quinta-feira, 24 de julho de 2025

Comentários de Evágrio Pôntico sobre a luxúria

 


O demônio da fornicação, como ele mesmo diz, é um demônio que possui engenhosidades para tentar os outros. Vejamos:

"Quando alguém adquire a impassibilidade da parte concupiscente e faz com que os pensamentos vergonhosos sejam doravantes um pouco esfriados, este demônio introduz homens e mulheres [que se divertem juntos] e torna o sujeito um espectador de cenas e atitudes condenáveis. Contudo, essa tentação pode ser combatida com oração intensa e regime estrito unido às vigílias e os exercícios de contemplação espirituais".

Logo, vemos que a parte do irascível deve ser fortalecida na primeira parte da luta contra esses maus pensamentos. O irascível ordenado seria um remédio útil nas tentações.

"...é preciso estar atento a isso e arrancar rapidamente do intelecto tais imagens, para que elas não se tornem um — tição fumegante — que nos leve a ceder contra tentações.

Todos os pensamentos impuros que persistem em nós por causa das paixões fazem o intelecto decair "até a ruína e a perdição". (1Tm 6, 9)

Os efeitos desastrosos de tais pensamentos levam o intelecto a rejeitar as refeições divinas — isto é — o conhecimento e a busca de Deus nas Sagradas Escrituras. Logo, vemos que a persistência e o consentimento dos maus pensamentos nos levam a perder as ciências de Deus (as virtudes).

O coração precisa estar atento para verificar aquilo que o intelecto está nutrindo. Como o intelecto não pode receber duas imagens ao mesmo tempo, façamos o seguinte contra as tentações:

É preciso que nos momentos de tentações, façamos o intelecto sair de um pensamento impuro para uma outra representação, e desta para uma outra, para que não alimentemos o nosso enganador com sua tentação diabólica.

Caso o intelecto não se desloca do objeto de tentação, ele vai se submergir pela paixão, e se arrisca a caminhar ao pecado pelo ato. Esse intelecto tem necessidade de vigília, purificações e orações.

O pensamento demoníaco (a tentação) são representações de imagens do homem sensível ao passo que ele as alimenta levado pelas paixões na fala, no modo de vestir ou age em segredo.

O intelecto divaga quando está apaixonado (dominado por uma paixão) e se torna difícil de segurar quando visita e revisita as matérias produtoras do prazer.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Como combater a negligência

 


A negligência é um obstáculo à perfeição, pois entrega os que têm este vício, nas mãos dos inimigos. Para que não te tornes escrava deste pecado, é preciso que fujas da curiosidade, do apego aos bens terrenos e de qualquer ocupação que não convenha ao teu estado.

É preciso que faças esforço para corresponder com presteza a toda a boa inspiração e a qualquer ordem de teus superiores, fazendo tudo no seu tempo, e do modo que os superiores querem.

Não demores, por pouco que seja, a obedecer. Esta falta de diligência acarretará uma segunda, logo uma terceira e outras muitas. Os sentidos se habituam à negligência e cederás então, mais facilmente que no princípio, pois já estás presa do prazer que provaste.

E assim te irás habituando a começar teu trabalho muito tarde, ou então, deixá-lo-ás muitas vezes, como coisa merecida. Pouco a pouco, irá se formando o hábito de negligencia, que se tornará totalmente forte, que, no momento da falta, reconheceremos que somos muito negligentes, sentiremos repugnância de nós mesmos, mas somente faremos o propósito de, mais tarde, em outra ocasião, sermos solícitos e diligentes.

Esta negligência atingirá a toda a nossa alma. Seu veneno infeccionará não somente a vontade, fazendo-a aborrecer aquele trabalho, mas chegará a obcecar a inteligência, de modo tal que ela não verá como são vãos aqueles propósitos de resistir, no futuro, diligentemente, às tentações a que agora, voluntariamente, sucumbirmos.

Não basta fazer, a qualquer momento, o que devemos fazer. É preciso esperar o seu tempo, que será marcado pela hora de realizá-lo, importa fazê-lo com toda a diligência, para que seja cumprido o dever, com toda a perfeição possível.

Fazer um trabalho antes do tempo, não é diligência, mas finíssima negligência. Fazê-lo apressadamente e sem cuidado, com os olhos fitos no descanso que poderemos desfrutar depois, também não passa de negligência.

Estes atos acarretam grande mal à alma, porque não se considera o valor da obra boa, feita no seu tempo, e não se enfrenta com animo resoluto, a fadiga e as dificuldades, que o vício da negligência apresenta, sempre, aos soldados novos.

Deves lembrar-te que uma só elevação da mente a Deus e uma genuflexão em sua honra, vale mais que todos os tesouros do mundo. E que, sempre que fazemos violência a nós mesmos e às nossas paixões viciosas, os anjos nos trazem do reino dos céus uma coroa de gloriosa vitória.

Aos negligentes, Deus vai tirando as graças que lhes dava, e aos diligentes as graças vão crescendo, para que aquelas almas gozem, um dia, no Senhor.

Se nos primeiros princípios, não tens energia para reagir generosamente contra a fadiga e as dificuldades, sempre que as ocultes, para que pareçam menores do que os negligentes as dizem.

Às vezes, é preciso que faças muitos e muitos atos para conquistar uma virtude, e te afadigues muitos dias. Os inimigos te parecem então muito fortes. Começa por isso, a produzir atos, como se fizesses pouca conta deles. Imagina que é por pouco tempo que te precisas afadigar. Combate contra um inimigo, como se não te restassem outros a serem combatidos. E tem sempre uma grande confiança no auxilio que Deus te dispensará, mais forte que o poder dos inimigos. Deste modo, tua negligência começará a se enfraquecer e tua alma se irá dispondo a adquirir a virtude contrária.

Digo o mesmo a respeito da oração. Se ela, por exemplo, deve durar uma hora e isto parece pesado à tua negligência, começa a rezar como se fosse fazer somente durante um oitavo de hora. Passarás depois, com facilidade, ao segundo oitavo, ao terceiro e assim por diante. Mas se, no segundo ou em algum outro oitavo de hora, sentisses que a repugnância e a dificuldade eram fortes demais deixa para depois a oração, para não te cansares em demasia. Mas não te esqueças de retomar, pouco depois, o exercício.

Do mesmo modo deves proceder quanto aos trabalhos manuais, quando acontece que precises fazer muitas coisas e pareçam dificultosas demais, à tua negligência, e te causam aflição.

Começa o teu trabalho corajosamente, e empreende uma das obras, como se fosse a única. Cumprirás assim, todo aquele mister que, à tua negligencio, parecia de grande fadiga.

Se assim não fizeres e não combateres a negligência, prevalecerá em ti este vício, que, não somente a fadiga que sentires durante o exercício da virtude te assustará, mas temerás sempre as dificuldades que te advirão dos trabalhos futuros. E estarás sempre ansiosa, temerás sempre os futuros assaltados do inimigo e recearás a todo o momento, que alguém te venha impor alguma coisa desagradável. Viverás sempre inquieta.

E lembro-te, filha, de que este vício da negligência, pouco a pouco, com seu veneno escondido, não somente ataca as primeiras e pequeninas raízes, que fariam crescer os hábitos das virtudes, mas ferem também os hábitos já adquiridos. É perfeitamente, como o cupim. O vício vai roendo insensivelmente e consumindo o âmago da vida espiritual. O demônio arma este laço contra todos os homens, especialmente contra os mais piedosos.

Vigia, portanto, reza e pratica o bem e não te demores a tecer a fazenda para a veste nupcial, pois deves estar sempre pronta para ir ao encontro do esposo.

E lembra-te todo o dia, de que quem te dá a manhã não te promete a tarde, e quem te dá a tarde não te promete a manha.

Usa, portanto, de todos os teus segundos e minutos, de acordo com a Vontade Divina, e como se fossem os últimos momentos de tua vida. Além disto, deverás prestar conta minuciosíssima de todos os teus instantes.

Concluo, aconselhando-te a que tenhas como perdido o dia em que, mesmo se trabalhaste muito, não conseguiste muitas vitórias contra as tuas más inclinações e contra a tua vontade própria, ou não agradeceste ao Senhor dos benefícios que te concedeu, particularmente a penosa Paixão que Ele sofreu por ti, e paterno e doce castigo, com que te puniu, te fez digna do tesouro inestimável de algumas tribulações.

Lourenço Scúpoli - O Combate Espiritual e o Caminho do Paraíso

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Força e coragem no militante católico


Dir-se-á que a coragem, a bravura ou a fortaleza são virtudes morais que nada podem diminuir, desde que inspirem uma atitude firme diante dos obstáculos que as variadas fortunas de cada um opõem aos seus projetos. O burguês não é mais covarde do que qualquer outro tipo humano e, embora seu apego aos bens terrenos pouco contribua para desenvolver nele um senso heroico de vida, sua indubitável disposição para dominar as coisas o leva a enfrentar decisivamente todas as dificuldades que surgem no caminho do sucesso. Isso também é fortaleza, embora muito limitada aos perigos físicos e totalmente desprovida daquela magnanimidade e magnificência que conferem à paixão dos heróis e santos sua projeção transcendente. Foi dito, com grande exatidão, que o principal objetivo da fortaleza é o maior perigo que uma pessoa pode correr. Isso fica claro quando se depara com a possibilidade da morte. A fortaleza consiste na capacidade de enfrentar tais perigos: " propter aliquod bonum consequendum " (em prol de algum bem que deve ser alcançado), como afirma São Tomás. Para tanto, acrescenta o Santo Doutor, devemos nos preparar, por meio de longa meditação prévia, para sacrificar todos os bens particulares e, antes de tudo, nossas próprias vidas, a fim de alcançar um bem mais nobre (Summa Theologica II, IIae Q. 123). Nessa perspectiva teológica, a fortaleza não é apenas a capacidade de enfrentar eventuais perigos, mas a aceitação lúcida do sacrifício supremo, na serena integridade de quem escolheu o bem maior. Isso não pode acontecer a menos que seja acompanhado por um profundo conhecimento do sentido último da vida. A coragem sem sabedoria, característica de um temperamento valente, não é fortaleza em sentido estrito, e a ignorância dos fins transforma a coragem em sua deformação mais vil, que é a violência. A violência e a preguiça são os vícios que moldam o espírito de irascibilidade burguesa. 

Rubén Calderón Bouchet . O Espírito do Capitalismo: AUSTERIDADE, uma virtude social e militante.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

O Reino de Deus na vida íntima



Por D. Rubén Calderón Bouchet

Não vê quem quer, mas quem pode. Verdade de simples bom senso, fundada na aptidão da vista para perceber, mediante um exercício adequado, aspectos da realidade não notados pelo inexperiente. A vida espiritual do homem é um exercício constante, cujos progressos se medem pelas mudanças qualitativas experimentadas na condução da própria vida. A explicação deste fato possui um grau inevitável de inefabilidade, mas pode ser compreendida pela analogia existente em todas as experiências espirituais. O poeta, o músico, o sábio e o cientista, em suas respectivas esferas, conhecem as transformações provocadas pelo aprofundamento no domínio de seu saber ou de sua arte. Há um nível de profundidade, de compromisso vital com a ordem real, que é fruto de uma conquista espiritual permanente.

A vida religiosa obedece a um ritmo análogo, e seu progresso ou atrofia depende, em grande medida, da resposta adequada dada pelo homem aos movimentos da Graça. Os grandes místicos de todos os tempos, mas em particular os profetas de Israel e os santos da tradição cristã, deixaram um testemunho preciso de suas experiências interiores. A dificuldade de serem compreendidos pelo homem de hoje se deve à anemia religiosa, e não, como se pretende fazer crer, à incidência de uma linguagem escrita para outra época. A linguagem religiosa — como a musical ou a poética — requer, para ser compreendida, uma alma afinada na percepção de suas invocações. Os costumes grosseiros de uma época mergulhada no sensualismo de experiências epidérmicas tornam cada dia mais difícil a tarefa de penetrar na profundidade da alma onde habita o Espírito Santo.

Sendo de natureza decaída, o homem foi chamado pelo batismo a uma forma de vida mais nobre. O batismo possui um duplo significado: a morte do homem do pecado e o nascimento para uma participação mais íntima na existência de Deus. O bem dado pela Graça — disse São Tomás de Aquino — é mais importante que todos os bens naturais do universo: inicia a vida eterna e, por conseguinte, a realização do Reino de Deus nas almas. 

Não basta a presença sobrenatural de um germe de vida divina para o advento do Reino de Deus. É necessário um cuidado permanente e uma tenaz atenção empenhada no delicado crescimento dessa semente. A fé, a esperança e a caridade cristãs constituem um organismo espiritual regenerador, cujo vigor atua de modo criador e em perpétua colaboração com a boa disposição das faculdades e apetites naturais. Foi erro luterano crer em uma justificação do homem imputável exclusivamente aos méritos de Cristo, como se a Graça abolisse a liberdade humana e construísse o Reino de Deus sem a contribuição voluntária do crente.

Rubén Calderón , Apogeu da Cidade Cristã, Cap. 1, O Reino de Deus na Vida Íntima, Art. 4.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

Sã Filosofia

 


Para combater o subjectivismo e o racionalismo, que são a base dos erros liberais, não farei alusão às filosofias modernas infectadas precisamente de subjectivismo e racionalismo. Não é nem o sujeito, nem os seus conhecimentos e os seus anseios que a filosofia de sempre, e em particular a metafísica, toma por objecto, é o ser mesmo das coisas, é aquilo que é. Com efeito, é o ser com as suas leis e princípios, o que nosso conhecimento mais espontâneo descobre. E no seu ápice a sabedoria natural (que é essa filosofia) chega pela teodiceia ou teologia natural ao Ser por excelência, ao Ser subsistente por si mesmo. É este Ser primeiro que o senso comum, apoiado, sustentado e elevado pelas verdades da fé, sugere que seja colocado no topo do real, conforme a Sua definição revelada: Ego sum qui sum (Ex 3, 14): Eu sou aquele que sou. Bem sabeis que quando Moisés perguntou o Seu nome, Deus respondeu: Eu sou o que sou, o que significa: Eu sou Aquele que é por si mesmo, possuo o Ser por mim mesmo. É o ens a se: o ser por si mesmo, em oposição a todos os outros seres que são ens ab alio: ser por outro ser, pelo dom que Deus lhes fez da existência! Este é um princípio tão admirável, que se pode meditar sobre ele durante horas. Ter o ser por si, é viver na eternidade, é ser eterno. Aquele que tem o ser por si mesmo sempre teve que tê-lo, o ser nunca poderia havê-lo abandonado. É sempre, foi sempre, será sempre. Pelo contrário, aquele que é ens ab alio, ser por outro ser, recebeu de outro, portanto começou a ser em algum momento, portanto começou!

Como esta consideração nos deve manter humildes! Compenetrarmo-nos do nada que somos diante de Deus! "Eu sou aquele que é, e tu és aquele que não é", dizia Nosso Senhor a uma santa alma. Como é verdadeiro! Quanto mais o homem absorver este princípio da mais elementar filosofia, melhor saberá o seu verdadeiro lugar diante de Deus.

Somente o facto de dizer: eu sou ab alio, Deus é ens a se; eu comecei a ser, Deus é sempre. Que contraste admirável! Que abismo! É por acaso este pequeno ab alio, que recebe o seu ser de Deus, que teria o poder de limitar a Glória de Deus? Teria o direito de dizer a Deus: tens direito a isto, mas mais nada? "Reina nos corações, nas sacristias, nas capelas, sim; mas na rua e na cidade não!" Que insolência! Igualmente seria este ab alio quem teria o poder de reformar os planos de Deus, de fazer com que as coisas sejam de outra maneira, diferentes de como Deus as fez? E as leis que Deus, em Sua sabedoria e omnipotência criou para todos os seres e especialmente para o homem e para a sociedade, teria o desprezível ab alio o poder de rechaçá-las a seu capricho, dizendo: "Eu sou livre!" Que pretensão! Que absurda esta rebelião do Liberalismo! Vede como é importante possuir uma sã filosofia e ter assim um conhecimento profundo da ordem natural, individual, social e política. Para isto o ensinamento de Santo Tomás de Aquino é insubstituível. Leão XIII o citou na sua encíclica Aeterni Patris de 4 de Agosto de 1879:
«Some-se a isto que o Doutor Angélico procurou as conclusões filosóficas na razão e princípio das coisas, princípios estes que se estendem amplamente e encerram em seu interior as sementes de inúmeras verdades que dariam abundantes frutos com os mestres posteriores. Tendo empregado este método de filosofia, conseguiu vencer os erros dos tempos passados e fornecer armas invencíveis para refutar os erros que sempre haviam de se renovar nos séculos futuros.»

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

domingo, 29 de junho de 2025

Da sociedade sob o império da teologia católica


Por Juan Donoso Cortés

Essa nova teologia chama-se catolicismo. O catolicismo é um sistema de civilização completo; tão completo, que na sua imensidão abarca tudo: a ciência de Deus, a ciência do anjo, a ciência do universo, a ciência do homem. O incrédulo cai em êxtase ao ver sua inconcebível extravagância, e o crente, ao ver tão estranha grandeza. Se acaso há alguém que, ao contemplá-la, passa indiferente e sorri, os homens, mais assombrados ainda dessa estúpida indiferença que daquela colossal grandeza e daquela inconcebível extravagância, levantam a voz e exclamam: «Deixai passar o insensato».

A humanidade inteira cursou, por espaço de dezenove séculos, nas escolas de seus teólogos e doutores; e, após tanto estudar e tanto aprender, ainda hoje não atingiu, com sua sonda, o abismo de sua ciência. Ali aprende-se como e quando hão de findar, e quando e como tiveram princípio, as coisas e os tempos; ali se descobrem segredos maravilhosos, sempre ocultos às especulações dos filósofos gentios e ao entendimento de seus sábios; ali se revelam as causas finais de todas as coisas, o movimento ordenado dos negócios humanos, a natureza dos corpos e as essências dos espíritos, os caminhos por onde andam os homens, o termo a que se dirigem, o ponto de onde vêm, o mistério de sua peregrinação e a rota de sua viagem, o enigma de suas lágrimas, o segredo da vida e o arcano da morte. As crianças amamentadas em seus fecundíssimos seios sabem hoje mais que Aristóteles e Platão, luminares de Atenas. E, contudo, os doutores que tais coisas ensinam e a tais alturas ascendem, são humildes. Só ao mundo católico foi dado oferecer, sobre a terra, um espetáculo antes reservado aos anjos do céu: o espetáculo da ciência prostrada pela humildade ante o acatamento divino.

Chama-se esta teologia católica porque é universal; e é-o em todos os sentidos e sob todos os aspectos: é universal porque abarca todas as verdades; é-o porque abarca tudo quanto todas as verdades contêm; é-o porque, por sua natureza, está destinada a dilatar-se por todos os espaços e a prolongar-se por todos os tempos; é-o em seu Deus e é-o em seus dogmas.

Deus era unidade na Índia, dualismo na Pérsia, variedade na Grécia, multidão em Roma. O Deus vivo é uno em substância, como o índico; múltiplo em pessoas, à semelhança do persa; à maneira dos deuses gregos, é variegado em atributos; e, pela multidão de espíritos (deuses) que o servem, é multidão à maneira dos deuses romanos. É causa universal, substância infinita e impalpável, repouso eterno e autor de todo movimento; é inteligência suprema, vontade soberana, continente e não contido. Ele é quem tirou tudo do nada, quem mantém cada coisa em seu ser; quem governa as coisas angélicas, humanas e infernais. É misericordiosíssimo, justíssimo, amorosíssimo, fortíssimo, potentíssimo, simplicíssimo, secretíssimo, belíssimimo, sapientíssimo. O Oriente conhece sua voz, o Ocidente lhe obedece, o Meio-Dia o reverencia, o Setentrião o acata. Sua palavra incha a criação, os astros velam sua face, os serafins refletem sua luz em suas asas inflamadas, os céus lhe servem de trono, e a redondeza da terra está suspensa em sua mão. Quando se cumpriram os tempos, o Deus católico mostrou sua face; bastou isso para que todos os ídolos fabricados pelos homens ruíssem por terra. Não podia ser de outro modo, pois as teologias humanas não eram senão fragmentos mutilados da teologia católica, e os deuses das nações não eram senão a deificação de alguma das propriedades essenciais do verdadeiro Deus, do Deus bíblico.

O catolicismo apoderou-se do homem em seu corpo, em seus sentidos e em sua alma. Os teólogos dogmáticos ensinaram-lhe o que devia crer; os morais, o que devia fazer; e os místicos, remontando-se acima de todos, ensinaram-lhe a elevar-se ao alto com asas de oração, essa escada de Jacó feita de pedras cintilantes, por onde Deus desce à terra e o homem sobe ao céu, até confundirem-se céu e terra, Deus e homem, abrasados todos no incêndio de um amor infinito.

Pelo catolicismo, entrou a ordem no homem, e pelo homem nas sociedades humanas. O mundo moral reencontrou, no dia da Redenção, as leis que perdera no dia da prevaricação e do pecado. O dogma católico foi o critério das ciências, a moral católica o critério das ações, e a caridade o critério dos afetos. A consciência humana, saída do caos, viu com clareza nas trevas interiores, assim como nas exteriores, e reconheceu a bem-aventurança da paz perdida, à luz desses três critérios divinos.

A ordem passou do mundo religioso ao mundo moral, e deste ao mundo político. O Deus católico, criador e sustentador de todas as coisas, sujeitou-as ao governo de sua providência, e governou-as por seus vigários. Diz São Paulo em sua Epístola aos Romanos (cap. 13): Non est potestas nisi a Deo. E Salomão, nos Provérbios (cap. 8, v. 15): Per me reges regnant, et conditores legum justa decernunt. A autoridade de seus vigários foi santa justamente por ser alheia, isto é, divina. A ideia de autoridade é de origem católica. Os antigos governantes dos povos fundaram sua soberania sobre fundamentos humanos; governavam para si, e governavam pela força. Os governantes católicos, desprezando-se a si mesmos, não foram outra coisa senão ministros de Deus e servidores dos povos. Quando o homem passou a ser filho de Deus, logo cessou de ser escravo do homem. Nada há, ao mesmo tempo, mais respeitável, mais solene e mais augusto do que as palavras que a Igreja proferia aos ouvidos dos príncipes cristãos no momento de sua consagração: «Tomai este bastão como emblema de vosso sagrado poder, para que possais fortificar o fraco, sustentar o vacilante, corrigir o vicioso e conduzir o bom pelo caminho da salvação. Tomai o cetro como regra da equidade divina, que governa o justo e pune o mau; aprendei, por ele, a amar a justiça e a aborrecer a iniquidade.» Estas palavras guardavam perfeita consonância com a ideia de autoridade legítima, revelada ao mundo por Nosso Senhor Jesus Cristo: Scitis quia hi, qui videntur principari gentibus, dominantur eis: et principes eorum potestatem habent ipsorum. Non ita est autem in vobis, sed quicumque voluerit fieri major, erit vester minister; et quicumque voluerit in vobis primus esse, erit omnium servus. Nam et Filius hominis non venit ut ministraretur ei, sed ut ministraret, et daret animam suam redemptionem pro multis (Mc 10, 42-45).

Todos lucraram com essa ditosa revolução: os povos e seus governantes; os segundos, porque, não tendo antes dominado senão sobre os corpos pelo direito da força, passaram a governar corpos e espíritos juntamente, sustentados pela força do direito; os primeiros, porque passaram da obediência ao homem à obediência a Deus, e da obediência forçada à obediência consentida. Contudo, se todos ganharam, não ganharam todos igualmente, pois os príncipes, no próprio ato de governar em nome de Deus, representavam a Humanidade do ponto de vista de sua impotência para constituir autoridade legítima por si mesma e em nome próprio; ao passo que os povos, no próprio ato de obedecer em seu príncipe somente a Deus, representavam a mais alta e gloriosa das prerrogativas humanas: a de não se sujeitarem senão ao jugo da autoridade divina. Isso explica, por um lado, a singular modéstia que resplandece na História nos príncipes ditosos, a quem os homens chamam grandes, e a Igreja chama santos; e, por outro, a nobreza altiva que se vê estampada no semblante de todos os povos católicos. Uma voz de paz, de consolo e de misericórdia se erguera no mundo, e ressoara profundamente na consciência humana; e essa voz ensinara aos homens que os pequenos e necessitados nascem para ser servidos, porque são necessitados e pequenos; que os grandes e ricos nascem para servir, porque são ricos e grandes. O catolicismo, divinizando a autoridade, santificou a obediência; e santificando uma e divinizando a outra, condenou o orgulho em suas mais tremendas manifestações: no espírito de dominação e no espírito de rebeldia. Duas coisas são absolutamente impossíveis numa sociedade verdadeiramente católica: o despotismo e as revoluções. Rousseau, que por vezes teve súbitas e grandes iluminações, escreveu estas notáveis palavras: «Os governos modernos devem indubitavelmente ao cristianismo, por um lado, a consistência de sua autoridade; por outro, o espaçamento maior entre as revoluções. Nem aí se limitou sua influência, pois, atuando sobre eles mesmos, tornou-os mais humanos; para se convencer disso, basta compará-los com os governos antigos» (Émile, Livro IV). E Montesquieu disse: «Não cabe dúvida de que o cristianismo criou entre nós o direito político que reconhecemos na paz, e o das gentes que respeitamos na guerra, cujos benefícios o gênero humano jamais agradecerá suficientemente» (O Espírito das Leis, Livro XXIX, cap. 3).

O mesmo Deus, que é autor e governador da sociedade política, é também autor e governador da sociedade doméstica. No mais escondido, no mais alto, no mais sereno e luminoso dos céus, reside um Tabernáculo inacessível até mesmo aos coros angélicos: nesse Tabernáculo inacessível realiza-se perpetuamente o prodígio dos prodígios e o mistério dos mistérios. Ali está o Deus católico, uno e trino, uno em essência, trino nas Pessoas. O Pai gera eternamente o Filho, e do Pai e do Filho procede eternamente o Espírito Santo. E o Espírito Santo é Deus, e o Filho é Deus, e o Pai é Deus; e Deus não admite plural, porque há um só Deus, trino nas Pessoas e uno na essência. O Espírito Santo é Deus como o Pai, mas não é Pai; é Deus como o Filho, mas não é Filho. O Filho é Deus como o Espírito Santo, mas não é Espírito Santo; é Deus como o Pai, mas não é Pai; o Pai é Deus como o Filho, mas não é Filho; é Deus como o Espírito Santo, mas não é Espírito Santo. O Pai é onipotência, o Filho é sabedoria, o Espírito Santo é amor; e o Pai, o Filho e o Espírito Santo são amor infinito, potência suprema, sabedoria perfeita. Ali, a unidade, dilatando-se, gera eternamente a variedade; e a variedade, condensando-se, resolve-se eternamente em unidade. Deus é tese, é antítese e é síntese; é tese soberana, antítese perfeita, síntese infinita. Porque é uno, é Deus; porque é Deus, é perfeito; porque é perfeito, é fecundíssimo; porque é fecundíssimo, é variedade; porque é variedade, é família. Em sua essência estão, de maneira inenarrável e incompreensível, as leis da criação e os arquétipos de todas as coisas. Tudo foi feito à sua imagem; por isso a criação é una e variada. A palavra “universo” significa precisamente isso: unidade e variedade unidas em um só.

O homem foi criado por Deus à sua imagem, e não somente à sua imagem, mas também à sua semelhança; por isso o homem é uno na essência e trino nas pessoas. Eva procede de Adão, Abel é gerado por Adão e Eva, e Abel, Eva e Adão são uma mesma coisa: são o homem, são a natureza humana. Adão é o homem pai, Eva é o homem mulher, Abel é o homem filho. Eva é homem como Adão, mas não é pai; é homem como Abel, mas não é filho. Adão é homem como Abel, sem ser filho, e como Eva, sem ser mulher. Abel é homem como Eva, sem ser mulher, e como Adão, sem ser pai.

Todos esses nomes são nomes divinos, como divinas são as funções que eles significam. A ideia da paternidade, fundamento da família, não pôde jamais caber por si no entendimento humano. Entre o pai e o filho não existe nenhuma daquelas diferenças fundamentais que constituem base bastante larga para ali se assentar um direito. A prioridade é um fato e nada mais; a força é um fato e nada mais; a prioridade e a força não podem, por si sós, constituir o direito da paternidade, embora possam dar origem a outro fato: o da servidão. O nome próprio do pai, admitido esse fato, é o de senhor, como o nome do filho é o de escravo. E esta verdade, que a razão nos dita, está confirmada pela História: nos povos esquecidos das grandes tradições bíblicas, a paternidade nunca foi senão o nome próprio da tirania doméstica. Se tivesse existido um povo esquecido, por um lado, dessas grandes tradições, e, por outro, apartado do culto da força material, nesse povo os pais e os filhos teriam sido, e se teriam chamado, irmãos. A paternidade vem de Deus, e só de Deus pode vir, no nome e na essência. Se Deus tivesse permitido o completo esquecimento das tradições do paraíso, o gênero humano, com a instituição, teria perdido até mesmo o nome.

A família, divina em sua instituição, divina em sua essência, seguiu em toda parte as vicissitudes da civilização católica; e isso é tão certo que a pureza ou a corrupção da primeira é sempre sintoma infalível da pureza ou corrupção da segunda, assim como a história das vicissitudes e perturbações desta é a história das perturbações e vicissitudes por que passa aquela.

Nas idades católicas, a tendência da família é para o aperfeiçoamento: de natural, converte-se em espiritual, e do lar doméstico passa aos claustros. Enquanto os filhos se prostram reverentes no lar, aos pés do pai e da mãe, os habitantes dos claustros, filhos mais rendidos e reverentes ainda, banham com lágrimas os sacratíssimos pés de outro Pai melhor e o sacratíssimo manto de outra Mãe mais terna. Quando a civilização católica declina e entra em período de decadência, a família logo decai, vicia-se sua constituição, descompõem-se seus elementos e todos os seus vínculos se afrouxam. O pai e a mãe, entre os quais Deus não colocou outro medianeiro senão o amor, interpõem entre si o cerimonial severo; ao passo que uma familiaridade sacrílega suprime a distância que Deus pôs entre filhos e pais, lançando por terra o medianeiro da reverência. A família, então envilecida e profanada, dispersa-se e vai perder-se nos clubes e nos cassinos.

A história da família pode ser encerrada em poucos termos. A família divina, exemplar e modelo da humana, é eterna em todos os seus indivíduos. A família humana espiritual, que é a mais perfeita depois da divina, dura, em todos os seus membros, o tempo que dura o tempo; a família humana natural, entre pai e mãe, dura o que dura a vida, e entre pais e filhos, largos anos. A família humana anticatólica dura, entre pai e mãe, alguns anos; entre pai e filhos, alguns meses; a família artificial dos clubes dura um dia; a dos cassinos, um instante. A duração é, aqui como em muitas outras coisas, medida das perfeições. Entre a família divina e a humana dos claustros há a mesma proporção que entre a eternidade e o tempo; entre a espiritual dos claustros, a mais perfeita das humanas, e a sensual dos clubes, a mais imperfeita, há a mesma proporção que entre a brevidade de um minuto e a vastidão dos séculos.

Juan Donoso Cortés, Ensaio sobre Catolicismo, Liberalismo e socialismo, Livro I, Capítulo II

sábado, 28 de junho de 2025

De filósofos e filosofias

 

Por D. Rubén Calderón Bouchet

Tornou-se moda entre nós dar o título de filósofo a qualquer professor de filosofia e, muitas vezes, a alguém que, sem sê-lo, sai ao encontro do público com algumas reflexões mais ou menos precisas sobre qualquer um desses problemas que afetam a convivência atual. Por se tratar de um termo grego e que, na época, tinha um significado muito preciso no processo daquela cultura, não é aconselhável usá-lo aos trancos e barrancos sem tomar todas as precauções possíveis, de modo que a designação é denotativa de uma atitude em relação à vida semelhante àquela que inspirou o termo na apreciação dos primeiros pensadores gregos.

Na minha opinião, a filosofia começa e termina na Grécia nos sistemas de Platão e Aristóteles e se prolonga, de forma um tanto agonizante, nas escolas de inspiração socrática que culminam em seu surgimento naquele ocaso da civilização grega que foi chamado de helenismo. Como esse processo intelectual tinha uma clara intenção teológica em seus primórdios, o cristianismo projetou, em seu movimento ascendente, as verdades que haviam sido reveladas por Deus e, assim, criou o corpo de sabedoria teológica que teve suas representações mais flagrantes nas figuras de Santo Agostinho, São Boaventura e São Tomás de Aquino, sem negligenciar outras de menor importância, mas de forma alguma insignificantes, que ajudaram a colocar a teologia no ponto culminando de nossa própria cultura.

O que chamamos de mundo moderno nasceu da ruptura do sistema religioso católico no século XVI e começou a aventura de uma redução da fé ao plano da vida doméstica. É o pai de família, diante de sua progênie, que se coloca como intérprete da Palavra Divina e mantém a atenção de sua família diante da sacralidade do livro sagrado. As outras atividades do espírito: ciência, arte, economia e política, na medida em que rompem o cerco disciplinar da sabedoria teológica, propõem-se a encontrar o absoluto em sua própria esfera e percorrem os privilégios de uma autonomia espiritual que as leva, pouco a pouco, a cair no circuito enclausurado da atividade econômica. tornar-se operações voltadas para o aumento da riqueza ou, pelo menos, para entrar na economia de mercado guiadas por critérios impostos pelo trabalho sobre a realidade circundante.

A religião doméstica é de curta duração e logo mostra sua incapacidade de sustentar a vida intelectual e moral dos homens nas alturas exigidas pelos frutos da atividade cultural. Os pensadores que cresceram no calor do fogo de sua casa, sonham em tirá-lo de casa e levá-lo ao fórum nos moldes de um sistema capaz de construir uma interpretação lógica das questões cruciais que afetam a vida do homem: Deus, a alma e o mundo. Como a vida doméstica é intrinsecamente dominada pelas exigências do trabalho cotidiano e este consegue dominar toda a vida do homem, esses pensadores constroem, cada um a seu modo, uma explicação do universo de sua linhagem construtiva e não contemplativa, como era a velha filosofia e era, em sua continuação, a teologia cristã. A poiesis substituiu a teoria, e a teoria emerge dentro desses sistemas individuais, mais como um poema do que como o resultado de um trabalho especulativo de um esforço conjunto dentro de uma escola.

Essa circunstância é criada nas obras dos pensadores modernos: Descartes, Kant, Hegel, etc. uma situação de fechamento que explode assim que seus autores falecem e seus epígonos devem enfrentar as dificuldades que não puderam ser resolvidas e que a natureza fechada do sistema necessariamente leva a desfinanciar. Isso também explica a proliferação daquelas designações que implicam as demandas de uma posteridade transformadora e que, se não fossem preservadas com um espírito progressista, apenas denunciariam a decomposição de um cadáver. Pós-moderno, mais moderno, ultramoderno são substitutos atenuantes para não enfrentar o desânimo da falência ideológica.

Os pequenos vermes que hoje proliferam no esqueleto de um prestigioso morto se autodenominam filósofos com o pretexto de esconder, com um termo venerável, sua condição miserável de carniçais condenados a arrotar o fedor daqueles restos insepultos.

Pessoalmente, não sinto nenhuma inclinação para admirar aquelas construções lógicas que para os poemas carecem de beleza e para a filosofia carecem de verdade. Sem dúvida, não são insignificantes e pode-se ver neles o trabalho sutil de uma inteligência que, a partir de algumas premissas aceitas como postulados, constrói um monumento de argumentos alinhados com precisão e às vezes não sem elegância, mas sempre longe do bom senso que inspirou o nascimento da filosofia.

Auguste Comte tentou apoiar o peso de sua nova ciência, a sociologia, na lei dos três estados que ele pensava ter descoberto em um rápido exame da evolução das ciências. Não é uma tarefa que exija uma reflexão muito longa para provar a completa falsidade dessa lei e, assim, demonstrar a inconsistência desse novo conhecimento que Comte ofereceu como uma sublime coroação do esforço sapiencial positivo. Na realidade, o que se chama ciência das sociedades, quando não se baseia numa análise histórica muito precisa e num claro fundamento antropológico, carece de qualquer fundamento e só pode levar-nos a uma série de confusões tanto mais lamentáveis quanto mais pretensiosas forem as conclusões práticas que dela se procuram tirar.

A sociabilidade é um acidente próprio do homem, surge do caráter essencialmente dialógico de sua razão e não pode ter outro fim senão aquele inscrito em sua natureza espiritual e ordenado por Deus à contemplação de sua essência. Para dispor livremente de suas faculdades espirituais, as sociedades históricas obedecem à sabedoria mais ou menos razoável que o homem imprime em suas ações. Sem dúvida, pode-se observar no discurso diacrônico da existência humana, modalidades que se repetem ao longo do tempo e são a expressão de demandas que surgem do dinamismo natural. Considerá-los independentemente do tempo e do lugar em que aparecem é uma reflexão que se inscreve, com razão, na antropologia filosófica ou na consideração dos princípios universais da ação prática.

A sociologia, como ciência dependente da história, só tem sentido no marco de um sistema filosófico, como o de Comte ou o de Marx, que concebem a sociedade como uma realização acabada e perfeita da evolução natural do homem e, em função desse modelo teológico, as sociedades históricas são entendidas como aproximações e conquistas nunca plenamente concluídas do paradigma essencial situado no fim da história. Visto em perspectiva teológica, esse ideal é o Reino de Deus realizado apenas pelo esforço humano, e isto explica também a pretensão dos sociólogos de fazer de sua ciência uma espécie de saber no qual culminam todos os outros esforços científicos.

Os católicos tradicionais podem ser repreendidos por também terem um sistema interpretativo da realidade no qual a posição de todo conhecimento é organizada e cada conhecimento é localizado, em relação aos outros, em uma situação que está pronta e ordenada para a própria estrutura do sistema. Há alguma verdade nesta afirmação e muito que escapa à sua plena consideração. É verdade que a totalidade do conhecimento é ordenada de acordo com uma hierarquia sapiencial que vai do que sabemos sobre Deus ao que podemos saber sobre o átomo em uma escala que é ordenada de acordo com um grau de perfeição determinado pelo valor das entidades consideradas no estudo. Sem dúvida, isso não constitui um sistema clausível, fechado na perfeição de sua cadeia lógica. O que é determina a profundidade e a amplitude dos vários conhecimentos, mas em nenhum momento se pretende equiparar a realidade ao que é conhecido sem medir o abismo do que é ignorado. O que é, tanto na teologia como na mais humilde disciplina científica, supera o que é conhecido e incita, a partir da sua plenitude, a uma aproximação perpétua do entendimento sem medo de quebrar os esquemas do sistema interpretativo.

Esta é a diferença essencial entre a Escola Aristotélica Tomista e os sistemas ideológicos nascidos à luz do pensamento moderno. Foi isso que inspirou Gilson com aquela frase tão cheia de significado: os modernos pensam, nós tentamos saber. Se a ordem do universo deve nascer totalmente armada da inteligência do homem, o ponto de partida obrigatório para montar o quebra-cabeça é, sem dúvida, a imanência. Quer eu o tome como Descartes da simples enunciação do cogito, quer me detenha para examinar o próprio ato de saber, como acontece em Kant, quer tome como base a dialética oposição sujeito e objeto, a imanência mede o curso de um conhecimento que se desenvolve como silogismo, apoiado nas premissas que se supõem indiscutíveis para o exercício da razão.

Quando dizemos que o ponto de partida normal do conhecimento é a res sensible, estamos diante de um dado que confronta a razão com toda a densidade de seu mistério óptico. A análise pode descobrir os componentes do ser físico, mas nunca consegue chegar ao ponto em que a realidade emerge dos abismos do ser e assume aquela plenitude entitativa que provoca o espanto de nossa inteligência e nos impele a penetrar com sondas lentas e sempre inexaustivas em relação à realidade inesgotável.

Disseram-me que Descartes não era protestante e, em apoio a essa afirmação, eles empunham uma promessa que ele teria feito à Virgem para sair de sua aventura especulativa com segurança. Tudo isso pode ser muito verdadeiro ou não tão verdadeiro quanto parece, mas há um fato certo, sua ligação com os Rosacruzes e esse sonho com todas as características de uma iniciação gnóstica que precede a proposição de suas meditações metafísicas. Lá, a existência de Deus é deduzida de sua enunciação essencial e, embora isso pareça ter sido uma tentação de Santo Anselmo, sua refutação posterior dentro da escolástica teve que ser conhecida por todo filósofo católico antes de embarcar em uma aventura com antecedentes negativos.

Da ordem do conhecimento para a ordem do ser, não se pode tirar uma conclusão legítima, porque a lógica não é ontologia. Temos que esperar o advento de Hegel para encontrar uma confusão dessa natureza levada ao seu mais alto nível especulativo, mas isso já é protestante no sentido mais completo e completo do termo, porém não podemos isentar Descartes de ter sido o primeiro a iniciar esse tipo de reflexão com a qual começa a chamada modernidade. O próprio Hegel reconhece isso em sua História da Filosofia quando denuncia a descoberta antroponímica de Descartes como a primeira a apontar para a Terra como o centro do universo.

Dir-se-á que esta descoberta não coincide com a revolução copernicana, mas não podemos esquecer que os sistemas cosmológicos da época, hélio cenúrico ou não, dependiam em sua construção de nossa inteligência matemática e essa convergência intelectual deu ao homem uma posição central no mundo, que era precisamente o que Hegel queria apontar.

O destino do homem neste mundo é determinado, em grande parte, por suas preferências axiológicas. Com isso não quero dizer nada de estranho, mas apontar, em termos um tanto pedantes, que onde colocamos nosso coração, também encontramos a razão de nossa existência. A ciência, a arte, a política ou a economia são geralmente os pólos de nossas predileções, a menos que nós mesmos estejamos no gozo de nossa plenitude vital, mas como esta não costuma durar muito, logo colhemos os frutos amargos do desencanto que aparecem com os primeiros sintomas de nossa decadência fisiológica.

Esses pólos de valores não podem se tornar instâncias absolutas sem provocar um desequilíbrio na economia de nosso equilíbrio espiritual que inevitavelmente leva à loucura, se não surgir em nós uma força que os equilibre e os ajuste às demandas de uma harmonia existencial que coloque a paz no sistema de valores. Essa é a força que a religião dá, ou, na falta disso, um controle sobre a impulsividade que permite que os impulsos preferenciais parem nos limites onde começam a atacar as outras atividades do espírito.

Falamos de um homem deformado por uma preferência avaliativa quando os critérios de sua condição de cientista, economista, político ou artista penetram no contexto de todas as outras atividades e lhe impõem suas próprias normas espirituais em detrimento daquelas que lhe são específicas. Comte acreditava na possibilidade de impor critérios científicos à política, à economia e às artes, sem descartar a religião que sonhava com isso, emergindo, totalmente armada, da sociologia positiva. Marx pensava que a economia era a atividade que impunha seus critérios a todas as outras atividades da mente e, claro, seguindo com todo o rigor as premissas dessa preferência axiológica, transformou a economia em uma espécie de religião capaz de mudar o destino do homem por meio de uma mudança na posse dos meios de produção. Seu sonho não só se chocou com a natureza de outros saberes, mas também com a própria economia ao despojá-la de sua fonte mais íntima, que é o interesse individual, pois enquanto nenhum outro for inventado, é o único que cada um de nós conhece e aquele que move nossos pés e mãos para alcançar as satisfações que lhe são próprias.

Diz-se também que a religião pode, em alguns casos, penetrar distorcidamente no conteúdo das outras atividades do espírito e desviá-las de seus objetivos, provocando nelas alterações muitas vezes monstruosas. Duvido que isso possa acontecer na medida em que a religião é realmente a obra de Deus. Felix Konevzny fala da religião hebraica como se ela tivesse inspirado uma civilização que ele chama de sacral, para indicar essa substituição de todo conhecimento específico pelo único conhecimento de tipo religioso. De fato, a única ciência cultivada pelos hebreus era a que estava contida na Sagrada Escritura. Não havia outra arte senão aquela inspirada na vida religiosa. A política era a indicada por Yahweh aos seus profetas e a economia era inteiramente baseada em descrições religiosas. No entanto, nenhuma dessas atividades sofreu em seu próprio conteúdo uma distorção imposta por critérios oriundos da religião. Quero dizer que a ciência, embora exclusiva, era um conhecimento completo que não negava a possibilidade de outros conhecimentos. A economia em seu sentido estrito respondia às necessidades do povo e, embora regulada por cânones religiosos, não se afastava da estrutura delineada pelas demandas do bem viver. Os hebreus não se destacaram nas atividades artísticas plásticas, mas seus hinos religiosos, seus salmos e todos os seus escritos proféticos têm a profundidade e o sabor das obras alimentadas por uma inspiração espiritual de inegável altura religiosa. Sua política tinha um objetivo fundamental, sustentar a comunidade israelita na expectativa do grande evento religioso que estava por vir e encher Israel com os dons da promessa feita por Javé. Era, como diz Konevzny, uma civilização sagrada, mas embora todas as suas atividades espirituais fossem intrinsecamente elevadas pela contemplação religiosa, elas não sofriam um prejuízo em suas respectivas naturezas, mas uma ordenação para um destino superior designado e desejado por Deus.

O caso do Islã, que pode se assemelhar à antiga civilização israelita, é diferente. É fácil ver na disposição do Alcorão uma intenção política que direciona a própria fé para um propósito humano: a conquista do mundo pelos crentes e para a maior glória do Islã concebido como um corpo político militar que a fé em Alá alimenta com seu fogo apaixonado. Não esqueçamos que o que o Islã concebe como um reino escatológico é o prolongamento da vida carnal com seus prazeres sensíveis, mas de acordo com as possibilidades de um corpo invulnerável.

É um aforismo da sabedoria popular sustentar que o peixe pela boca morre, o que significa que o que constitui a principal virtude de um homem, sua energia excepcional é o que causa sua queda. Os inteligentes perdem a inteligência e os obstinados seu desejo de dominar. Algo semelhante acontece com as civilizações. Os gregos concluíram sua jornada terrena no fogo-fátuo do alexandrinismo, os romanos no colapso de suas fronteiras se estenderam além de suas possibilidades militares e os judeus perderam o nacionalismo, a ideia de terem sido escolhidos por Deus como um povo favorito e a decepção que Cristo lhes causou quando os colocou. juntamente com os outros povos, em pé de igualdade que ofendeu seu orgulho de nação eleita. O Islã morre quando a guerra santa deixa de sustentá-lo com seu feitiço e seu guerreiro enferruja na saciedade dos bens adquiridos. A Espanha era seu túmulo suntuoso e onde começou o refluxo de sua maré agressiva.

O cristianismo teve que morrer quando perdeu de vista o horizonte sobrenatural de seu destino, e a ideia do Reino de Deus tornou-se uma utopia socialista ou democrática, quando o demagogo substituiu o santo e o agente eleitoral o cavalheiro cristão.


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