consistência de sua autoridade; por outro, o espaçamento maior entre as revoluções. Nem aí se limitou sua influência, pois, atuando sobre eles mesmos, tornou-os mais humanos; para se convencer disso, basta compará-los com os governos antigos» (Émile, Livro IV). E Montesquieu disse: «Não cabe dúvida de que o cristianismo criou entre nós o direito político que reconhecemos na paz, e o das gentes que respeitamos na guerra, cujos benefícios o gênero humano jamais agradecerá suficientemente» (O Espírito das Leis, Livro XXIX, cap. 3).

O mesmo Deus, que é autor e governador da sociedade política, é também autor e governador da sociedade doméstica. No mais escondido, no mais alto, no mais sereno e luminoso dos céus, reside um Tabernáculo inacessível até mesmo aos coros angélicos: nesse Tabernáculo inacessível realiza-se perpetuamente o prodígio dos prodígios e o mistério dos mistérios. Ali está o Deus católico, uno e trino, uno em essência, trino nas Pessoas. O Pai gera eternamente o Filho, e do Pai e do Filho procede eternamente o Espírito Santo. E o Espírito Santo é Deus, e o Filho é Deus, e o Pai é Deus; e Deus não admite plural, porque há um só Deus, trino nas Pessoas e uno na essência. O Espírito Santo é Deus como o Pai, mas não é Pai; é Deus como o Filho, mas não é Filho. O Filho é Deus como o Espírito Santo, mas não é Espírito Santo; é Deus como o Pai, mas não é Pai; o Pai é Deus como o Filho, mas não é Filho; é Deus como o Espírito Santo, mas não é Espírito Santo. O Pai é onipotência, o Filho é sabedoria, o Espírito Santo é amor; e o Pai, o Filho e o Espírito Santo são amor infinito, potência suprema, sabedoria perfeita. Ali, a unidade, dilatando-se, gera eternamente a variedade; e a variedade, condensando-se, resolve-se eternamente em unidade. Deus é tese, é antítese e é síntese; é tese soberana, antítese perfeita, síntese infinita. Porque é uno, é Deus; porque é Deus, é perfeito; porque é perfeito, é fecundíssimo; porque é fecundíssimo, é variedade; porque é variedade, é família. Em sua essência estão, de maneira inenarrável e incompreensível, as leis da criação e os arquétipos de todas as coisas. Tudo foi feito à sua imagem; por isso a criação é una e variada. A palavra “universo” significa precisamente isso: unidade e variedade unidas em um só.

O homem foi criado por Deus à sua imagem, e não somente à sua imagem, mas também à sua semelhança; por isso o homem é uno na essência e trino nas pessoas. Eva procede de Adão, Abel é gerado por Adão e Eva, e Abel, Eva e Adão são uma mesma coisa: são o homem, são a natureza humana. Adão é o homem pai, Eva é o homem mulher, Abel é o homem filho. Eva é homem como Adão, mas não é pai; é homem como Abel, mas não é filho. Adão é homem como Abel, sem ser filho, e como Eva, sem ser mulher. Abel é homem como Eva, sem ser mulher, e como Adão, sem ser pai.

Todos esses nomes são nomes divinos, como divinas são as funções que eles significam. A ideia da paternidade, fundamento da família, não pôde jamais caber por si no entendimento humano. Entre o pai e o filho não existe nenhuma daquelas diferenças fundamentais que constituem base bastante larga para ali se assentar um direito. A prioridade é um fato e nada mais; a força é um fato e nada mais; a prioridade e a força não podem, por si sós, constituir o direito da paternidade, embora possam dar origem a outro fato: o da servidão. O nome próprio do pai, admitido esse fato, é o de senhor, como o nome do filho é o de escravo. E esta verdade, que a razão nos dita, está confirmada pela História: nos povos esquecidos das grandes tradições bíblicas, a paternidade nunca foi senão o nome próprio da tirania doméstica. Se tivesse existido um povo esquecido, por um lado, dessas grandes tradições, e, por outro, apartado do culto da força material, nesse povo os pais e os filhos teriam sido, e se teriam chamado, irmãos. A paternidade vem de Deus, e só de Deus pode vir, no nome e na essência. Se Deus tivesse permitido o completo esquecimento das tradições do paraíso, o gênero humano, com a instituição, teria perdido até mesmo o nome.

A família, divina em sua instituição, divina em sua essência, seguiu em toda parte as vicissitudes da civilização católica; e isso é tão certo que a pureza ou a corrupção da primeira é sempre sintoma infalível da pureza ou corrupção da segunda, assim como a história das vicissitudes e perturbações desta é a história das perturbações e vicissitudes por que passa aquela.

Nas idades católicas, a tendência da família é para o aperfeiçoamento: de natural, converte-se em espiritual, e do lar doméstico passa aos claustros. Enquanto os filhos se prostram reverentes no lar, aos pés do pai e da mãe, os habitantes dos claustros, filhos mais rendidos e reverentes ainda, banham com lágrimas os sacratíssimos pés de outro Pai melhor e o sacratíssimo manto de outra Mãe mais terna. Quando a civilização católica declina e entra em período de decadência, a família logo decai, vicia-se sua constituição, descompõem-se seus elementos e todos os seus vínculos se afrouxam. O pai e a mãe, entre os quais Deus não colocou outro medianeiro senão o amor, interpõem entre si o cerimonial severo; ao passo que uma familiaridade sacrílega suprime a distância que Deus pôs entre filhos e pais, lançando por terra o medianeiro da reverência. A família, então envilecida e profanada, dispersa-se e vai perder-se nos clubes e nos cassinos.

A história da família pode ser encerrada em poucos termos. A família divina, exemplar e modelo da humana, é eterna em todos os seus indivíduos. A família humana espiritual, que é a mais perfeita depois da divina, dura, em todos os seus membros, o tempo que dura o tempo; a família humana natural, entre pai e mãe, dura o que dura a vida, e entre pais e filhos, largos anos. A família humana anticatólica dura, entre pai e mãe, alguns anos; entre pai e filhos, alguns meses; a família artificial dos clubes dura um dia; a dos cassinos, um instante. A duração é, aqui como em muitas outras coisas, medida das perfeições. Entre a família divina e a humana dos claustros há a mesma proporção que entre a eternidade e o tempo; entre a espiritual dos claustros, a mais perfeita das humanas, e a sensual dos clubes, a mais imperfeita, há a mesma proporção que entre a brevidade de um minuto e a vastidão dos séculos.

Juan Donoso Cortés, Ensaio sobre Catolicismo, Liberalismo e socialismo, Livro I, Capítulo II

sábado, 28 de junho de 2025

De filósofos e filosofias

 

Por D. Rubén Calderón Bouchet

Tornou-se moda entre nós dar o título de filósofo a qualquer professor de filosofia e, muitas vezes, a alguém que, sem sê-lo, sai ao encontro do público com algumas reflexões mais ou menos precisas sobre qualquer um desses problemas que afetam a convivência atual. Por se tratar de um termo grego e que, na época, tinha um significado muito preciso no processo daquela cultura, não é aconselhável usá-lo aos trancos e barrancos sem tomar todas as precauções possíveis, de modo que a designação é denotativa de uma atitude em relação à vida semelhante àquela que inspirou o termo na apreciação dos primeiros pensadores gregos.

Na minha opinião, a filosofia começa e termina na Grécia nos sistemas de Platão e Aristóteles e se prolonga, de forma um tanto agonizante, nas escolas de inspiração socrática que culminam em seu surgimento naquele ocaso da civilização grega que foi chamado de helenismo. Como esse processo intelectual tinha uma clara intenção teológica em seus primórdios, o cristianismo projetou, em seu movimento ascendente, as verdades que haviam sido reveladas por Deus e, assim, criou o corpo de sabedoria teológica que teve suas representações mais flagrantes nas figuras de Santo Agostinho, São Boaventura e São Tomás de Aquino, sem negligenciar outras de menor importância, mas de forma alguma insignificantes, que ajudaram a colocar a teologia no ponto culminando de nossa própria cultura.

O que chamamos de mundo moderno nasceu da ruptura do sistema religioso católico no século XVI e começou a aventura de uma redução da fé ao plano da vida doméstica. É o pai de família, diante de sua progênie, que se coloca como intérprete da Palavra Divina e mantém a atenção de sua família diante da sacralidade do livro sagrado. As outras atividades do espírito: ciência, arte, economia e política, na medida em que rompem o cerco disciplinar da sabedoria teológica, propõem-se a encontrar o absoluto em sua própria esfera e percorrem os privilégios de uma autonomia espiritual que as leva, pouco a pouco, a cair no circuito enclausurado da atividade econômica. tornar-se operações voltadas para o aumento da riqueza ou, pelo menos, para entrar na economia de mercado guiadas por critérios impostos pelo trabalho sobre a realidade circundante.

A religião doméstica é de curta duração e logo mostra sua incapacidade de sustentar a vida intelectual e moral dos homens nas alturas exigidas pelos frutos da atividade cultural. Os pensadores que cresceram no calor do fogo de sua casa, sonham em tirá-lo de casa e levá-lo ao fórum nos moldes de um sistema capaz de construir uma interpretação lógica das questões cruciais que afetam a vida do homem: Deus, a alma e o mundo. Como a vida doméstica é intrinsecamente dominada pelas exigências do trabalho cotidiano e este consegue dominar toda a vida do homem, esses pensadores constroem, cada um a seu modo, uma explicação do universo de sua linhagem construtiva e não contemplativa, como era a velha filosofia e era, em sua continuação, a teologia cristã. A poiesis substituiu a teoria, e a teoria emerge dentro desses sistemas individuais, mais como um poema do que como o resultado de um trabalho especulativo de um esforço conjunto dentro de uma escola.

Essa circunstância é criada nas obras dos pensadores modernos: Descartes, Kant, Hegel, etc. uma situação de fechamento que explode assim que seus autores falecem e seus epígonos devem enfrentar as dificuldades que não puderam ser resolvidas e que a natureza fechada do sistema necessariamente leva a desfinanciar. Isso também explica a proliferação daquelas designações que implicam as demandas de uma posteridade transformadora e que, se não fossem preservadas com um espírito progressista, apenas denunciariam a decomposição de um cadáver. Pós-moderno, mais moderno, ultramoderno são substitutos atenuantes para não enfrentar o desânimo da falência ideológica.

Os pequenos vermes que hoje proliferam no esqueleto de um prestigioso morto se autodenominam filósofos com o pretexto de esconder, com um termo venerável, sua condição miserável de carniçais condenados a arrotar o fedor daqueles restos insepultos.

Pessoalmente, não sinto nenhuma inclinação para admirar aquelas construções lógicas que para os poemas carecem de beleza e para a filosofia carecem de verdade. Sem dúvida, não são insignificantes e pode-se ver neles o trabalho sutil de uma inteligência que, a partir de algumas premissas aceitas como postulados, constrói um monumento de argumentos alinhados com precisão e às vezes não sem elegância, mas sempre longe do bom senso que inspirou o nascimento da filosofia.

Auguste Comte tentou apoiar o peso de sua nova ciência, a sociologia, na lei dos três estados que ele pensava ter descoberto em um rápido exame da evolução das ciências. Não é uma tarefa que exija uma reflexão muito longa para provar a completa falsidade dessa lei e, assim, demonstrar a inconsistência desse novo conhecimento que Comte ofereceu como uma sublime coroação do esforço sapiencial positivo. Na realidade, o que se chama ciência das sociedades, quando não se baseia numa análise histórica muito precisa e num claro fundamento antropológico, carece de qualquer fundamento e só pode levar-nos a uma série de confusões tanto mais lamentáveis quanto mais pretensiosas forem as conclusões práticas que dela se procuram tirar.

A sociabilidade é um acidente próprio do homem, surge do caráter essencialmente dialógico de sua razão e não pode ter outro fim senão aquele inscrito em sua natureza espiritual e ordenado por Deus à contemplação de sua essência. Para dispor livremente de suas faculdades espirituais, as sociedades históricas obedecem à sabedoria mais ou menos razoável que o homem imprime em suas ações. Sem dúvida, pode-se observar no discurso diacrônico da existência humana, modalidades que se repetem ao longo do tempo e são a expressão de demandas que surgem do dinamismo natural. Considerá-los independentemente do tempo e do lugar em que aparecem é uma reflexão que se inscreve, com razão, na antropologia filosófica ou na consideração dos princípios universais da ação prática.

A sociologia, como ciência dependente da história, só tem sentido no marco de um sistema filosófico, como o de Comte ou o de Marx, que concebem a sociedade como uma realização acabada e perfeita da evolução natural do homem e, em função desse modelo teológico, as sociedades históricas são entendidas como aproximações e conquistas nunca plenamente concluídas do paradigma essencial situado no fim da história. Visto em perspectiva teológica, esse ideal é o Reino de Deus realizado apenas pelo esforço humano, e isto explica também a pretensão dos sociólogos de fazer de sua ciência uma espécie de saber no qual culminam todos os outros esforços científicos.

Os católicos tradicionais podem ser repreendidos por também terem um sistema interpretativo da realidade no qual a posição de todo conhecimento é organizada e cada conhecimento é localizado, em relação aos outros, em uma situação que está pronta e ordenada para a própria estrutura do sistema. Há alguma verdade nesta afirmação e muito que escapa à sua plena consideração. É verdade que a totalidade do conhecimento é ordenada de acordo com uma hierarquia sapiencial que vai do que sabemos sobre Deus ao que podemos saber sobre o átomo em uma escala que é ordenada de acordo com um grau de perfeição determinado pelo valor das entidades consideradas no estudo. Sem dúvida, isso não constitui um sistema clausível, fechado na perfeição de sua cadeia lógica. O que é determina a profundidade e a amplitude dos vários conhecimentos, mas em nenhum momento se pretende equiparar a realidade ao que é conhecido sem medir o abismo do que é ignorado. O que é, tanto na teologia como na mais humilde disciplina científica, supera o que é conhecido e incita, a partir da sua plenitude, a uma aproximação perpétua do entendimento sem medo de quebrar os esquemas do sistema interpretativo.

Esta é a diferença essencial entre a Escola Aristotélica Tomista e os sistemas ideológicos nascidos à luz do pensamento moderno. Foi isso que inspirou Gilson com aquela frase tão cheia de significado: os modernos pensam, nós tentamos saber. Se a ordem do universo deve nascer totalmente armada da inteligência do homem, o ponto de partida obrigatório para montar o quebra-cabeça é, sem dúvida, a imanência. Quer eu o tome como Descartes da simples enunciação do cogito, quer me detenha para examinar o próprio ato de saber, como acontece em Kant, quer tome como base a dialética oposição sujeito e objeto, a imanência mede o curso de um conhecimento que se desenvolve como silogismo, apoiado nas premissas que se supõem indiscutíveis para o exercício da razão.

Quando dizemos que o ponto de partida normal do conhecimento é a res sensible, estamos diante de um dado que confronta a razão com toda a densidade de seu mistério óptico. A análise pode descobrir os componentes do ser físico, mas nunca consegue chegar ao ponto em que a realidade emerge dos abismos do ser e assume aquela plenitude entitativa que provoca o espanto de nossa inteligência e nos impele a penetrar com sondas lentas e sempre inexaustivas em relação à realidade inesgotável.

Disseram-me que Descartes não era protestante e, em apoio a essa afirmação, eles empunham uma promessa que ele teria feito à Virgem para sair de sua aventura especulativa com segurança. Tudo isso pode ser muito verdadeiro ou não tão verdadeiro quanto parece, mas há um fato certo, sua ligação com os Rosacruzes e esse sonho com todas as características de uma iniciação gnóstica que precede a proposição de suas meditações metafísicas. Lá, a existência de Deus é deduzida de sua enunciação essencial e, embora isso pareça ter sido uma tentação de Santo Anselmo, sua refutação posterior dentro da escolástica teve que ser conhecida por todo filósofo católico antes de embarcar em uma aventura com antecedentes negativos.

Da ordem do conhecimento para a ordem do ser, não se pode tirar uma conclusão legítima, porque a lógica não é ontologia. Temos que esperar o advento de Hegel para encontrar uma confusão dessa natureza levada ao seu mais alto nível especulativo, mas isso já é protestante no sentido mais completo e completo do termo, porém não podemos isentar Descartes de ter sido o primeiro a iniciar esse tipo de reflexão com a qual começa a chamada modernidade. O próprio Hegel reconhece isso em sua História da Filosofia quando denuncia a descoberta antroponímica de Descartes como a primeira a apontar para a Terra como o centro do universo.

Dir-se-á que esta descoberta não coincide com a revolução copernicana, mas não podemos esquecer que os sistemas cosmológicos da época, hélio cenúrico ou não, dependiam em sua construção de nossa inteligência matemática e essa convergência intelectual deu ao homem uma posição central no mundo, que era precisamente o que Hegel queria apontar.

O destino do homem neste mundo é determinado, em grande parte, por suas preferências axiológicas. Com isso não quero dizer nada de estranho, mas apontar, em termos um tanto pedantes, que onde colocamos nosso coração, também encontramos a razão de nossa existência. A ciência, a arte, a política ou a economia são geralmente os pólos de nossas predileções, a menos que nós mesmos estejamos no gozo de nossa plenitude vital, mas como esta não costuma durar muito, logo colhemos os frutos amargos do desencanto que aparecem com os primeiros sintomas de nossa decadência fisiológica.

Esses pólos de valores não podem se tornar instâncias absolutas sem provocar um desequilíbrio na economia de nosso equilíbrio espiritual que inevitavelmente leva à loucura, se não surgir em nós uma força que os equilibre e os ajuste às demandas de uma harmonia existencial que coloque a paz no sistema de valores. Essa é a força que a religião dá, ou, na falta disso, um controle sobre a impulsividade que permite que os impulsos preferenciais parem nos limites onde começam a atacar as outras atividades do espírito.

Falamos de um homem deformado por uma preferência avaliativa quando os critérios de sua condição de cientista, economista, político ou artista penetram no contexto de todas as outras atividades e lhe impõem suas próprias normas espirituais em detrimento daquelas que lhe são específicas. Comte acreditava na possibilidade de impor critérios científicos à política, à economia e às artes, sem descartar a religião que sonhava com isso, emergindo, totalmente armada, da sociologia positiva. Marx pensava que a economia era a atividade que impunha seus critérios a todas as outras atividades da mente e, claro, seguindo com todo o rigor as premissas dessa preferência axiológica, transformou a economia em uma espécie de religião capaz de mudar o destino do homem por meio de uma mudança na posse dos meios de produção. Seu sonho não só se chocou com a natureza de outros saberes, mas também com a própria economia ao despojá-la de sua fonte mais íntima, que é o interesse individual, pois enquanto nenhum outro for inventado, é o único que cada um de nós conhece e aquele que move nossos pés e mãos para alcançar as satisfações que lhe são próprias.

Diz-se também que a religião pode, em alguns casos, penetrar distorcidamente no conteúdo das outras atividades do espírito e desviá-las de seus objetivos, provocando nelas alterações muitas vezes monstruosas. Duvido que isso possa acontecer na medida em que a religião é realmente a obra de Deus. Felix Konevzny fala da religião hebraica como se ela tivesse inspirado uma civilização que ele chama de sacral, para indicar essa substituição de todo conhecimento específico pelo único conhecimento de tipo religioso. De fato, a única ciência cultivada pelos hebreus era a que estava contida na Sagrada Escritura. Não havia outra arte senão aquela inspirada na vida religiosa. A política era a indicada por Yahweh aos seus profetas e a economia era inteiramente baseada em descrições religiosas. No entanto, nenhuma dessas atividades sofreu em seu próprio conteúdo uma distorção imposta por critérios oriundos da religião. Quero dizer que a ciência, embora exclusiva, era um conhecimento completo que não negava a possibilidade de outros conhecimentos. A economia em seu sentido estrito respondia às necessidades do povo e, embora regulada por cânones religiosos, não se afastava da estrutura delineada pelas demandas do bem viver. Os hebreus não se destacaram nas atividades artísticas plásticas, mas seus hinos religiosos, seus salmos e todos os seus escritos proféticos têm a profundidade e o sabor das obras alimentadas por uma inspiração espiritual de inegável altura religiosa. Sua política tinha um objetivo fundamental, sustentar a comunidade israelita na expectativa do grande evento religioso que estava por vir e encher Israel com os dons da promessa feita por Javé. Era, como diz Konevzny, uma civilização sagrada, mas embora todas as suas atividades espirituais fossem intrinsecamente elevadas pela contemplação religiosa, elas não sofriam um prejuízo em suas respectivas naturezas, mas uma ordenação para um destino superior designado e desejado por Deus.

O caso do Islã, que pode se assemelhar à antiga civilização israelita, é diferente. É fácil ver na disposição do Alcorão uma intenção política que direciona a própria fé para um propósito humano: a conquista do mundo pelos crentes e para a maior glória do Islã concebido como um corpo político militar que a fé em Alá alimenta com seu fogo apaixonado. Não esqueçamos que o que o Islã concebe como um reino escatológico é o prolongamento da vida carnal com seus prazeres sensíveis, mas de acordo com as possibilidades de um corpo invulnerável.

É um aforismo da sabedoria popular sustentar que o peixe pela boca morre, o que significa que o que constitui a principal virtude de um homem, sua energia excepcional é o que causa sua queda. Os inteligentes perdem a inteligência e os obstinados seu desejo de dominar. Algo semelhante acontece com as civilizações. Os gregos concluíram sua jornada terrena no fogo-fátuo do alexandrinismo, os romanos no colapso de suas fronteiras se estenderam além de suas possibilidades militares e os judeus perderam o nacionalismo, a ideia de terem sido escolhidos por Deus como um povo favorito e a decepção que Cristo lhes causou quando os colocou. juntamente com os outros povos, em pé de igualdade que ofendeu seu orgulho de nação eleita. O Islã morre quando a guerra santa deixa de sustentá-lo com seu feitiço e seu guerreiro enferruja na saciedade dos bens adquiridos. A Espanha era seu túmulo suntuoso e onde começou o refluxo de sua maré agressiva.

O cristianismo teve que morrer quando perdeu de vista o horizonte sobrenatural de seu destino, e a ideia do Reino de Deus tornou-se uma utopia socialista ou democrática, quando o demagogo substituiu o santo e o agente eleitoral o cavalheiro cristão.


Autoridade e liberdade



Por D. Rubén Calderón Bouchet

O homem normal e espontaneamente tende a ser realista e a acreditar que o mundo ao seu redor existe, independentemente de ele pensar ou não. É uma evidência imediata que lhe é imposta sem crítica prévia e que pode ser adjetiva ingênua ou natural, como você quiser, mas quando a experiência de fundar uma explicação da realidade a partir da imanência foi feita ad nauseam, um retorno a um contato saudável com os primeiros princípios é uma indicação clara de saúde mental. A linguagem humana nasce dessa experiência acrítica e preserva em seus signos verbais a tendência espontânea a um realismo imediato que explica e justifica nosso encontro com as coisas. Recuperar a intenção primordial da linguagem é uma tarefa de purificação filosófica à qual a escola aristotélica se dedicou especialmente.

Acontece que, no curso da história, o homem pode trocar um sistema de valores por outro e inverter a ordem das prelazias axiológicas, colocando em primeiro lugar aquilo que, por sua natureza, ocupa o último lugar em uma escala hierárquica saudável. Em nosso tempo, estamos testemunhando, entre atônitos e perplexos, uma instalação plena de valores econômicos que traz, como consequência imediata, uma corrupção da ciência, da política, da arte e até da religião e da própria economia que, quando hipertrofiada, torna-se uma espécie de falsa religião, como acontece no marxismo ou naquele capitalismo selvagem que busca substituí-lo.

A mudança nas preferências avaliativas provoca uma conseqüente mudança nos critérios com os quais as outras disciplinas da mente devem enfrentar e, é claro, a linguagem sofre a influência dessa corrupção "in radice" da ordem axiológica. As palavras modificam seus significados e muitas vezes passam a significar o oposto do que significavam anteriormente. Assim, o termo prudência, que é sinônimo de sabedoria prática, torna-se um substituto para a cautela que os escolásticos apontavam com a locução de "prudentia carnis" que é, precisamente, o vício oposto à virtude moral por excelência.

A palavra autoridade tornou-se sinônimo de poder e é usada de forma intercambiável para indicar o governo ou a natureza abusiva de um poder exercido fora dos limites de sua jurisdição. Falamos de um governo autoritário ou autoritarismo como se tais palavras fossem semelhantes à autocracia ou ao despotismo, despojando-as de seu conteúdo semântico tradicional que sempre implicava o exercício de um conhecimento flagrante.

Em bom espanhol, pode-se falar do poder de um barco, de uma bomba, de um terremoto, mas não de sua autoridade. Por que? Pois esta palavra sempre implica inteligência, conhecimento, e uma vez que inteligência e conhecimento dependem de nossa participação com inteligência e conhecimento divinos, a autoridade tem Deus como a principal fonte análoga e absoluta de seu exercício responsável.

Se isso é teologia demais para a anemia metafísica de que sofremos hoje, limitar-me-ei a dizer que o termo autoridade é aplicado corretamente quando se refere ao conhecimento que deve ser possuído por aqueles que exercem qualquer prelazia na ordem social em que devem agir. Por isso, não se pode falar de abuso de autoridade quando acontece exatamente o contrário: há um abuso de poder por falta de autoridade.

A razão humana é dialógica e pressupõe para sua perfeição e crescimento que estejamos sujeitos, desde a infância, à autoridade daqueles que conhecem e possuem o conhecimento das coisas que devemos aprender. Nessa relação vital de aprendizagem, há dois momentos que devem ser distinguidos com alguma precisão: um compulsivo e outro presuntivo de conhecimento. Um dócil natural às instâncias educativas pode reduzir o momento da compulsão a um manejo suave de estímulos morais: recompensas ou ameaças, mas os mais turbulentos e rebeldes exigem necessariamente um aumento da dose persuasiva que pode atingir a severidade da punição.

O ato de aprender algo é um ato livre, não é determinado por nenhuma lei física: posso ou não entender que a medida dos ângulos internos de um triângulo é equivalente a dois ângulos retos. Quando minha inteligência se abre para a verdade do teorema, esse conhecimento se torna parte do meu conhecimento. Ninguém pode me fazer entender por golpes, mas enquanto eu tiver que lutar contra a preguiça ou uma má disposição mental, o elemento compulsivo pode desempenhar um papel positivo e me ajudar a superar minhas más inclinações.

Como a distribuição do conhecimento e as medidas coercitivas a serem tomadas para torná-lo efetivo geralmente são da mesma pessoa, o exercício de ambas as funções é atribuído à autoridade sem especificar que em ambas, a inteligência pode agir com maior ou menor sabedoria, ou seja, com maior ou menor autoridade no sentido exato do termo. Em outras palavras, posso ensinar de forma inteligente e aplicar um sistema compulsivo estúpido, pelo qual minha autoridade intelectual não corresponde à minha autoridade educacional. À medida que as pessoas entendem o termo de trás para frente, elas chamarão o comportamento compulsivo errôneo de autoritário e a persuasão inteligente do bom professor de não autoritária.

CALDERÓN BOUCHET, Rubén: Autoridade e liberdade. In: Revista Cabildo, Nº 36, Buenos Aires, maio de 2004, pp. 24-25.



domingo, 22 de junho de 2025

O monge domador de animais


Muitos moços estariam prontos a matar o dragão nos bosques, como Siegfrield; mas, quanto se trata do dragão das suas más inclinações, não têm a paciência de lhe dar combate. Preferem renunciar a esse santo trabalho.

Uma noite, o abade de um mosteiro perguntou a um dos seus monges: “Que tens hoje?” – “Eu, respondeu o monge, como todos os outros dias, estive tão ocupado que minhas fracas forças nunca teriam bastado para isso, se não fosse o auxílio da graça divina. Todos os dias tenho de vigiar dois falcões, conter dois cervos, forçar dois gaviões a fazerem minha vontade, vencer um verme, domar um urso e tratar de um doente!”

- “Que é que estás contando?, interrogou o abade rindo. Tais trabalhos não se fazem no nosso mosteiro!” – “Assim é contudo, replicou o monge. Os dois falcões são meus olhos, que devo vigiar continuamente para que não se detenham em objeto proibido. Os dois veados são meus pés, cujo andar devo regrar, se não quiser que me conduzam pela senda do mal. Os dois gaviões são minhas mãos, que me cumpre forçar a trabalhar e a fazer o bem. O verme é minha língua, que precisa ser refreada cem vezes no dia para não ter conversas vãs e superficiais. O urso é o meu coração, cujo egoísmo e vaidade tenho que domar. E o doente é meu corpo, de que me cumpre tomar cuidado incessante, para que a sensualidade não se aposse dele.”

E aquele monge tinha bem razão. A luta contra os teus instintos desordenados assemelha-se ao trabalho do domador; e todos os que querem progredir o seu caráter devem entregar-se diariamente a esse trabalho... tu também, meu filho.

O jovem, que tem cuidado de se tornar homem de caráter, jamais desculpará os seus defeitos, dizendo: “Não há remédio, nasci assim, é a minha natureza”; porém trabalhará sem descanso em aperfeiçoar a sua alma... Repete, pois, a miúdo: se minha alma está cheia de animais selvagens, domá-los-ei! Não ficarei como nasci, virei a ser aquilo que quero ser!

Dom Tihamer Toth

O Moço de Caráter



Ciência e ignorância


Porque tu és grande, Senhor, e pondes os olhos nas coisas humildes, e as elevadas as conheces de longe, e não te aproximas senão dos contritos de coração. Nem és encontrado pelos soberbos, ainda que sua curiosa perícia seja capaz de contar as estrelas do céu e as areias do mar; seja capaz de medir as regiões do céu e de investigar o curso dos astros.

Com a inteligência e o engenho que lhes deste investigam os segredos do mundo, e descobriram muitos deles; predisseram com muitos anos de antecedência os eclipses do sol e da lua, no dia e hora em que hão de suceder, sem que nunca lhes falhasse o cálculo, acontecendo sempre tal e como haviam anunciado. Deixaram ainda por escrito as leis por eles descobertas, as quais ainda hoje se lêem, e de acordo com elas se prediz em que ano, e em que mês do ano, e em que dia do mês, e em que hora do dia, e em que parte de sua luz se hão de eclipsar o sol e a lua; e tudo acontece como está predito.

Admiram-se disto os ignorantes, e pasmam. Os sábios gloriam-se disso, e se desvanecem, e com ímpia soberba afastam-se e se eclipsam de tua luz. E, prevendo com exatidão o eclipse vindouro do sol, não vêem o seu, que já está presente. Não procuram religiosamente saber de onde lhes vem o talento com que investigam essas coisas e, achando que tu as criaste, não se entregam a ti, para que conserves o que lhes deste, nem se te oferecem em sacrifício, como se tivessem feito a si mesmos; nem dão morte às suas soberbas, que alçam vôo como aves do céu; nem às suas insaciáveis curiosidades que, como peixes do mar, passeiam pelas secretas sendas do abismo; nem às suas luxúrias, que os igualam aos animais do campo, a fim de que tu, ó Deus, fogo devorador, destruas estas suas preocupações de morte, e os torne a criar para uma vida imortal.

Mas não conheceram o caminho, o teu Verbo, por quem fizeste as coisas que numeram, e a eles próprios que as numeram, e os sentidos com que percebem as coisas que numeram, e a mente graças à qual as numeram. Tua sabedoria escapa aos números. Teu Filho Unigênito se fez para nós sabedoria, justiça e santificação, e foi contado entre nós, e pagou tributo a César. Não conheceram este caminho, por onde desceriam de seu orgulho até ele, e por ele subiriam até ele; não conheceram, digo, este caminho, e se julgaram mais elevados e resplandecentes que estrelas, e assim vieram a rolar por terra, e seu coração insensato se obscureceu.

Dizem muitas coisas verdadeiras acerca das criaturas; mas, como não procuram piedosamente a Verdade, isto é, o autor da Criação, não o encontram; e, se o encontram reconhecendo-o por Deus, não o honram como a Deus, nem lhe dão graças. Antes, se desvanecem em seus pensamentos, e se dizem sábios, atribuindo a si próprios o que é teu. Atribuem a ti, com perversa cegueira, suas mentiras, a ti, que és a própria Verdade; alteram a glória de um Deus incorruptível, concebendo-a à semelhança e imagem do homem corruptível, das aves, dos quadrúpedes, das serpentes. E convertem tua verdade em mentira, e adoram e servem antes à criatura do que ao Criador.

Eu porém guardava muitas de suas opiniões verdadeiras acerca das criaturas, cuja explicação encontrava nos números, na ordem dos tempos e no testemunho visível dos astros; comparava-as com os ensinamentos de Manés, que escreveu sobre essas matérias numerosas e delirantes loucuras, sem achar nenhuma explicação para os solstícios e equinócios, os eclipses do sol e da lua, e para outras coisas, enfim, das quais tomara conhecimento pelos livros da sabedoria profana.

Contudo, exigia-me que acreditasse nessas doutrinas, embora não concordassem absolutamente com meus cálculos e com o que meus olhos testemunhavam. 

Senhor, Deus da verdade, acaso te agradará quem conhecer essas coisas? Infeliz do homem que, conhecendo-a todas, te ignora ti; mas feliz de quem te conhece, embora as ignore! Quanto ao que conhece a ti e a elas, este não é mais bem-aventurado por causa de seu saber, mas só é feliz por ti, se, conhecendo-te, te glorifica como Deus, e te dá graças, e não se desvanece em seus pensamentos.

É melhor aquele que reconhece estar na posse de uma árvore e te dá graças por sua utilidade, embora ignore quantos côvados tem de altura e de largura, que o que a mede, e conta todos os seus ramos, mas não a possui, nem conhece, nem ama a seu Criador. Assim o homem fiel, a quem pertencem todas as riquezas do mundo, e que, nada possuindo, possui tudo, por estar unido a ti, a quem servem todas as coisas – embora desconheça até o curso das estrelas da Ursa – e seria insensatez duvidar – é certamente melhor do que o que mede os céus, conta as estrelas e pesa os elementos, mas despreza a ti, que dispuseste todas as coisas em número, peso e medida.

Santo Agostinho - Confissões

De heresias e bobagens

Por D. Rubén Calderón Bouchet

Estamos muito longe da França, mas de vez em quando chega até nós alguma nota de seus curas mais na página, e que é usada imediatamente por algum de nossos pequenos paixinhos de barba que prega em mangas de camisa para uma centena de meninos e meninas que se sacodem ao som de um violão.

Há algum tempo, um deles, muito astuto e ciente do que se cozinha em Paris, culpou certos católicos por ainda estarem sob a influência do tomismo, que esterilizou a busca filosófica e teológica e tentou trancar a Igreja em uma Bastilha sem janelas para a história.

Os dogmas — assegurou — foram criados em um momento da história da Igreja para responder a certas necessidades impostas pelo tempo e pelo lugar. Assim, a confissão apareceu no início da cristandade, mas a psicanálise a tornou desnecessária e obsoleta. Também a imortalidade da alma que não é mencionada de todo no Credo poderia, em um determinado momento da história, ter uma certa importância, mas como carece de qualquer base científica é absolutamente incongruente pregá-la nos novos catecismos como se fosse uma verdade de fé. A estas manifestações claras de sua heterodoxia progressista sucedeu-se uma ardente apologia do crente leigo a quem concedeu, como em sua data Lutero, todos os carismas do sacerdócio, do profeta e até do rei.

Os jovens assistentes o forçaram a uma breve pausa, pois sentiram a necessidade de se agitar, comovidos pela concessão de todos aqueles dons que evitaria, de serem colocados em prática, a irritante disciplina dos seminários e o uso inobre de alguma batina apolida.

Concluiu seu discurso com uma nutrida apologia da liberdade religiosa e como havia entre os participantes um par de figuras que pareciam reprovar seus conceitos, dirigiu-se aos tradicionalistas assegurando-lhes que eles não tinham o monopólio total da estupidez e que, no final, se não exagerassem seus princípios poderiam ser salvos como qualquer outro crente de qualquer outra religião.

Este desejo generoso, longe de acalmar os ânimos dos intransigentes, provocou uma série de perguntas e observações que patrocinaram um diálogo um tanto atrevido e que nem sempre o orador, apesar de sua serena equanimidade, pôde manter nos limites do respeito. Um dos observadores argumentou que se a alma não fosse imortal, por que diabos o Credo menciona a "vida duradoura". Quanto à confissão, lembrou-lhe as palavras de Cristo: “Os pecados serão perdoados a todos aqueles a quem perdoareis”.

O que se seguiu não é mais narrável porque todos haviam saído um pouco da caixa e os seguidores do bom religioso estimaram que deveriam chutar os intrusos e colocaram mãos e pés no trabalho, de modo que muitas objeções permaneceram latentes no ânimo dos velhos católicos.

Como velho e muito surdo que sou, não assisto às conferências, mas um dos expulsos da reunião que tinha amarrado alguns chutes e ainda mastigava seu rancor me informou com todos os detalhes o que o band-air havia dito e como se tratava de um menino estragado pelas leituras de Castellani e de Meinvielle e talvez algum livro meu lido sem a luz do Concílio, me disse que o bom religioso criticou os Papas que não haviam sabido acolher as ideias liberais, nem entender os progressos implícitos na Revolução Francesa. Por essa razão, eles não entendiam a democracia nem o caráter evangélico que emanava dela. Claro, entre esses papas abomináveis estava, em vez de privilégio, a figura de São Pio X, cuja santidade proclamada pelo Magistério, não impressionava muito nosso religioso, que deveria considerá-la um erro atribuível à época.





sábado, 21 de junho de 2025

O Indiferentismo Religioso


“Dessa fonte enjosada do indiferentismo mana aquela sentença absurda e errônea ou, melhor dizendo, loucura, que afirma e defende a todo custo e para todos, a liberdade de consciência. Este erro pestilente abre caminho, protegido na liberdade de opiniões imoderada que, para a ruína da sociedade religiosa e da civil, se estende cada dia mais por todos os lugares, chegando a impudência de alguns a assegurar que dela se segue grande benefício para a causa da religião. E que pior morte para a alma do que a liberdade do erro! Dizia Santo Agostinho” – Sua Santidade Gregório XVI, encíclica Mirari Vos

A liberdade religiosa corresponde ao termo liberdade na Revolução Francesa. É um termo ambíguo muito útil para o diabo.

Este termo nunca foi compreendido no sentido que o Concílio admite. Todos os documentos anteriores da Igreja que falam de liberdade religiosa entendem por isso a liberdade da religião e nunca a liberdade das religiões. Sempre que a Igreja falou dessa liberdade, falou da liberdade da religião e da tolerância para com as outras religiões. O erro é tolerado. Dar-lhe liberdade é dar-lhe um direito e o erro não tem nenhum. Só a verdade tem direitos. Admitir a liberdade de religiões é dar os mesmos direitos à verdade que ao erro. Isso é impossível. A Igreja nunca pode dizer tal coisa. Na minha opinião, ousar dizer isso é blasfema. Vai contra a glória de Deus, pois Deus é a verdade, Jesus Cristo é a verdade. Colocar Jesus Cristo no mesmo plano que um Maomé ou um Lutero, o que é senão blasfemar? Se temos fé, não temos o direito de admitir isso; é o erro de direito comum que foi condenado por Pio IX e todos os papas.

Com a liberdade religiosa penetrou no Concílio no sentido do termo liberdade segundo a Revolução Francesa.

Considero que o “Cavalo de Tróia” destinado a realizar esta operação contra o Magistério tradicional da Igreja é o esquema inconcebível da “liberdade religiosa”. Admitido este, todo o vigor e todo o valor do Magistério da Igreja caem feridos de morte de uma maneira radical, pois em si o magistério é contrário à liberdade religiosa.

O Magistério impõe sua Verdade, obriga moralmente o sujeito a aceitá-la, priva-o, portanto, de sua liberdade moral. Sem dúvida, sua liberdade psicológica permanece, mas a possibilidade de recusar o ensino não lhe dá, por si só, o direito de recusá-lo. Deve acreditar sob pena de condenação contrária à liberdade.

É dar provas de grande ignorância ou fingir essa ignorância, não querer reconhecer que todas as religiões, exceto a verdadeira, a religião católica, trazem consigo um cortejo de tarefas sociais que são a vergonha da humanidade: pense no divórcio, na poligamia, na contracepção e no amor livre no que diz respeito à família; pense também, no terreno da própria existência da sociedade, nas duas tendências que a destroem: uma tendência revolucionária, destrutiva da autoridade, tendência demagógica, fermento de contínuos desordens, fruto do livre exame, ou uma tendência totalitária e tirânica graças à união da falsa religião com o Estado. A história dos últimos séculos ilustra de forma contundente esta realidade.

É, portanto, inconcebível que os governos católicos se desinteressem pela religião ou que admitam por princípio a liberdade religiosa em terreno público. Seria não ver o fim da sociedade e a extrema importância da religião no terreno social e a diferença fundamental entre a verdadeira religião e as demais no terreno da moral, elemento capital para a obtenção do fim temporal do Estado.

Tal é a doutrina ensinada desde o fim na Igreja. Confere à sociedade um papel capital no exercício da virtude dos cidadãos e, portanto, de forma indireta, na obtenção de sua salvação eterna. Toda criatura foi e ainda está ordenada para esse fim aqui embaixo. As sociedades, família, Estado, Igreja, cada uma em seu posto, foram criadas por Deus com esse fim. Não se pode negar que, de fato, a experiência da história das nações católicas, a história da Igreja, a história da conversão à Fé Católica, manifesta o papel providencial do Estado a tal ponto que se deve afirmar legitimamente que seu papel na obtenção da salvação eterna da humanidade é capital, se não preponderante. Se todo o aparato e o condicionamento social do Estado é secular, ateu, irreligioso e ainda mais se for perseguido pela Igreja, quem ousará dizer que será fácil para os não católicos se tornarem e Para os católicos continuarem sendo? Mais do que nunca agora, com os meios modernos de comunicação social, com as relações sociais que se multiplicam, o Estado tem uma influência cada vez maior sobre o comportamento dos cidadãos ou sobre sua vida interior e exterior, consequentemente sobre sua atitude moral, e em última análise sobre seu destino eterno.

Seria criminoso encorajar os estados católicos a tornarem-se leigos, a despreocupar-se com a religião e a deixar-se difundir indiferentemente no erro e na imoralidade e, sob o falso pretexto da dignidade humana, introduzir um fermento solvente da sociedade com uma liberdade religiosa exagerada, com a exaltação da consciência individual à custa do bem comum como na legitimação da objeção de consciência.

+ Monsenhor Marcel Lefebvre

Conselhos para escapar dos laços do diabo

  Quem quer escapar dos laços e tentações finais do anticristo ou do demônio, deve abrigar dos sentimentos em si mesmo: Primeiro, que sinta...